quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Outros koans


Crédito da foto: www.religionfacts.com

Deus

Um sábio estava meditando à margem de um rio quando um homem jovem, um tanto entusiasmado, o interrompeu: "mestre... eu desejo ser seu discípulo!".

"Por quê?", replicou o sábio.

O jovem era uma pessoa que sempre ouviu falar dos caminhos espirituais, e tinha uma ideia fantasiosa e romântica deles. Em sua imaturidade, ele achava que ser espiritual era algo como participar de um movimento, de uma crença, de uma moda, sem grandes consequências.

Ele então pensou numa resposta bem profunda e disse: "porque eu quero encontrar Deus!".

O sábio pulou de onde estava, agarrou o rapaz pelo cangote, arrastou-o até o rio e mergulhou sua cabeça sob a água.

Manteve-o lá por quase um minuto, sem permitir que respirasse, enquanto o terrificado rapaz chutava e lutava para se libertar. Finalmente o mestre o puxou da água e o arrastou de volta à margem.

Largou-o no chão, enquanto o homem cuspia água e engasgava, lutando para retomar a respiração e entender o que acontecera.

Quando ele eventualmente se acalmou, o sábio lhe perguntou: "diga-me, quando estava sob a água, sabendo que morreria o que você queria mais do que tudo?”.

"Ar!", respondeu o jovem, amuado.

"Muito bem", disse o mestre. "Vá para sua casa, e quando você souber ansiar por um Deus tanto quanto você acabou de ansiar por ar, pode voltar a me procurar."

Aperfeiçoamento

Um praticante certa vez perguntou a um mestre zen, que considerava muito sábio,: “quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal?”.

“Pessoas como eu”, disse o mestre.

O praticante espantou-se: “um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?”.

“O aperfeiçoamento, respondeu o sábio, nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se...”

“Mas, replicou o praticante, fazemos isso sempre! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo para um mestre.”

“O que achas que faço todos os dias?”, retrucou o mestre. “A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, faço com cuidado e honestidade os atos comuns do cotidiano. Nada é mais profundo do que isso.”

Auto piedade

Dois velhos amigos se encontraram, após muitos anos. Entretanto, a vida tinha levado um a se tornar muito rico e o outro miserável. Eles ficaram juntos muitas horas, trocando reminiscências e bebendo saquê.

O homem rico era muito generoso e afável, mas seu amigo só sabia se entregar à auto piedade.

Após certo tempo, o homem miserável adormeceu, e seu amigo, condoído com sua condição, resolveu lhe dar uma dádiva e antes de partir introduziu lhe no bolso um belo diamante.

"Se meu pobre amigo estiver em dificuldades poderá conseguir uma boa soma com a venda desta joia", pensou o homem.

Anos se passaram e os dois amigos de novo se encontraram. Mas o homem miserável continuava assim, e ainda se lamentando.

“Mas como ainda estás tão pobre depois de tantos anos?”, perguntou o rico, surpreso.

“Pobre de mim!, lamuriou-se o outro, sou inútil, e ninguém se importa comigo! Sou incapaz de ganhar dinheiro para sobreviver!”

“Tua auto piedade e egoísmo te fizeram um tolo! Não fosse tua profunda cegueira autoindulgente poderias há muito ter percebido o tesouro que deixei em teu bolso!”.

Coelhos

Um estudante de artes marciais aproximou-se de seu mestre com uma questão: “gostaria de aumentar meu conhecimento das artes marciais. Em adição ao que aprendi com o senhor, eu gostaria de estudar com outro professor para poder aprender outro estilo. O que pensa de minha ideia?”.

“O caçador que espreita dois coelhos ao mesmo tempo, respondeu o mestre, corre o risco de não pegar nenhum.”

Carroça

Um Imperador, sabendo que um grande sábio do Zen estava às portas de seu palácio, foi até ele para fazer uma importante pergunta: “mestre, onde está o eu?”.

O mestre então lhe pediu: “por favor traga-me aquela carroça que está lá.”

A carroça foi trazida. O sábio perguntou: “o que é isso?”

“Uma carroça, é claro,” respondeu o Imperador.

O mestre pediu que retirasse os cavalos que puxavam a carroça. Então disse: “os cavalos são a carroça?”

“Não!”.

O mestre pediu que as rodas fossem retiradas.

“As rodas são a carroça?”

“Não, mestre.”

O mestre pediu que retirassem os assentos.

“Os assentos são a carroça?”

“Não, eles não são a carroça.”

Finalmente apontou para o eixo e falou: “o eixo é a carroça?”

“Não, mestre não é.”

Então o sábio concluiu: “da mesma forma que a carroça, o eu não pode ser definido por suas partes. O Eu não está aqui, não está lá. O eu não se encontra em parte alguma. Ele não existe. E não existindo, ele existe."

Dito isso, ele começou a se afastar do surpreso monarca. Quando estava já afastado, voltou-se e perguntou-lhe: “Onde eu estou?”

Dois koans



Sábio
 
Aos vinte anos tinha uma oração: ”Meu Deus, ajuda-me a mudar este mundo tão insustentável, tão impiedoso”, e durante os vinte e um anos seguintes lutei como uma fera para constatar que afinal nada tinha mudado.

Aos quarenta anos tinha apenas uma oração: “Meu Deus, ajuda-me a mudar a minha mulher, os meus pais e os meus filhos!”. Durante vinte anos lutei como uma fera para no final constatar que nada tinha mudado.

Agora sou um homem velho e apenas tenho uma oração: “Meu Deus, ajuda-me a mudar-me”, e, e eis que o mundo à minha volta muda!


Beleza

Um jovem era o responsável pelo jardim de um famoso templo zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava as flores, arbustos e árvores.  Próximo havia outro templo, menor, onde vivia apenas um velho mestre.

Certo dia, enquanto esperava a visita de importantes convidados, o jovem deu uma atenção extra ao cuidado do jardim, tirou as ervas daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo e gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando as folhas secas de outono.

Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse de cima do muro que separava os templos.

Quando terminou, o jovem monge afastou-se um pouco para admirar seu próprio trabalho: “Não está lindo?”, perguntou, feliz, para o velho monge.

“Sim, replicou o ancião, mas está faltando algo crucial. Ajude-me a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você."

Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.

“Pronto!, disse o velho monge. Agora você pode me levar de volta.”