terça-feira, 3 de março de 2015

Stedile está dando um tiro no pé do MST




Crédito da foto: blogdoliberato.blogspot.com

As lutas campesinas no Brasil se inserem, por óbvio, nas lutas das américas e mais propriamente na do campesinato latino-americano.

Me permito aqui, no entanto, estender o conceito para além das definições da Sociologia, e levá-lo para a indiarada e os negros escravizados e fugidios.

Mas antes que me chamem de ignorante e de atropelador da lógica, vamos à definição clássica de campesinato:

“o conjunto de grupos sociais de base familiar que se dedica a atividades agrícolas, com graus diversos de autonomia. Caracteriza-se pelo trabalho familiar, (eventualmente empregando trabalhadores assalariados), por ter a propriedade dos instrumentos de trabalho, pela autonomia total ou parcial na gestão da atividade e por ser dono de uma parte ou da totalidade da produção.”

Diferente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) – a nome já é por si só uma soberba –, nascida para ser o braço sindical do PT (Partido dos Trabalhadores), o que a vincula radicalmente às lutas urbanas e reformistas, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) nasce herdeiro da tradição campesina latino-americana, das Ligas Camponesas do Nordeste brasileiro e da ação da ala mais à esquerda da Igreja Católica Apostólica Romana, mais especificamente a CPT (Comissão Pastoral da Terra).

Ao aceitar, semana passada, a atender aos conclamos de Luiz Inácio Lula da Silva, para “botar” o exército de sem-terra nas ruas, em defensa do governo Dilma Rousseff, e contra o movimento pró-impeachment da presidente, João Pedro Stedile, um dos criadores do MST e hoje parte de sua diretoria, sinaliza dois equívocos:

- o primeiro é que o ato em si do dia 13 de março pouco tem a ver com a defesa do governo dilmista, e mais com a do modelo lulo-petista, hoje já dado como morto por boa parte dos próprios petistas.

Acrescente-se aqui que ao MST, com Stedile no meio, muito desgostam a paralisação da reforma agrária, o fomento ao agronegócio e o pouco caso que o governo federal faz do uso indiscriminado de agrotóxicos e de organismos geneticamente modificados (OGM) na agricultura.

- o segundo, mais grave, é que ao aceitar os conclamos lulistas, Stedile afasta o MST da sua gênese revolucionária, que é a de romper com o capitalismo, e o aproxima da pedra de toque do petismo, ou seja, o reivindicalismo político-partidário, supostamente a favor das camadas mais vulneráveis da população brasileira.

Com os duros percalços de sempre, o MST resistiu bem ao assédio e à violência das classes dominantes do campo brasileiro.

Com esse movimento de aproximação das lutas reivindicatórias do petismo urbano, o que Stedile vai conseguir é desgostar parte do campesinato brasileiro (com os índios e os quilombolas o movimento já não conta mais), já de nariz torcido para a política rural brasileira dos quatro governos petistas.

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