quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ARGENTINA: jornalista “perseguido” é uma história muito mal contada




Crédito da foto: jewishbusinessnews.com

Ler é um exercício fascinante. Infelizmente a maioria dos seres humanos não lê. Entre aqueles que leem são poucos os com capacidade para entender e interpretar o que se está lendo.

É nesse vácuo que surfam histórias, e mais propriamente o jornalismo “informativo” e “analítico”.

O caso do jornalista Damian Pachter, que saiu da Argentina para fixar-se em Israel, é um caso exemplar de informação confusa e de credibilidade nula.

Vai aqui uma breve análise do texto “Jornalista que deu furo sobre morte de promotor deixa a Argentina” (a íntegra está logo abaixo), onde se vê (e se lê) com clareza meridiana os furos e os vácuos deixados pela “história”.

Comecemos pelos seus textuais:

“Estou indo embora porque minha vida está em perigo. Meus telefones foram grampeados”.

“Voltarei a este país quando minhas fontes me disserem que as condições mudaram. Não acredito que acontecerá neste governo”...

De que tipo de perigo ele está falando? Quem grampeou os seus telefones?

Ora, é difícil aceitar que um jornalista “tão bem informado”, capaz de dar um “furo” de uma morte envolvendo uma figura pública e um caso argentino controverso, não possa ser claro nesse tipo de informação.

A capacidade “furática” aparenta ter se esgotado.

A segunda oração explicita qual é a posição e quais são as reais intenções do garboso jornalista portenho: “condições mudaram” e “não acredito... neste governo”.

Não bastasse isso no mesmo parágrafo há uma informação relevante: “Pachter trabalha para o Haaretz, de Israel”, país no qual, aliás, foi se esconder, talvez por falta de outras opções no mercado de fuga.

Mas é bom seguir:

Diz o texto abaixo:

“Pachter obteve o furo sobre a morte do procurador através de uma fonte confiável – de quem ele diz que “nunca irá revelar” a identidade. Nos dias que se seguiram, coisas estranhas aconteceram”.

Trata-se de uma informação singular ou, trocando em miúdos, trata-se do velho sigilo da fonte, uma velha muleta usada à larga por jornalistas, especialmente para esconder as origens e os interesses de cada informação com a qual trabalha e/ou divulga.

Temos um caso brasileiro bastante próximo desse que é o de Tim Lopes, chacinado por um marginal em um morro carioca.

A mágica, neste caso, da informação está em escamotear a relação de Lopes com a marginalidade carioca e com a bandidagem policial do Estado.

Daí tornou-se fácil criar-se um herói e um jornalista acima de qualquer suspeita. É nisso que Damian Pachter está se transformado, ou naquilo em que está sendo transformado: num herói.

Hum................

Mas voltemos à Argentina e à Israel.

Os “furos” e as incongruências da falação toda de Pachter estão em destaque no texto abaixo.

Divirta-se, mas não se esqueça de levar bem a sério da velha máxima:

“se você souber como se faz salsicha e jornalismo você não consumirá nenhum dos dois”.

= = = = =

CASO ALBERTO NISMAN
Jornalista que deu furo sobre morte de promotor deixa a Argentina
27/01/2015 na edição 835
Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações da Reuters [“Journalist who broke news of prosecutor's death flees Argentina”, 25/1/15] e de Roy Greenslade [“Argentine journalist explains why he fled the country”, The Guardian, 26/1/15]

[O primeiro jornalista a reportar sobre a morte do promotor federal Alberto Nisman deixou a Argentina em 24/1. “Estou indo embora porque minha vida está em perigo. Meus telefones foram grampeados”, afirmou Damian Pachter, que trabalha para o Buenos Aires Herald e para o Haaretz, de Israel. “Voltarei a este país quando minhas fontes me disserem que as condições mudaram. Não acredito que acontecerá neste governo”, disse ele ao site Infobae.

Nisman foi encontrado morto em seu apartamento no dia 18/1, com um tiro na cabeça. Ele investigava um ataque à bomba ocorrido em 1994 em um centro judaico de Buenos Aires, que deixou 85 mortos, e falaria em uma comissão parlamentar sobre as alegações de que a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o ministro do Interior, Hector Timerman, teriam conspirado em 2012 para encobrir oficiais iranianos envolvidos no atentado em troca de acordos comerciais.

Perseguição

Pachter obteve o furo sobre a morte do procurador através de uma fonte confiável – de quem ele diz que “nunca irá revelar” a identidade. Nos dias que se seguiram, coisas estranhas aconteceram, diz o jornalista. Ele afirma que uma matéria da agência de notícias estatal argentina trazia uma citação sobre um suposto tuíte de sua autoria que ele nunca escreveu. “Eu concluí que aquele tuíte era um tipo de mensagem em código”.

Aconselhado por um amigo, Pachter deixou a cidade de ônibus mas, horas depois, desconfiou estar sendo vigiado. O amigo foi a seu encontro e confirmou que havia “um cara da inteligência” atrás dele. O jornalista seguiu, então, ao aeroporto de Buenos Aires, de onde embarcou para Montevideo, Madri e, finalmente, Tel Aviv. Ele escreveu sobre “as 48 horas mais loucas” de sua vida no Haaretz [conteúdo apenas para assinantes]. “A Argentina se tornou um lugar sombrio guiado por um sistema político corrupto. Eu ainda não compreendi tudo o que aconteceu comigo nas últimas 48 horas”, afirmou.]

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