quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Empossada Dilma é hora de voltar à realidade







“Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim”
(Tanto Mar 2 – Chico Buarque de Holanda)

Guilherme Boulos, formado em filosofia e professor de psicanálise, leva um bom jeito para se transformar num dos líderes sociais mais importantes deste País.

É membro da coordenação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-teto) e do movimento Resistência Urbana.

Boulos (ainda) não tem a estatura de João Pedro Stedile, o economista e líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-terra (MST), mas pode vir a tê-la, especialmente se deixar de ser apenas tão focado em questões urbanas, e se abrir para as questões campesinas, como faz Stedile, no sentido contrário.

Em artigo na Folha de São Paulo de hoje – 2015: anos de agitações - http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2015/01/1569331-2015-ano-de-agitacoes.shtml - Boulos diz coisas bastante relevantes sobre o crescimento pífio do Brasil nos quatro anos do primeiro governo de Dilma Rousseff – inferior a 2%, o que quer dizer bem menor que todo o período de Lula da Silva, que esteve na casa de 4%.

Os cenários são diferentes, mas é com o que tem que Dilma Rousseff tem de trabalhar.

Boulos igualmente critica o “ministério conservador” da presidente – o que está todo mundo fazendo – e, especificamente, a indicação de Kassab para o Ministério da Cidade, um maná para os especuladores imobiliários, sem dúvida alguma.

Avestruz

Historicamente o Brasil parece sofrer da síndrome do caipirismo (Fernando Henrique Cardoso) ou do jequismo (Paulo Francis).

E mais uma pá de areia nesse caminhãzinho provinciano foi colocada hoje, durante a posse de Dilma, pelo ex-presidente uruguaio e hiper bajulado pelas esquerdas, José Mujica:

"o Brasil tem de buscar que o apoiem e o rodeiem, porque é grande para nós, mas é pequeno para o mundo".

Aparentemente o novo governo brasileiro prefere adotar um comportamento de avestruz que, ao menor perigo, esconde a cabeça na areia, deixando todo o resto do corpo de fora.

É um perigo extraordinário, posto que os principais parceiros comerciais brasileiros – Mercosul e China – estão com suas economias em processo recessivo.

Apesar da maquiagem que o governo anda fazendo no seu balanço, tanto a indústria, quanto o agronegócio têm indicadores negativos em 2014.

O comércio está parcialmente estagnado – não cai, mas não cresce igualmente – e o setor de serviço continua mostrando pouca pujança, e mantem-se dependente de conhecimento e tecnologia do exterior.

Educação

No discurso de hoje, a presidente focou nos investimentos da área na educação e no combate à corrupção.

No que toca à corrupção há que se aceitar que Dilma Rousseff efetivamente está fazendo um ótimo trabalho – até seus opositores entendem e concordam com isso.

Na área da educação, no entanto, há que se ver ainda quais são as propostas efetivas do novo governo dilmista.

No discurso de hoje ela apenas cita, mas não diz claramente o que vai fazer. Despeja apenas generalidades que, em última instância, não nos levam a lugar algum.

Notou bem o demonizado pelas esquerdas Josias de Souza - http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2015/01/01/discurso-de-dilma-teve-um-deficit-de-autocritica/ - que “O discurso de Dilma teve um déficit de autocrítica”.

De concreto, o ano de 2015 será duríssimo para a economia brasileira, com reflexos diretos na vida da população, e talvez, como está prevendo Boulos, venha a ser um ano de muitas, e quem sabe, violentas, manifestações por todo o Brasil.

Boulos só não notou que as manifestações anti-governo já explodiram há muito tempo nas áreas rurais brasileiras, especialmente junto aos grupos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, e igualmente nos canteiros de obra das hidrelétricas que Dilma Rousseff teima em levar adiante.

E isso quase levou à derrota da candidata petista, que foi salva à última hora graças ao recuso de parte dos movimentos sociais brasileiros.