sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Os mitos estão destruindo o governo de Dilma






Ponte estaiada em Manaus (AM), sobre o rio Negro. Crédito: ultimosegundo.ig.com.br

Segundo dados do próprio governo federal, 97% das obras do PAC 2 (Plano de Aceleração Econômica) estão concluídas.

Há controvérsias, já que parte das obras que estão dadas como concluídas ainda estão em processo de conclusão ou apenas em seu início.

Mas com as devidas ressalvas há que se reconhecer que os dois governos dilmista e mais parte do segundo de Lula mais fizeram do que deixaram de fazer.

Numa comparação com os dois governos de FHC há também que se dizer que os planos de transporte dos tucanos não passaram de planos mesmo, sendo o segundo mera atualização do primeiro.

FHC tratou mesmo de reformar algumas rodovias federais naquela velha toada de colocar uma casquinha de asfalto por cima, casquinha que se destrói em menos de 90 dias de tráfego nem tão intenso assim. Aliás, essa prática persistiu nos dois governos Lula e em Dilma.

Mais avançado que os planos de FHC era o PNLT da CNT (Confederação Nacional do Transporte), não sem os seus exageros, como a construção de um aeroporto em São Vicente, no litoral de São Paulo, que mais atendia aos interesses financeiros escusos e inconfessáveis de um de seus diretores e menos aos interesses da sociedade.

Há muita bobagem no PAC da Dilma, como a construção da Perimetral Norte (coisa do tempo dos militares), projeto que se ampliou e prevê um corredor multimodal ligando o Atlântico ao Pacífico pelo extremo norte brasileiro, na área mais intocada da floresta Amazônia.

Uma estupidez criminosa se se concretizar, até porque se trata de ligar o nada a lugar algum.

De resto é de ressaltar que os seis “planos” – 2 de FHC, 2 da CNT e os 2 PAC do PT – mal tocam ou preveem obras de infraestrutura nos modais ferroviário e aquaviário, e ainda na recuperação da navegação de cabotagem.

No tempo das caravelas o Brasil era mais avançado.

Pelo sim, pelo não, Dilma Rousseff está fazendo o PAC andar e começando a destruir uma das falácia sobre o desenvolvimento brasileiro, o tal do “custo Brasil”.

O custo Brasil é tão real como real é a Mula Sem-cabeça.

O Brasil é um País de mitos. De cara assumiu aquela história do Eldorado, uma mentira bem contada pelos índios para tentar desviar os espanhóis de seus caminhos destruidores e sanguinários.

Mais recente, por aqui, surgiram as histórias do déficit da previdência social e da “enorme carga tributária” a que todo brasileiro está submetido.

Não existe déficit previdenciário algum. O que existe (e isso se sabe há anos, e agora fica mais claro com o escândalo do HSBC) é muita sonegação, desvio de recursos para grupos financeiros internacionais e o tal do caixa 2 que rola solto nos balanços malandros das micro, médias e grandes empresas brasileiras.

O Brasil nem tem uma carga tributária das mais alta do mundo, ficando bem longe, por exemplo, daquilo que os governos cobram de seus cidadãos e empresários em países do norte europeu e nos Estados Unidos.

Embora parte dessa mitologia não tenha surgido com os governos do PT, o que se tenta mesmo, neste momento, é desestabilizar a atual administração federal, abrindo janela para a volta do tucanato na eleição de 2018.

Dá para prever com clareza meridiana o que vai acontecer ao País se os tucanos voltarem a fazer ninho no Palácio do Planalto, não dá não?

A mitologia tem campo fértil na ignorância e na preguiça intelectual. São esses manás que solapam o prestígio de um governo que se não é lá essas coisas, pelo menos teve a coragem de acenar com um futuro menos árido para as populações mais carentes do País, os desvalidos de sempre.

Jogar isso fora é de uma burrice criminosa.

Ave, Dilma!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Por que acreditar naquilo que a imprensa publica



Aos 9 anos decidi ser escritor. Nunca consegui. Aos 13, que seria jornalista. Fui (e sou) cerca de uma década depois.

Quando entrei para a escola de jornalismo (na década de 70) ainda reverberava em todo o mundo o Caso Watergate que levou o presidente norte-americano, o republicano Richard Nixon, à renúncia, acusado de corrupção.

Resumidamente aconteceu o seguinte:

“Em 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post noticiava na primeira página o assalto do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, na capital dos Estados Unidos. Durante a campanha eleitoral, cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata.” (wp)

Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein foram os responsáveis pelas revelações, ancorados por um informante conhecido apenas por Garganta Profunda / Deep Throat. Anos mais tarde identificado como W. Mark Felt, vice-diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal deles, mas com mais dinheiro e poderes, inclusive para matar impunemente).

A maracutaia republicana virou, em 1976, um filme dirigido por Alan J. Pakula (All the President's Men / Todos os Homens do Presidente), com os canastrões Robert Redford (Woodward) e Dustin Hoffman (Bernstein).

O filme é uma porcaria, não discute os interesses escusos por detrás da informação, e qual era o papel de Mark Felt no jogo de intrigas que cercou o caso.

Mas ganhou quatro Oscar. Vá entender!

Acho que no segundo ano da escola de jornalismo um colega de classe pediu para um professor dizer qual eram os nomes dos jornalistas que revelaram a tramoia republicana.

O professor não sabia ou não se lembrava, e preferiu ironizar a pergunta do colega dizendo que os nomes dos dois não tinham importância alguma, o que interessava era o fato em si.

Talvez interessasse ao professor de péssima memória e parco conhecimento o preço do leite de cabra do sertão onde ele nasceu.

Formar bons jornalistas com esse tipo de professor parece ser uma tarefa impossível.

Pedofilia

Em 1994, em São Paulo, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada; Paula Milhim Alvarenga e Maurício Monteiro de Alvarenga, todos da Escola de Base, foram acusados pela imprensa por abuso sexual contra alguns alunos do estabelecimento de ensino.

O Garganta Profunda brasileiro foi o delegado de polícia, Edélcio Lemos, e a sempre lépida e solerte mídia tratou de trombetear o malfeito dos adultos contra as pobres crianças: Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Globo, SBT, Record, Rádio e TV Bandeirantes, IstoÉ, Veja, Notícias Populares e Folha da Tarde.

Rola processo até hoje.

A história estava mal contada, e foi provocada pela mãe de um dos alunos, supostamente vítima de pedofilia e estupro, que o exame do IML (Instituto Médico Legal) provou não ter ocorrido.

Semana depois mãe e aluno confirmaram a invencione, mas o estrago já havia sido feito na reputação de ambos os casais.

Escola de jornalismo

Embora formado em um curso superior de jornalismo acho desnecessária a obrigatoriedade do diploma e torço o nariz para a eficácia das escolas.

Mas já que existem elas deveriam deixar de fora todo aquele lero-lero acadêmico e partir para as vias de fato: trabalhar com oficinas, veículos experimentais, oficinas etc. e tal; enfim, botar a focaiada nas ruas pra que aprendam a serem repórteres de verdade, e não mero repetidores de informações carimbadas, de interesse, quase sempre, da classe dominante.

Os dois exemplos citados acima dariam material de sobra para se discutir e se analisar por meses a fio a informação, suas repercussões, a questão das fontes, a confiabilidade de quem dá informação, o cruzamento de informações e o diabo a quatro.

Outro bom exemplo está estampado nos principais jornais brasileiros de hoje: a manipulação grosseira das imagens dos confrontos de anteontem no Rio de Janeiro, em frente à sede da Petrobras (veja abaixo).

Quem precisa desse tipo de jornalismo? Ou melhor: quem acredita nesse tipo de jornalismo?

Ou melhor ainda: que estudante de jornalismo não se escandalizaria com uma estupidez desse tamanho?

O que a imprensa publicou

O que a imprensa omitiu/escondeu



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O discurso de Lula ainda seduz alguém?


Crédito da foto: veja.abril.com.br

A ida de Luiz Inácio (Lula) da Silva para São Paulo operou duas mudanças no menino pobre, nascido em Caetés, no Pernambuco.

A primeira, ainda criança, mariscador no Guarujá, no litoral paulista, foi a sua conversão de torcedor do Vasco da Gama para o corintianismo.

A segunda, muito mais importante e nada prosaica, foi a sua entrada, em 1968, no mundo sindical, já em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Lula relutou um pouco, mas foi convencido pelo seu irmão, José Ferreira da Silva, o Frei Chico, hoje falecido e então militante do Partido Comunista Brasileiro, o velho pecebão.

É de Frei Chico, diga-se, a informação, que também está num livro do jornalista Paulo Markun, de “certa simpatia” de Lula pelo regime militar, que o viria punir com severidade no futuro.

Frei Chico viu no irmão um líder nato, capaz de arregimentar as massas e se opor à ditadura militar.

Estava certo. Se não se pode dizer que Lula venha a ser o líder de maior carisma da política brasileira (Getúlio Vargas é páreo duríssimo), há que se entender que o metalúrgico ou o sapo barbudo como querem os seus detratores arrastava milhares de pessoas aos seus comícios e reuniões.

Era o cara que faltava para enfrentar a ditadura e a elite perdulária (do dinheiro alheio), já que a classe média insubmissa que “lutava” contra o estado de arbítrio não passava disso mesmo: de uma classe que defendia apenas os seus próprios interesses, sem dar muito conta das agruras da vida a que estavam submetidos os índios, os pobres e os pretos.

Lula, não. Lula era o cara do povo, atilado, ligado, esperto, inteligente.

O seu salto da vida sindical para a política partidária, até chegar à Presidência da República, ainda está sendo construído, e o que há, todo mundo conhece: alguns com admiração, outros com ódio, inveja e muita raiva.

O que houve?

A situação atual de Lula é péssima. Pode-se dizer, sem medo de errar, que é pior que a de 1980, quando foi preso e teve seus direitos políticos cassados, graças e obra à famigeradíssima Lei de Segurança Nacional.

O regime militar e as elites que o sustentavam sabiam, com carradas de razões, que Lula era um perigo maior que os grupos e grupelhos (todos já dizimados àquela altura) que se opunham ao estado de arbítrio.

Lula, como ninguém, sacou aquela história de conquistar “corações e mentes”.

Após apanhar três vezes (Collor e FHC2) Lula mudou (pela terceira vez) e acabou por conquistar “corações e mentes” nos rincões que eram bolsões de resistência ao “comunismo petista”.

Venceu em segundo turno, duas vezes, e emplacou, mais duas vezes, Dilma Rousseff.

Embora tenha saído da presidência com uma aprovação popular alta (a maior da história presidencial brasileira), é possível (sem preconceitos, raivas e achaques de tiete) ver uma corrosão no prestígio lulista iniciada em 2005, quando vem a lume a história do Mensalão.

A tática do “nada vi, nada sei” não pegou bem.

No geral, a população pode ser meio estúpida e até manobrável, mas burra não é não.

Alguns luminares, como o professor Chico de Oliveira, já haviam percebido antes que algo não ia lá muito bem “no reino da Dinamarca”. Não demorava muito chegar ao povaréu, como não demorou.

Petrobras

Com o seu partido à beira da prancha com a espada cutucando o seu pescoço, Lula não tem como explicar como deixou a batata da Petrobras assar na brasa de Dilma Rousseff.

Essa história de empurrar a batata para o foguinho do FHC não convence nem minha mãe que não gosta de política e nem sabe sobre esse rame-rame que envolve a petroleira estatal brasileira.

Ao dizer, ontem, durante as manifestações em defesa (sic) da Petrobras, no Rio, de que se alguém quer briga ele vai pra rua brigar, soa apenas como bravata.

Uma bravata que talvez convença (tenho cá minhas dúvidas) um naquinho de nada do que foi a outrora suntuosa militância petista, hoje mal reduzida a meia dúzia de pessoas.