domingo, 4 de janeiro de 2015

Dilma e a Educação: vamos ver


Crédito da ilustração: www.assimsefaz.com.br

O discurso de posse de Dilma Rousseff foi um fiasco completo – as repercussões só não foram piores, pois boa parte da imprensa e da militância petista perdeu tempo num bate-boca inútil e risível sobre o vestido da empossada.

Numa boa matéria no dia 2, a Folha de São Paulo alinhavou os muitos dados enganosos que a presidente expos na sua fala.

No mesmo dia, o jornalista e sociólogo Leonardo Sakamoto alvejara a parte da Educação (assunto de que trata esta postagem), colocando em dúvida o que disse Rousseff.

Ontem foi a vez do filósofo e professor universitário André Singer atacar as contradições do discurso no que toca aos direitos e à segurança do trabalhador brasileiro, embora hoje, na FSP, Jânio de Freitas veja coerência nas medidas anunciadas.

Marquetagem

À direita e à esquerda, o discurso de Dilma Rousseff está sendo classificado como uma peça de marketing, provavelmente escrito por João Santana, o marqueteiro e amigo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Dilma Rousseff é uma mulher séria, honesta e competente, mas, provavelmente, acossada pela perda de prestígio de seu governo e do PT, pelos inúmeros escândalos que embalam a sua gestão e pela crise econômica que se avizinha, sucumbiu ao discurso marqueteiro, bem ao estilo Lula da Silva, que acostuma vender peixes que não pescou.

Educação – Getúlio Vargas

No dia da posse a mesma FSP publicou uma extensa entrevista com o professor e economista Delfim Neto (que serviu a ditadura militar e hoje apoia o PT) onde diz, entre outras coisas, que a queda de qualidade na educação brasileira se deve ao ditador e general Ernesto Geisel (1974 a 1979).

Data venia, a debacle da educação brasileira começou bem antes, durante o segundo governo (1937 a 1945) de Getúlio Vargas, quando o ditador brasileiro fez acordo com os EUA para dar início à industrialização nacional, o que acabou culminando, entre outras coisas, na criação da FEB (1943), na participação do País na segunda guerra mundial e na ocupação da cidade de Natal (a capital do Rio Grande do Norte) pelas forças armadas norte-americanas.

Fruto do convênio, os EUA enviaram ao Brasil milhares de educadores e consultores em Educação para “civilizar” o País e preparar as novas gerações para o “maravilhoso mundo capitalista” que se avizinhava.

Em pequena parte Delfim Neto tem razão, mas o que fizeram os ditadores de 1º de abril de 1964, especialmente Ernesto Geisel, foi acelerar ainda mais a desconstrução da educação humanista brasileira, obra que quase foi concluída pelo também sociólogo e professor universitário Fernando Henrique Cardoso (presidente de 1995 a 2003).

Educação – os professores

Há coisa de 6 ou 7 anos, um amigo e professor de uma universidade pública no Nordeste me ligou apavorado com “o nível” dos alunos com os quais tinha de lidar em sala de aula.

E há coisa de uma semana voltou a me ligar anunciando que irá requerer a sua aposentadoria, pois não aguenta mais “as bobagens” que os seus alunos falam e escrevem.

Também há cerca de 6 ou 7 anos, um amigo e professor universitário em Brasília resolveu exibir o filme A Bridge Too Far / Uma Ponte Longe Demais, 1977, de Richard Attenborough, que “conta a história da Operação Market Garden, uma tentativa apenas parcialmente bem sucedida dos aliados de invadir através das linhas alemãs e dominar várias pontes nos Países Baixos, ocupados durante a segunda guerra mundial” (wp).

Quase todos os 50 alunos “compareceram” à exibição, mas ao seu final apenas 9 se mantinham em sala.

Na aula seguinte, o amigo professor foi acossado pelos alunos que reclamaram da “chatice do filme” e do fato, segundo eles, da película “não ter nada a ver com a aula”.

A matéria em questão era sobre mercados, estratégias de crescimento e conquista de novos nichos de negócio.

O professor perdeu a compostura, e as palavras mais amenas que usou para seus alunos foram “idiotas” e “analfabetos”, e por conta disso quase perdeu o trabalho.

Educação – Ásia

Muito se fala dos avanços capitalistas na Ásia, especialmente na Tailândia, Coreia e China, mas pouco se atenta para o fato de que esses países (entre outros tantos da região) investiram e investem maciçamente na educação tecnológica, ou seja, no nível médio.

É correto que também se investe no terceiro grau (universidade, docência, mestrado e doutorado), mas o grosso da revolução educacional está fincado na extraordinária melhoria do ensino médio. Na formação de mão de obra qualificada, que não necessariamente vai chegar às universidades – aliás, como já havia ocorrido, por exemplo, na Itália e na Alemanha nos primeiros anos do século passado.

 Educação – MIT

Antes que anunciasse o espetacular Ciência sem Fronteiras, Dilma Rousseff fez uma visita ao MIT - Massachusetts Institute of Technology, a meca da ciência, engenharia e tecnologia do mundo, mas não só, pois por lá também se estuda administração, economia, linguística, ciência política e filosofia.

Dilma promete que até 2025, 500 mil brasileiros estarão pós-graduados. Seria realmente extraordinário e alteraria o futuro do País, quem sabe, incluindo-o definitivamente no mundo capitalista e desenvolvido.

Mas há problemas. Semanas após a visita de Dilma Rousseff ao MIT, a universidade norte-americana divulgou um estudo mostrando que entre os brasileiros que já se aventuraram por lá, menos de 10% dominam a Matemática e conseguem escrever um simples projeto.

Se estendermos isso para os outros campos da ciência e para as outras universidades que possam vir a ser acessadas pelo estudante brasileiro vamos perceber que o rombo é um tanto quanto grande.

 Educação – Educação

É nesse déficit que Dilma Rousseff terá de agir. É na formação de base, na formação média, no preparo do estudante brasileiro para acessar universidades de ponta.

Caso não faça isso, seu Ciência sem Fronteiras não passará de um mero sonho de verão, e o Brasil continuará perdendo espaço para os emergentes; vendo cada dia mais distantes os países de ponta, e mantendo-se como um mero exportador de commodity para o mundo.