segunda-feira, 2 de março de 2015

Esperando Janot e a queda de Dilma




Cena de En attendant Godot / Waiting for Godot / Esperando Godot, primeira peça de teatro do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Foto: www.fotolog.com

Morar e circular em/por Brasília tem suas vantagens. Você fica sabendo uma porção de coisas antes que os outros brasileiros, como, por exemplo, quem será o ministro desta ou daquela pasta.

A temperatura política em Brasília também é sempre altíssima, e atualmente deixa muito para trás os 30/32oC do forte calor seco do Cerrado.

Enquanto Rodrigo Janot não revela sua listinha com quase uma quarentena de políticos envolvidos no Escândalo da Petrobras, do que mais se fala por aqui é da queda iminente de Dilma Rousseff.

Não, ninguém fala em impeachment, que já é carta fora do baralho e de qualquer jeito iria demorar um tempão, e o País iria sangrar por todos os poros enquanto durasse o processo.

Ninguém quer isso.

Se fala em renúncia de Dilma Rousseff, não à moda de Jânio Quadro, que “queria não querendo” e foi apeado do poder. Seria pra valer, e sem gestos teatrais.

Mas poucos parecem desejar que o poder real vá parar nas mãos do PMDB, via Michel Temer.

Temer é uma temeridade.

O que se fala é que Dilma pode repetir o gesto magistral e tresloucado de Getúlio Vargas.

Tenho cá minhas dúvidas se ela seria capaz de uma insânia e de uma sandice deste naipe.

Seja qual for a hipótese, mais as duas últimas que a primeira, empresários e políticos para aqui deslocados dão que Dilma Rousseff não fica muito mais tempo no Palácio do Planalto.

Circulando

A coisa anda tão feia pelos lados de Dilma Rousseff que funcionários do executivo federal não se intimidam em fazer circular, via WatsApp, mensagens convocando para os protestos de 15 de março e pelo seu impeachment.

Se o seu (sic) partido não ajuda muito, Dilma Rousseff também comete suas gafes monumentais, como a do aniversário do Rio de Janeiro, quando classificou a capital fluminense como a cidade mais importante do Brasil, mais importante do Mundo e mais importante da via Láctea.

É difícil saber o que ela quis dizer com isso.

Se só foi um afago nos cariocas e fluminenses para tentar conter um pouco o furor contra o seu governo.

Ou se foi mais uma tentativa de hostilizar São Paulo, que há séculos vive às turras com “a cidade maravilhosa” (sic).

As duas hipóteses são estúpidas.

Não é com esse tipo de afago que ela vai mudar a ordem das coisas.

E hostilizar os paulistas nunca deu certo para o PT, mesmo levando em conta que a capital paulista elegeu três petistas, Erundina, Marta e Haddad, e o Estado mais dúzia e meia de prefeitos interioranos.

Lula deve saber disso, pois apanha em SP há anos, mais do que cachorro que entra em açougue.

Aparenta que além dos inimigos internos e externos, Dilma tem uma péssima assessoria, que a deixou dizer esse besteirol todo a respeito do Rio de Janeiro, e num momento em que o País está um bocado convulsionado.

Pelo sim, pelo não, o que se diz por aqui – mas isso também está na mídia – é que ela não conseguiu começar a governar em seu segundo mandato porque não tem como governar, já que sua base de apoio está esfacelada, e atualmente quem dá as cartas no País é o juiz federal paranaense Moro, o PGR, Janot, e o presidente da Câmara, o Eduardo Cunha, o terceiro na linha sucessória, mas que também pode aparecer na listinha de Janot, amanhã.

Resumindo a história: a coisa tá feia pros lados da presidente.  

Afinal, delação premiada é uma boa ou não?


Tommaso Buscetta, mafioso italiano - www.histeria.blog.br

A prisão, pela polícia brasileira, e a sua deportação para os EUA, na década de 70, do mafioso italiano Tommaso Buscetta são tidos por muitos como um ponto de inflexão para o desmanche da máfia em todo mundo.

Nem tanto... pois a máfia continua agindo de forma despudorada por todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já domina a hotelaria no Nordeste brasileiro, sob os olhos complacentes dos governos locais e federal.

Um bom resumo da saga de Buscetta está na Wikipédia, que segue:

“Tommaso Buscetta nota 1 (Agrigento, 13 de julho de 1928Nova Iorque, 4 de abril de 2000) foi um dos mais importantes membros da Cosa Nostra, a máfia siciliana. Foi um "arrependido", ou seja, colaborou com a Justiça delatando companheiros e informando o juiz Giovanni Falcone sobre as estruturas da organização e seus esquemas de corrupção de políticos.

Nasceu numa família muito pobre (mãe dona-de-casa, pai vidraceiro), casou-se aos dezesseis anos e para ganhar dinheiro deu início a uma série de atividades ilegais, como o comércio clandestino de fichas para o racionamento da farinha, distribuídas durante o vintênio fascista. Esta função o tornou bastante célebre também em Palermo, onde não obstante a pouca idade foi cognominado Don Masino.

No fim da Segunda Guerra Mundial, vai para Nápoles e depois para Buenos Aires, onde abria uma vidraria: os escassos resultados econômicos do seu trabalho o obrigam, em 1957, a voltar a Palermo. Ali nos anos sessenta Buscetta relaciona-se com o clã de Luigi Rigotto e inicia o contrabando de tabaco, que se interrompe em 1961 com o começo da "Primeira Guerra à Máfia", da qual escapa, ficando dez anos fugitivo.

Durante esse período Buscetta casa-se outras duas vezes, utiliza identidades falsas (Manuele Lopez Cadena e Paulo Roberto Felici) e se desloca por vários países, passando pelos Estados Unidos, Brasil e México. Preso e extraditado pela polícia brasileira em 2 de novembro de 1972, é mantido no cárcere do "Ucciardone" (na capital siciliana) e condenado a catorze anos de prisão (reduzidos a cinco em recurso).

É libertado em 13 de fevereiro del 1980 e encontra trabalho como ajudante de carpinteiro. Em 8 de junho do mesmo ano, vendo-se em perigo, escapa novamente e vai ao Paraguai e de novo ao Brasil, onde aumenta de forma considerável seu patrimônio graças ao tráfico de entorpecentes. Em 24 de outubro de 1983 quarenta homens cercam sua casa e o conduzem à delegacia (comissaria). Buscetta tenta ser liberado oferecendo suborno, mas a tentativa fracassa e é mantido preso.

Em 1984 os juízes Giovanni Falcone e Vincenzo Geraci vão ao seu encontro e lhe pedem para que colabore com a justiça, mas Buscetta inicialmente não admite nada. Extraditado, durante a viagem em avião tenta inutilmente o suicídio, ingerindo uma pequena quantidade de estricnina. Posteriormente, começa a revelar organogramas e planos da Máfia ao juiz Falcone e, por isto, passa a ser considerado o primeiro mafioso arrependido da história.

Em 1993 é extraditado aos Estados Unidos e recebe do governo uma nova identidade e a liberdade (vigiada) em troca de novas revelações contra os planos da Cosa Nostra norte-americana. Nos EUA sofre cirurgias plásticas para despistar os numerosos "assassinos sob encomenda" que tem ao encalço, visto que colaborar com a justiça é, no meio mafioso, a mais grave das traições. Morre de câncer no ano 2000 com 71 anos de idade.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tommaso_Buscetta).

“A César o que é de César” (?)

Rodrigo Janot, PGR - www.jogodopoder.com
A este afalaire interessa muito pouco a história de Buscetta, da máfia e dos delatores em geral.

Nosso negócio aqui, como sempre, são os discursos e muito principalmente as contradições do discurso.

Pessoalmente o autor destas linhas indivisíveis tem antipatia pelas delações e pelo dedo-durismo. Foi educado de outra forma, para não denunciar ninguém, mesmo que razão haja (aparente) para isso.

A ética acima de tudo.

A questão portanto é saber por que a delação premiada de Buscetta é uma boa (“do bem”) e a delação dos delatores (como sempre a repetição de ideia é proposital) do Lava Jato é ruim (“do mal”).

Como sempre... porque teimamos em cair na velha armadilha da moralidade.

A grama do vizinho é mais viçosa que a minha, mas está cheia de pragas e periga invadir o meu jardinzinho.

Então não pode. É imoral e inaceitável.

E a minha grama? Ela também é viçosa, está cheia de pragas, mas é minha e ninguém tem nada com isso.