quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

INFORMAÇÃO AGORA: O valor jornalístico que o terá terá





Hoje, poucas pessoas fazem, mas muita gente terá feito. Quase ninguém disse, mas inúmeros terão dito.

(9:58 Quinta feira, 15 de Janeiro de 2015 - Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-valor-jornalistico-que-o-tera-tera=f807074#ixzz3OtazFH6h).

Tenho observado com muito entusiasmo a recente invenção jornalística do terá. Parece que uma notícia deve responder a seis perguntas, a saber: quem?, o quê?, onde?, como?, porquê? e quando? Foi isso, aliás, que me afastou do jornalismo. São demasiadas perguntas. Um jornalista encontra-se quase sempre na posição de um bêbado que acaba de chegar a casa. É curioso que tanto o bêbado como o jornalista tenham de responder mais ou menos às mesmas perguntas. Obter as respostas é difícil para ambos. O bêbado está pressionado pelo álcool e o jornalista está pressionado pela realidade, que também inebria e confunde. Estando, em geral, mais sóbrio que o bêbado, o jornalista inventou o terá. É uma forma habilidosa de não responder à pergunta "quando?" Funciona assim: "Fulano terá feito uma falcatrua." Quando? No passado. Mas o verbo ter está no futuro. O que significa que talvez venha a confirmar-se no futuro que sucederam certas coisas no passado. Hoje, poucas pessoas fazem, mas muita gente terá feito. Quase ninguém disse, mas inúmeros terão dito.

É muito interessante reparar no papel que o terá tem desempenhado nas notícias sobre o acontecimento mais importante da actualidade. A pesquisa "Sócrates terá", no Google, devolve 19 mil e 300 resultados. Alguns exemplos: "Sócrates terá usado conta do motorista para depósitos e pagar despesas", "Sócrates terá dito que iria mobilizar a opinião pública contra a Justiça", "José Sócrates terá recebido um milhão de euros em dinheiro vivo", ?"Antigo motorista de José Sócrates terá admitido que depositou dinheiro do ex-?-primeiro-ministro na sua conta", "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões de euros por seis bancos". O terá permite fazer perguntas sem colocar um ponto de interrogação no fim. "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões por seis bancos?" passa a "Sócrates terá repartido a fortuna de 25 milhões por seis bancos". O terá garante, até judicialmente, que a frase anterior ainda não é uma afirmação, mas também deixa claro que já não é uma pergunta. É uma afirgunta. A afirgunta é um novo género jornalístico que não constitui exactamente uma notícia. ?É uma hipótese de notícia. Uma suposição. E quando a afirgunta gera novas afirguntas, transforma-se em afirmação. ?Aqueles 25 milhões já foram uma afirgunta. "Sócrates terá 25 milhões". Como os hipotéticos 25 milhões foram hipoteticamente repartidos por seis bancos, deixaram de ser hipotéticos. A afirgunta só admite uma hipótese de cada vez. Caso contrário, isto deixa de ser jornalismo, e passa a ser uma fantochada sem qualquer vestígio de rigor.

Consideremos a seguinte frase: "Sócrates terá 60 anos em 2017." É das poucas notícias que podemos dar acerca de José Sócrates recorrendo ao uso convencional do futuro do verbo ter. É uma informação factual, verificável e exacta. É também extremamente enfadonha. Não faz sonhar. No entanto, a nova utilização do terá, em teoria, permite avançar com qualquer hipótese, desde que permitida pelas leis da física. Creio que não é admissível escrever, por exemplo, "Sócrates terá levantado voo depois de agitar os braços com muita força". Mas "Sócrates terá comprado o ?Taj Mahal a pronto" é jornalismo. Ora, neste tipo de notícia hipotética, eu sou fortíssimo. Ter-me-ei (cá está) reformado demasiado cedo. Eu sou a agência Reuters do terá. Sou capaz de redigir, a partir de casa, um número infinito de peças jornalísticas deste tipo. Contactem-me.

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