segunda-feira, 9 de março de 2015

Tem certeza que rico odeia pobre?




Crédito da foto: www.jornalhojelivre.com.br

Essa atual onda acusando os ricos de odiar os pobres foi estimulada por um artigo de Bresser Pereira, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso. Isso viralizou na internet em forma de memes, charges, desenhos, transcrições de parte do texto etc. e tal.

A maioria não leu o texto e entre aqueles que leram a maioria não o entendeu. Mas deixemos isso pra lá, pois é isso que acontece sempre e não tenho qualquer esperança de que algum dia esse comportamento vá mudar. Então sigamos.

Papo velho

A ideia de que os ricos não gostam de pobre é velha. Pra ficar apenas no nosso tempo, isso remonta há pelo menos 40 anos quando recrudesceram as lutas pelos direitos humanos no País.

Mais recente, o ex-presidente Lula da Silva a recuperou como uma espécie de tábua de salvação contra as pesadas acusações que lhe imputavam relativas ao Mensalão do PT, em 2005.

Lógica ilógica

Esqueça um pouco as sociologias, as psicologias, Marx, a luta de classe, a propaganda política e a ideologia, e pense.

Os ricos (vá lá, vamos colocar no grupo as classes média alta e média, e parte da classe média baixa) têm algum mísero motivo para odiar os pobres?

Nenhum! Muito pelo contrário: rico que é rico adora pobre.

E sabe por que adora, especialmente o pobre histórico, aquele que está aqui pelo mundo desde que o mundo é mundo? Simples.

- pobre não reclama;
- não pede aumento;
- não leva seus filhos feios e sujos para o trabalho;
- não leva a esposa mal vestida para comer na casa do patrão;
- não pede dinheiro emprestado;
- seus filhos não frequentam as mesmas escolas que os filhos dos ricos;
- a família dos pobres não vai ao mesmo shopping center, ao mesmo cinema, ao mesmo bar, ao mesmo restaurante que a família dos ricos;
- pobre quando fica doente não vai ao mesmo hospital, sequer ao mesmo pronto-socorro, e nem dinheiro tem para comprar os remédios que o rico pode comprar;
- não viaja no mesmo avião – pra falar a verdade, sequer consegue viajar.
- quando perde o emprego ou se aposenta some, como num passe de mágica, da frente do patrão rico que nunca mais vê-lo;
- e quando morre, pode acreditar, nem ao menos é sepultado no mesmo cemitério dos ricos.

Então por que cargas d’água os ricos iriam odiar os pobres?

Querem um cara melhor que um sujeito pobre para fazer avançar o Capitalismo?

Tem não!

Medo

Rico não odeia pobre. Ele teme o pobre, principalmente o pobre que está organizado, ciente dos seus direitos na sociedade.

Pra começar entender isso vamos ter de dar um pulinho até os EUA e aos anos 40/50 (se mais espaço houvesse poderíamos dar um pulinho na Idade Média, na Roma Antiga e ainda mais para outros tempos remotos).

Não é preciso repetir aqui toda a história da escravidão e do preconceito nos Estados Unidos, já que todo mundo conhece isso de cór e salteado (botei um acento agudo em cór de propósito pra que muita gente não confunda com a palavra cor/cores) .

Pois bem, lá pelo meio do século passado, os negros, que os norte-americanos preferem chamar de afrodescendentes, resolveram dar um basta na opressão e na segregação, criaram grupos organizados (alguns violentos, outros pacíficos e outros mais ou menos) para enfrentar os wasp (white, anglo-saxon and protestant / branco, anglo-saxão e protestante).

Um dos resultados da rebelião negra, ops, afrodescendente a gente vê na Casa Branca atualmente.

A brancalhada nunca engoliu essa história direito, e provavelmente nunca vá engolir, pois, afinal de contas, os britânicos, para colonizar o novo domínio e matar a indiarada, mandaram pra lá os wasp, e foram eles quem deram inicio à escravidão para encher as suas burras, já que os índios, lá como cá, são insubmissos e não gostam muito dessa história de escravidão.

O exemplo dos negros, ops, dos afrodescendentes foi péssimo, pois insuflou os ânimos dos homossexuais, das mulheres e até dos coitados dos chicanos (forma preconceituosa de se referir aos latino-americanos que vão pra lá defender os seus caraminguás).

Se a luta pelos direitos civis (nestes nossos tempo, por óbvio) iniciou-se pelos negros pobres e em seguida passou para as classes médias, rapidamente se espalhou pelo continente e pelo mundo, e se alojou entre a pobraiada em geral.

Eureka! Somos seres humanos, temos direitos e exigimos que eles sejam respeitados.

Daí, para ficarmos apenas nos nossos exemplozinhos, que se dão os surgimentos das organizações indígenas e quilombolas, do MST, dos sem-teto, da Via Campesina etc. etc. e tal.

Portanto, não é exatamente ódio que o rico tem do pobre, mas temor de que, organizados, os pobres tenham os mesmos direitos (e deveres, por óbvio) que eles; posto que todo rico que se preze crê piamente que Deus só havia destinado a ele essa dádiva (sem os deveres, certamente).