terça-feira, 20 de janeiro de 2015

“A estratégia editorial do medo”





Código Aberto – “A estratégia editorial do medo”

[A estratégia da imprensa de usar a violência, catástrofes, dramas, crimes e acidentes para chamar a atenção do público já passou do limite da exaustão. É irritante a insistência dos telejornais das redes de TV em transformar o noticiário quotidiano num desfile de tragédias, atentados, assassinatos, tiroteios e desastres naturais. Se o noticiário da TV fosse um retrato fiel do mundo em que vivemos, todos nós acabaríamos paranoicos.

Se a intenção é sacudir as audiências para despertá-las do torpor da rotina diária, o efeito está sendo justo o oposto. As pessoas se acostumaram de tal forma com doses maciças de violência, arbítrio, terror e intimidação que já não se importam mais com poucas vítimas. A imprensa não admite, mas uma estratégia baseada na avalancha contínua de narrativas violentas obviamente acaba por assustar, intimidar e consequentemente tornar as pessoas mais dóceis e submissas. 

A insistência na divulgação de possíveis novos atos terroristas na Europa tende obviamente a assustar os europeus na sequência do impacto gerado pelo caso Charlie Hebdo, que foi tratado pela imprensa de todo mundo como uma espécie de “11 de Setembro” do Velho Mundo, numa alusão ao atentado às Torres Gêmeas, em Nova York. O clima de medo tende a imobilizar as pessoas e permite que as autoridades policiais tenham liberdade total para violar privacidades e deter suspeitos sem formalidades legais.

A estratégia da exploração da violência no noticiário, especialmente o da televisão, é indissociável da política do medo porque uma é causa e consequência da outra. Mas o uso intensivo do noticiário sobre violência no dia a dia dos telejornais acaba gerando uma visão distorcida da realidade entre os telespectadores e aguça o instinto de autodefesa, que por sua vez gera um fenômeno ainda mais brutal. Quando as pessoas internalizam a percepção de viver num ambiente urbano violento, elas automatizam a reação de atacar antes de ser atacado, ao menor indício de uma ameaça.

É isso que as redações dos telejornais precisam tomar em conta na hora de elaborar as pautas porque, além de correrem o risco de perder telespectadores saturados com a rotina de notícias sobre tragédias, elas podem estar alimentando a própria violência social ao estimular o clima de medo.

O recurso ao noticiário chamado “policial” está também ligado à relação cada vez mais promíscua entre repórteres e policiais. A página policial dos jornais e o noticiário da TV acabaram se transformando em estratégias de marketing da polícia, que facilita o acesso da imprensa aos locais onde ocorreram delitos, prepara a cena do crime e fornece porta-vozes que produzem declarações que seguem o media trainning, mas que não são contestadas pelo repórter. 

Claro que há notícias envolvendo delitos praticados por policiais – como abuso de autoridade, ocultação de vitimas, assassinato e tortura. Em quase todas elas é incluída a declaração de algum superior hierárquico informando que os acusados serão julgados e, se culpados, exemplarmente punidos. Mas a imprensa dificilmente faz um seguimento do caso para saber se foram considerados culpados e se foram sancionados com a severidade prometida.

O rosário de desgraças transmitidas diariamente não se limita ao crime e à corrupção. Se estende também ao clima – com o chamado terrorismo meteorológico envolvendo a seca em várias regiões do país, inundações, a monótona sequência de mortes no trânsito e nas estradas. O noticiário sobre as férias de verão se destaca mais pelos horrores dos afogamentos, congestionamentos, calor sufocante, arrastões etc. do que pela busca de divertimento e descanso.

A imprensa ficou tão obcecada com o lado espetacular das tragédias, crimes e desastres naturais que perdeu de vista a preocupação educativa, como fornecer informações para que as pessoas superem as dificuldades. O espetacular tende a gerar audiência e publicidade, já a educação é bem menos comercial e mais social. É outra consequência da abordagem da notícia como uma mercadoria comercializável em vez de um fator de produção de conhecimento, ou seja, capacidade de tomar decisões para enfrentar situações adversas.

Diante de tudo isso, e inevitável a pergunta: há alguma alternativa? Evidente que há, mas as redações rotinizaram de tal forma o recurso ao noticiário sobre delitos e tragédias naturais que simplesmente deixaram de buscar alternativas para esse tipo de abordagem jornalística. Pior do que isso, ironizam como jornalismo róseo as tentativas de sair da armadilha do crime, tragédias e corrupção. Mas há luz no fim do túnel, como mostra um grupo de jornalistas norte-americanos responsáveis pelo projeto Solutions Journalism Network (Rede de Jornalismo de Soluções).

Pode parecer algo meio piegas ou filantrópico, mas está longe disso, como mostram os depoimentos de empresas que aceitaram colocar em prática as propostas da Rede, explicitadas num manual que pode ser baixado gratuitamente na internet. São sugestões simples, mas que partem de um giro de 180 graus na perspectiva das redações. Em vez de olhar apenas por um lado dos problemas, os profissionais vinculados à Rede propõem que repórteres e editores passem a olhar também do lado contrário.

Num caso como seca, enchentes, terremotos, calor ou frio recordes, tornados etc., não basta noticiar o que está acontecendo. Muito mais importante é fornecer informações para que as pessoas possam enfrentar as adversidades. Os telejornais podem alegar que já fazem isso, só que o noticiário educativo acaba relegado à condição de anexo ou quadro na cobertura principal, toda ela focado na ênfase do trágico, dramático e violento.] 

“Cai a confiança na imprensa”



Jornal de Debates  - Edelman Trust Barometer - “Cai a confiança na imprensa"

Por Luciano Martins Costa em 20/01/2015 na edição 834 / Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 20/1/2015 / Link: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/cai_a_confianca_na_imprensa

[Uma reportagem no Estado de São Paulo comenta resultado de um estudo global sobre o nível de confiança das sociedades nacionais em governos, empresas, ONG e mídia. O Edelman Trust Barometer, em sua 14ª edição, faz um levantamento em 27 países, por meio de 33 mil entrevistas, sendo 27 mil do público em geral e 6 mil no grupo composto por uma seleção de pessoas com educação superior, hábito de consumir notícias diversas vezes por semana e que acompanham temas sociais e políticos. Portanto, pode-se dizer que esse estrato específico de 6 mil entrevistados representa o cliente típico da imprensa.

Os dados referentes ao Brasil serão divulgados em fevereiro, em dois seminários marcados para o Rio de Janeiro e São Paulo, e prometem ser muito úteis para os estudiosos das relações entre mídia e sociedade. O texto publicado pelo Estado se refere apenas ao grau de confiança que o público em geral deposita em empresas familiares, em comparação com a credibilidade das empresas de capital aberto e as estatais.

No resumo distribuído pela Edelman (ver aqui), a análise é mais ampla: por exemplo, observa-se que a confiança na mídia caiu 4 pontos de 2013 para 2014, em todo o mundo. Mas o mais interessante é observar como os novos meios digitais e outros processos de comunicação desvinculados da mídia tradicional passaram a contar com muito mais credibilidade, avançando no campo antes dominado por aquilo que chamamos classicamente de imprensa.

O estrato da amostragem considerado como “público informado” declara que, ao buscar informações sobre qualquer assunto, confia tanto na mídia tradicional quanto nos sistemas de busca online. No Brasil, esse aspecto é ainda mais diferenciado: as ferramentas de busca como o Google têm a confiança de 81% dos consultados.

Em um ano, a mídia tradicional perdeu 7 pontos na classificação da credibilidade, com 74% de citações, seguida de portais, blogs e congêneres, com 65%, e mídias sociais e outras fontes digitais, com 63% cada. A pesquisa permite associar o nível de confiança nos meios à formação da opinião sobre marcas de produtos e serviços, indicando que cresce a influência de funcionários e cidadãos comuns em relação às fontes institucionais, como dirigentes de empresas.

Estratégia equivocada

Observando-se apenas esse contexto do estudo, pode-se constatar uma importante mudança no comportamento dos indivíduos, tanto em seu papel de cidadãos como na qualidade de consumidores.

A análise que acompanha os dados da pesquisa indica que as pessoas ainda consideram importante a qualidade específica daquilo que lhes é entregue em troca de seu dinheiro ou de seus impostos, mas aumenta a expectativa quanto a outras questões, como a conduta de empresas e instituições em geral, ou seja, atributos éticos tornam-se tão valiosos quando os aspectos operacionais.

Esses indicadores explicam em grande parte o distanciamento, quase animosidade, que se nota, no Brasil, entre grandes parcelas da população e o conjunto das instituições. De certa forma, também justificam, parcialmente, o nível maior de confiança nas empresas que têm uma face – a cara do dono –, em comparação com as organizações sem rosto. Torna-se interessante, por exemplo, observar como o empresário Abílio Diniz, que era o retrato do grupo Pão de Açúcar, vai transferir sua reputação para o novo grupo empresarial a que está se associando.

No campo político, a pesquisa mostra como pode ser um erro estratégico grave a opção da maioria dos governantes, inclusive no âmbito federal, de buscar o poder no voto para exercê-lo no ambiente restrito das instituições partidárias. Se, como mostra o estudo, a sociedade quer ver a face que personifica a instituição, as estratégias de comunicação que despersonalizam empresas e outras entidades podem estar seriamente equivocadas.

A observação diária da imprensa revela que a mídia tradicional se dirige preferencialmente às instituições, e que tanto governos quanto empresas também se fecham nessa conversação que exclui o cidadão comum.

O retrato pintado pelo Edelman Trust Barometer indica um novo caminho: se as pessoas tendem a confiar mais em seus pares do que na imprensa ou nas instituições, a sucessão de crises que testemunhamos só será sustada se houver um redirecionamento na comunicação, visando mais o ser humano do que suas representações formais.]