domingo, 25 de janeiro de 2015

Lula é safo, mas vai safar (1) o PT?


Lula está de volta, não para ser candidato em 2018, mas para salvar o PT da insanidade da militância e das burrices que ele mesmo praticou nos últimos 20 anos.

Luiz Inácio Lula da Silva é muita coisa na vida:

- meio safadão; - um bocado demagogo; - populista; - messiânico; - esperto; - mulherengo; - sexista; - machista; - oportunista;

- mas, antes de tudo, é um cara inteligente, com um enorme faro por oportunidades, o que lhe permitiu criar um dos maiores partidos políticos do mundo, uma poderosa central de trabalhadores e ainda deixar suas marcas na maior e mais importante ONG mundial, o MST.

Esperto, Lula sempre procurou andar de mãos dadas com todos, da Fiesp (a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) à imprensa mercantil (conhecida pelas esquerdas como PIG), passando pelo safardana do Bush filho, e com gente tenebrosa como os líderes religiosos do Irã.

Cagadas

Lula da Silva já descobriu há tempos as enormes cagadas que fez dentro do partido, ao dar ouvidos a José Dirceu, e escorraçar do PT gente que pensa, em favor dos milhares, quem sabe milhões, do que os direitistas chamam de militontos.

Dirceu, assim como Lula, tem uma formação política precária e não dariam (ambos) conta de enfrentar professores e pesquisadores universitários, sindicalistas de formação marxista etc. e tal, nos debates que se esperam no interior de um partido político.

A limpeza levou o partido a quatro vitórias consecutivas na corrida ao Palácio do Planalto, mas o maná acabou, e Lula, safo como é, percebeu isso.

A primeira medida é demonizar José Dirceu, que ameaçou recentemente voltar à cena; a outra é sufocar a tal da Ley de Medios, e a terceira fazer uma revisão/reavaliação dos caminhos e descaminhos que o Partido dos Trabalhadores trilhou especialmente nestas duas últimas décadas.

Ódio?

Lula pode ser tudo o que se disse acima que seja, mas burro (na acepção popular do termo) ele não é.

Ele sabe perfeitamente que esse blábláblá sobre o “ódio que as elites têm do PT” não passa disso mesmo: um blábláblá de militontos, coisa para consumo interno, mas que acabou ganhando as ruas, contra a sua vontade.

Tanto assim que vai chamar para a reavaliação do Partido exatamente críticos do PT – jornalistas, analistas, professores universitários e a galera do PIG (não se surpreendam se o Reinaldo Azevedo for convidado para o convescote).

Para o PT, gente como o Reinaldo Azevedo é muito mais útil que esse bando de militontos falando uma ruma de tontices, especialmente nas redes sociais.

Pelo menos ele é um bocado melhor e mais bem informado que os milhões de petistas juntos.

Podem acreditar, bobinhos e bobinhas; ingênuos e ingênuas: o sapo barbudo está de volta, não para ser candidato em 2018, que ele não será mesmo, mas para salvar o Partido das burrices que andou fazendo nos últimos anos.

Se vai conseguir aí já é outra história.


(1) Safar
v.t.
1. Ato de libertar de algo ou alguém; evitar ou escapar a determinada pessoa ou situação;
2. Ação de arrancar ou extrair;
3. (Informal) Referente a apagar com borracha;
4. Ato de furtar;
5. Desgastar ou gastar pelo uso;
6. Colocar a navegar (um navio que ficou preso);
v.pron.
7. Libertar-se de algo ou alguém; evitar ou escapar a determinada pessoa ou situação;
8. Fugir sorrateiramente; escapar-se ou escapulir-se.
(Etm. do castelhano: zafar)

LITERATURA: Outros Quinhentos


Crédito: Outras Palavras / Outros Quinhentos

[Relançado em novembro de 2014, Outros Quinhentos – o programa de sustentação autônoma de Outras Palavras – acaba de estabelecer parceria com um projeto editorial instigante. A partir de fevereiro, o site distribuirá, por meio de sua livraria virtual, as obras da editora n-1 (leia “ene menos um”). Também anunciaremos seus livros em nosso espaço publicitário. Em contrapartida, os membros de Outros Quinhentos terão descontos muito expressivos – de 20% a 60% sobre o preço de capa. Além disso, os participantes do programa que contribuírem com a partir de R$ 25 mensais poderão escolher, entre as opções de contrapartida, dois títulos da editora: A gênese do corpo desconhecido, de Kuniichi Uno; e Signos, máquinas, subjetividades, de Maurizio Lazzarato.

Fundada em 2011, em parceria com a Aalto University (Finlândia), a n-1 edições é dirigida pelo filósofo Peter Pál Pelbart. Lança livros “numa área transdisciplinar, entre a filosofia, a estética, a clínica, a antropologia e a política, abordando os problemas contemporâneos de maneira plural e percuciente, e relançando-os em novas direções”.

Uma particularidade da n-1 é que seus livros são concebidos e manufaturados como objetos singulares, sem formatos pré-concebidos e inaugurando novas formas a cada edição. Segundo a editora, “o livro continua valendo-se da função de leitura, mas passa a ser, também fisicamente, objeto que convoca sentidos”.

Entre os títulos já publicados, estão:

O avesso do niilismo, de Peter Pál Pelbart

Máquina Kafka, de Félix Guattari

Declaração – isto não é um manifesto, de Antonio Negri e Michael Hardt

Mas chama a atenção, em especial, a programação de lançamentos da n-1 edições para 2015. Outras Palavras apoiará esses eventos divulgando as novas publicações, que estarão acessíveis com os mesmos descontos:

Manifesto contrassexual, de Beatriz Preciado

Poder arbitrário: Crítica da economia biopolítica, de Akseli Virtanen

Geopolítica da cafetinagem, de Suely Rolnik

Economias do ontopoder, de Brian Massumi

O governo do homem endividado, de Maurizio Lazzarato

Walter Benjamin: Os cacos da história, de Jeanne Marie Gagnebin

O aracniano e outros textos, de Fernand Deligny

Agamben: Para uma ética da vergonha e do resto, de Oswaldo Giacóia Jr.

Devires totêmicos, de Barbara Glowczewski

William James: pragmatismo e empirismo, de David Lapoujade

Deleuze: os movimentos aberrantes, de David Lapoujade

Grande parte desses autores já foi publicada por Outras Palavras, muitas vezes em traduções originais. Há portanto grande afinidade entre ambos os projetos editoriais.

Na definição da editora, seus livros “São trabalhos que tateiam o mundo, cartografando os modos contemporâneos de subjetivação e contribuindo para a emergência de novas possibilidades, individuais e coletivas”.

A parceria confirma a vocação de Outros Quinhentos. Mais que assegurar a sustentação de Outras Palavras, o programa visa constituir um novo canal para circulação de produções culturais alternativas e de produtos da Economia Solidária. Funciona de modo simples. Os produtores anunciam seus produtos em serviços no site – o que lhes permite dialogar diretamente com nosso público. O espaço publicitário é cedido sem pagamento em dinheiro por Outras Palavras. Mas o site estabelece, como contrapartida aos anunciantes, oferecer descontos consideráveis aos participantes de Outros Quinhentos e aos colaboradores editoriais.]


LIBERDADE DE EXPRESSÃO – “CARTA MAIOR ESPECIAL: Há um incêndio em marcha, mas o seu nome não é Islã”



“Carta Maior oferece aos seus leitores um caleidoscópio de reflexões sobre o contexto geopolítico e histórico dos atentados de Paris.”


 ["No mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo, 37 jovens foram mortos no Iémen num atentado a bomba.

No verão passado, a invasão israelita causou a morte de 2000 palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças.

No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa.

Certamente que a diferença na nossa reação diante desses acontecimentos não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas associadas a outras religiões.

Será então porque estes últimos estão mais longe de nós ou conhecemo-los menos?

Será porque a grande mídia e os líderes políticos do Ocidente banalizaram o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de nos fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

"Esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a alimentar um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas e as nossas instituições".

Com essas palavras carregadas de advertências ao consenso construído nos últimos dias, o sociólogo Boaventura Santos encerra um dos textos do ESPECIAL que Carta Maior oferece aos seus leitores neste fim de semana, sobre o brutal atentado em Paris.

O material reúne artigos e reflexões de autores renomados, como o próprio Boaventura de Sousa e Santos, Julian Assange, Flávio Aguiar, Joe Sacco, Michael Lowy, Slavoj Zizek, Robert Fisk, Rita Almeida, Altamiro Borges, Tarik Ali, Leonardo Boff, José Antonio Gutierrez, Rosana Rossanda, Martín Granovsky, José Carlos de Assis, Cristiano Paixão, José Otávio Guimarães, Eduardo Febbro, Marcelo Justo , entre outros.

Esse mosaico de pontos de vista cumpre a função de um verdadeiro caleidoscópio da reflexão.

Trata-se de arguir as certezas graníticas rapidamente convocadas a partir da justa comoção gerada pelo massacre à redação do Charlie.

O objetivo aqui não é endossar a pauta do jornal, tampouco contestar a indignação justa, mas arguir a sua abrangência.

O que se busca é a reflexão capaz de romper a camada pétrea de conveniências e interesses sobre a qual se assenta o veredito conservador em torno da brutalidade desse episódio.

Ele anunciou o amanhecer de 2015 com um estrondo que sacudiu o novo normal disseminado por um capitalismo feito de deflação recessiva, desemprego estrutural e captura do Estado e  da política pela internacional financeira.

Sim, é certo, como diz Boaventura, que um incêndio arde nas entranhas do nosso tempo.

Mas antes que ele se alastre de forma incontrolável sobre as nossas próprias consciências, é preciso afirmar peremptoriamente: seu nome não é Islã.

É para essa reflexão que Carta Maior convida à leitura deste ESPECIAL.]

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: “O Charlie Hebdo, o Islã, os preconceitos discriminatórios e o Estado laico”



“Quando para construir meu eu, eu preciso assassinar conceitualmente o outro, assassiná-lo fisicamente passa a ser um corolário em algum momento inevitável.”

Flávio Aguiar , In Carta Maior

 (*) Publicado originalmente no blogue do Velho Mundo, Rede Brasil Atual.

[A partir do meu post sobre o massacre no Charlie Hebdo, cometido em nome de uma visão (?) preconceituosa construída a partir do Islã, e de seus igualmente trágicos desdobramentos, meu amigo e blogueiro Telmo Kiguel (do site Sul21) me pergunta:

“Pensas que pode ter sido também um final terrível entre os que são contra o Estado laico e os jornalistas que o defendiam”?  “Este aspecto teria que significado no episódio”?

É uma pergunta absolutamente pertinente, e de “muitos gumes”. Vou tentar respondê-la levando em conta toda a sua complexidade.

Começo por uma observação pessoal e universal. Todos carregamos preconceitos. Trazemo-los do berço, da família, da escola, da formação profissional, de nossas preferências esportivas, políticas, etc., e coloquemos etc. nisto. Como diz o dito popular, a melhor artimanha do Diabo é convencer-nos de que não existe. Aí é que Ele impera, assim com maiúscula. A maior ingenuidade que se pode cometer é acreditar que não se tem preconceito algum. Mas ter preconceitos é uma coisa. Outra coisa é outra coisa: deixar-se dominar por eles, permitindo que eles se transformem em juízos absolutos de fato é outra coisa.

Segunda observação. Preconceitos que põem em perigo o Estado laico não são privilégio de visões sectárias islamistas. Podemos revolver o passado. O que a Igreja Católica e mesmo outras profissões cristãs fizeram em nome do Cristo fariam este se revolver na cruz. O que o próprio Estado laico francês cometeu no caso Dreyfus ofende seu próprio conceito, e o que faz hoje ao proibir que estudantes islâmicas usem seus véus na escola pública não fica muito atrás. A própria ideia proposta pelo governo de Benyamin Netanyahu de declarar Israel um Estado “judaico” vai na mesma esteira.

Aqui na Alemanha movimentos aparentemente laicos como o PEGIDA – Patriotas Europeus (!) contra a Islamização do Ocidente – nega o núcleo central do conceito da laicidade do Estado, que é o da universalização dos direitos da cidadania, independentemente da crença particular de cada cidadão. Por Estado laico não se pode conceber apenas uma instituição pública que não pendura crucifixos nas salas de aula. É necessário que o este Estado dito laico reconheça a igualdade de todos perante a lei dentro de suas diferenças. Por isto a atitude do Estado francês, proibindo o uso da burca na rua ou os véus islâmicos no espaço escolar é equivocada. No limite isto implicaria proibir freiras de vestir o hábito no espaço público, padres a batina, harekrishnas a toga laranja e até exigiria que fiscais na entrada das escolas revistassem moças e rapazes para ver se não carregam crucifixos clandestinos sob as roupas.

O ataque terrorista da semana passada trouxe de volta o poderio da AlQaïda, que estava um tanto em segundo plano, mas o gesto mais significativo de todos neste sentido foi o de Amédy Coulibaly, gravando sua “filiação” ao Estado Islâmico, ex-ISIS. Neste gesto ele revela a adesão do trio, ou quarteto, ou seja que algarismo for, à perspectiva de construir um Estado que se baseie na discriminação agressiva dos seres humanos, dividindo-os entre aqueles que têm direito a ter direitos e aqueles que não têm, seja por serem inferiores aos outros, seja por serem considerados uma espécie de anti-humanidade.

É preciso reconhecer, no entanto, que esta estrutura de pensamento, a divisão entre ter direito a ter direitos e não tê-lo, prescinde da figura de um Deus, Alá, Javé, Zeus, Júpiter ou o que for, assim como prescinde da sua centralização num espaço coletivo de contato com o sagrado, que é o que a religião estabelece. O que importa é sua centralização por algo – que além da religião pode ser uma pertença étnica, nacional, cultural, sexual ou qualquer outra – que se absolutiza e passa a negar ou a relegar a um plano de inferioridade quem carregue consigo outras pertenças.

Quando a extrema direita europeia nega o status de igualdade dos muçulmanos ou imigrantes de um modo geral, ela está corroendo o princípio do Estado laico de modo conceitualmente idêntico aos dos três assassinos que metralharam os jornalistas, os policiais e o gesto de um deles, depois, matando judeus no supermercado por serem judeus, nada mais. Ela – a extrema-direita – está alimentando esta visão assassina do mundo. Da mesma forma, esta visão assassina é alimentada pela nossa extrema-direita, ao pedir, por exemplo, a volta da ditadura militar. Também não escapa desta máquina de moer assassina o gesto de Marine Le Pen ao sugerir, na esteira dos acontecimentos da semana passada, o retorno da pena de morte na França. A sugestão equivale a de uma eutanásia social e cultural.

O pior disto tudo é que daí pode emergir o sentido de uma “nova” cruzada anti-muçulmana, assim como uma das pires coisas que pode acontecer é, à luz da proposta de Netanyahu de transformar Israel num “Estado Judaico” e do reforço das atitudes anti-palestinos que seu governo vem encarnando, o engrossar do caldo antissemita que lateja ainda e sempre na Europa e no mundo.

Como vivemos na era da absolutização dos individualismos – de suas crenças narcísicas e também de suas descrenças na alteridade – quem defenda a perspectiva de um Estado laico vai ter muito trabalho daqui para frente. O gesto impiedoso de um dos irmãos Kouachi, filmado e exposto ao mundo, dando o tiro de misericórdia (?) no policial muçulmano Ahmed, já baleado e caído no chão, sintetiza a complexidade desta problemática pergunta levantada pelo Telmo: a discriminação não tem limites nem fronteiras, pois quando para construir meu eu, eu preciso assassinar conceitualmente o outro, assassiná-lo fisicamente passa a ser um corolário em algum momento inevitável.]