sexta-feira, 6 de março de 2015

É preciso contextualizar melhor os eucaliptos do MST


Crédito da foto: MST

Em 2001/2002, não sei ao certo, me envolvi numa polêmica com um cientista do Rio de Janeiro (deixemos pra lá os nomes) que reclamava de eu ter “descontextualizado” uma de suas falas no campo ambiental.

Repliquei que não havia descontextualizado nada, e apenas usado o que dissera para dar mais substância ao que escrevia.

Ele não aceitou muito a argumentação, discutiu mais um pouco, não me retratei como ele queria, superamos as divergências, ele continuou uma boa fonte de informação e eu um mero difusor de ciência e tecnologia.

Mas como jornalista não dá para não dizer que existem sim descontextualizações flagrantes (muitas de propósito), e que isso é um problema grave para jornalistas, fontes e o público consumidor de informação.

Joseph Bové, sindicalista francês, militante do movimento antiglobalização e porta-voz da Via Campesina se envolveu há anos, no Rio Grande do Sul, na destruição de alguns “canteiros” (se é que se pode chamar assim) de soja “transgênica”.

Um dos atores da luta campesina no mundo, Bové foi alvo de uma saraivada de críticas, à direita, raivosas, assim como, à esquerda, de louvações mil.

Anos mais tarde, militantes do MST se envolveram na destruição de alguns canteiros de laranjas no interior paulista.

As reações foram parecidas, mas que se acrescente neste caso que a empresa “plantadora” dos laranjais ocupava, irregularmente, uma área pública (isso tem nome: é grilagem), enquanto, há mais de anos, trabalhadores rurais sem-terra esperavam ali do lado a vez de serem assentados.

Eucaliptos

A mais nova peripécia dos militantes do MST aconteceu anteontem, quando foram destruídas, no interior de São Paulo, mudas de eucaliptos modificados geneticamente.

E de novo o mesmo rame-rame, diz-que-diz de um lado e de outro.

As empresas (não se vai fazer aqui propaganda de ninguém) de pesquisa e de plantio argumentam, com apoio de muitos dos jornalistas, blogueiros e colunistas da grande imprensa, que o ato dos militantes botou por terra quase uma década de pesquisa em genética.

Já os militantes, que o eucalipto geneticamente modificado (veja aqui: http://www.mst.org.br/2015/02/20/aprovacao-de-eucalipto-transgenico-trara-mais-danos-ambientais-afirma-especialista.html) traz perdas irreparáveis para a natureza, para os animais, para as outras plantas e, por que não, para o ser humano.

Noves fora a questão de que as empresas (e o governo federal também, já que é um de seus órgãos que autoriza a pesquisa e dá o sinal verde para o plantio) só pensam em lucro, e que se dane todo o resto, há que se dizer que este é daqueles casos típicos onde ambas as partes têm lá a sua razão, mas que não irão convergir em momento algum.

OGMs e transgênicos

Antes que se siga às conclusões, vamos dar uma pirateada aqui nas definições que separam (embora muita gente misture) OGMs dos transgênicos.

Transgênicos são organismos vivos modificados em laboratório. O código genético de uma espécie é alterado pela a introdução de uma ou mais sequências de genes provenientes de outra espécie. O genoma dos organismos transgênicos contém fragmentos do genoma de bactérias ou vírus em seu DNA. Os genes introduzidos não pertenciam ao genoma original dessa espécie e vão conferir-lhe novas características, fazendo também com que essa espécie possa produzir novas substâncias de interesse.
Nos organismos transgênicos são inseridos materiais genéticos de outros organismos, mediante o emprego de técnicas de engenharia genética. A geração de transgênicos visa obter organismos com características de interesse que o organismo original não apresentava, como a resistência a herbicidas ou a produção de toxinas contra pragas das culturas agrícolas. Resultados na área de transgenia já são alcançados desde a década de 1970, quando foi desenvolvida a técnica do DNA recombinante. A manipulação genética combina características de um ou mais organismos de uma forma que provavelmente não aconteceria na natureza. Assim podem ser combinados os DNAs de organismos que não se cruzariam por métodos naturais. (wp)

OGM é a sigla de Organismos Geneticamente Modificados, organismos manipulados geneticamente, de modo a favorecer características desejadas, como a cor, tamanho etc. Os OGMs possuem alteração em trecho(s) do genoma realizadas através da tecnologia do RNA1 /DNA recombinante ou engenharia genética.
m transgênico é um organismo que possui uma sequência de DNA (ou parte do DNA) de outro organismo, que pode até ser de uma espécie diferente. Já um OGM é um organismo que foi modificado geneticamente mas não recebeu nenhuma região de outro organismo. Por exemplo, uma bactéria pode ser modificada para expressar um gene por mais vezes. Isso não quer dizer que ela seja uma bactéria transgênica, mas apenas um OGM, já que não foi necessário inserir material externo. Somente ao inserirmos material genético (DNA/RNA) exógeno em um organismo é que ele passa a ser transgênico. (wp)

Importante: Na maior parte das vezes, quando se fala em Organismos Geneticamente Modificados, trata-se de organismos transgênicos. Mas OGMs e transgênicos não são sinônimos: todo transgênico é um organismo geneticamente modificado, mas nem todo OGM é um transgênico. (wp)

Será?

A questão que se coloca aqui é que décadas atuando com comunicação em CT&I (ciência, tecnologia e inovação) ainda não me convenci de que transgênicos, OGMs e quetais tragam tanto assim danos ambientais e afetem a saúde de plantas e animais, entre estes nós, os humanos.

Quase muito pelo contrário: pesquisas confiáveis (inclusive muitas feitas por organismos oficiais brasileiros e por universidades), embora ainda de forma tímida, indicam outro caminho.

Talvez não devamos e não queiramos pagar com a própria vida para ver se essas coisas funcionam mesmo e, se funcionarem, se irão trazer benefícios ou não para o meio ambiente.

Certamente florestas artificiais, por exemplo, são coisas dantescas, capazes de nos tirar o sono e provocar pesadelos.

Mas, de outro lado, destruir pesquisas não me parece ser uma coisa das mais inteligentes, sensatas e civilizadas.

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