quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Por que acreditar naquilo que a imprensa publica



Aos 9 anos decidi ser escritor. Nunca consegui. Aos 13, que seria jornalista. Fui (e sou) cerca de uma década depois.

Quando entrei para a escola de jornalismo (na década de 70) ainda reverberava em todo o mundo o Caso Watergate que levou o presidente norte-americano, o republicano Richard Nixon, à renúncia, acusado de corrupção.

Resumidamente aconteceu o seguinte:

“Em 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post noticiava na primeira página o assalto do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, na capital dos Estados Unidos. Durante a campanha eleitoral, cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata.” (wp)

Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein foram os responsáveis pelas revelações, ancorados por um informante conhecido apenas por Garganta Profunda / Deep Throat. Anos mais tarde identificado como W. Mark Felt, vice-diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal deles, mas com mais dinheiro e poderes, inclusive para matar impunemente).

A maracutaia republicana virou, em 1976, um filme dirigido por Alan J. Pakula (All the President's Men / Todos os Homens do Presidente), com os canastrões Robert Redford (Woodward) e Dustin Hoffman (Bernstein).

O filme é uma porcaria, não discute os interesses escusos por detrás da informação, e qual era o papel de Mark Felt no jogo de intrigas que cercou o caso.

Mas ganhou quatro Oscar. Vá entender!

Acho que no segundo ano da escola de jornalismo um colega de classe pediu para um professor dizer qual eram os nomes dos jornalistas que revelaram a tramoia republicana.

O professor não sabia ou não se lembrava, e preferiu ironizar a pergunta do colega dizendo que os nomes dos dois não tinham importância alguma, o que interessava era o fato em si.

Talvez interessasse ao professor de péssima memória e parco conhecimento o preço do leite de cabra do sertão onde ele nasceu.

Formar bons jornalistas com esse tipo de professor parece ser uma tarefa impossível.

Pedofilia

Em 1994, em São Paulo, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada; Paula Milhim Alvarenga e Maurício Monteiro de Alvarenga, todos da Escola de Base, foram acusados pela imprensa por abuso sexual contra alguns alunos do estabelecimento de ensino.

O Garganta Profunda brasileiro foi o delegado de polícia, Edélcio Lemos, e a sempre lépida e solerte mídia tratou de trombetear o malfeito dos adultos contra as pobres crianças: Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Globo, SBT, Record, Rádio e TV Bandeirantes, IstoÉ, Veja, Notícias Populares e Folha da Tarde.

Rola processo até hoje.

A história estava mal contada, e foi provocada pela mãe de um dos alunos, supostamente vítima de pedofilia e estupro, que o exame do IML (Instituto Médico Legal) provou não ter ocorrido.

Semana depois mãe e aluno confirmaram a invencione, mas o estrago já havia sido feito na reputação de ambos os casais.

Escola de jornalismo

Embora formado em um curso superior de jornalismo acho desnecessária a obrigatoriedade do diploma e torço o nariz para a eficácia das escolas.

Mas já que existem elas deveriam deixar de fora todo aquele lero-lero acadêmico e partir para as vias de fato: trabalhar com oficinas, veículos experimentais, oficinas etc. e tal; enfim, botar a focaiada nas ruas pra que aprendam a serem repórteres de verdade, e não mero repetidores de informações carimbadas, de interesse, quase sempre, da classe dominante.

Os dois exemplos citados acima dariam material de sobra para se discutir e se analisar por meses a fio a informação, suas repercussões, a questão das fontes, a confiabilidade de quem dá informação, o cruzamento de informações e o diabo a quatro.

Outro bom exemplo está estampado nos principais jornais brasileiros de hoje: a manipulação grosseira das imagens dos confrontos de anteontem no Rio de Janeiro, em frente à sede da Petrobras (veja abaixo).

Quem precisa desse tipo de jornalismo? Ou melhor: quem acredita nesse tipo de jornalismo?

Ou melhor ainda: que estudante de jornalismo não se escandalizaria com uma estupidez desse tamanho?

O que a imprensa publicou

O que a imprensa omitiu/escondeu



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