quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O que será do Brasil em 2050 (?)


Crédito da foto: www.cienciaempauta.am.gov.br – pobreza

Previsões, um bocado otimistas do atual governo brasileiro, indicam que o País, em 2050, venha a ser a 5ª economia do mundo. Hoje, ele seria a 7ª.

Esse tipo de classificação tem como base o PIB (Produto Interno Bruto) de cada país, e o PIB, grosso modo, é a soma de toda riqueza gerada pelos países num determinado período de tempo, em grande parte no espaço de um ano.

Muita gente contesta o uso do PIB como medida única e suprema de riqueza, muito em conta por não levar em consideração índices variáveis, alguns de fácil medição, outros nem tanto. Por exemplo: reservas naturais, capacidade de investimento, formação de mão de obra especializada, qualidade de vida dos respectivos habitantes.

Já vimos algumas pessoas propondo que os organismos internacionais devam trocar o tosco PIB atual por uma espécie de PIB social, que levaria em conta os valores naturais e culturais, e as capacidades dos indivíduos nacionais.

Creio que seria trocar 6 por meia dúzia, e que a emenda poderia sair pior que o soneto para o Brasil.

Terceiro-mundismo

Nas rebuliçosas décadas da Guerra Fria era muito comum se ouvir falar em Terceiro Mundo (expressão que muita gente ainda usa).

Se havia um terceiro mundo, era porque havia um primeiro e um segundo.

O primeiro a gente sabia qual era: os países ricos do hemisfério norte, incluindo-se o Japão. Mas e o segundo? Não havia referências diretas a ele, mas deduzia-se que se tratava dos países da chamada cortina de ferro, ou seja, dos países comunistas.

Mas por que não havia referência direta ao segundo mundo?

Simples! Porque esse tipo de análise está assentada em base meramente capitalista, e reconhecer explicitamente um segundo mundo (não-capitalista) seria reconhecer que o universo comunista era mais homogêneo e mais justo que o capitalista, posto que a maioria absoluta dos países do terceiro mundo era, igualmente, capitalista.

O conceito de terceiro embute em si duas premissas falsas: a não dependência aos primeiro e segundo, e o consequente não alinhamento a eles.

Hoje em dia muito se fala em terceiro setor (OS, Oscip, ONG etc.) que atuariam na sociedade nas brechas deixadas pelos outros dois setores: o governamental/estatal e a iniciativa privada. E isso implicaria, como no caso dos países acima, em não-dependência e não-alinhamento.

Certo? FALSO!

Assim como os países do terceiro mundo – ou “não-alinhados” – o terceiro setor está sempre alinhado a alguma coisa: ou ao governo/Estado ou à iniciativa privada, e no mais das vezes aos dois.

Adeus independência!

Nuvem passageira

Crédito da foto: www.residenceinnboulder.com – porto de Mariel / Cuba
A atual euforia do governo brasileiro e de parte da comunidade internacional com o Brasil, porém, pode não passar de um breve sonho de verão, de uma nuvem bonita, mas passageira.

Na atual escala de valores proposta pelos organismos financeiros internacionais o mundo está assim classificado: Estados Unidos USD (1) 15.653.366; China USD 8.250.241; Japão USD 5.984.390; Alemanha USD 3.336.651; França USD 2.875.000; Reino Unido USD 2.585.779; Brasil USD 2.205.040.

Grosso modo o País está bem posicionado e estaria nos calcanhares do Reino Unido e de França, começando a fazer sombra à Alemanha e um pouquinho ao Japão.

Conta a favor do Brasil a imensidão de seu território, uma população estável e imensas reservas naturais.

Certo? MAIS OU MENOS!

Apesar de territorialmente grande, o Brasil está, geograficamente, mal posicionado; mais ou menos distante do mundo capitalista ocidental (Europa e Estados Unidos) e muito distante do novo centro de desenvolvimento do mundo, a Ásia.

Apesar da euforia especialmente dos petistas com o porto de Mariel (Cuba) ele não terá interferência direta alguma na troca comercial entre Brasil e a Ásia, e muito pouca com o mundo capitalista ocidental.

A pretensa vitória brasileira com a construção de Mariel (2) não passa de retórica petista.

A população brasileira efetivamente está estável, com um crescimento anual inferior a 2%. Isso seria um grande trunfo no curto e médio prazos. Seria, se nosso sistema de ensino não fosse tão precário, e se não persistissem por aqui preocupantes índices de analfabetismo e de semianalfabetismo.

Temos efetivamente grandes reservas naturais e uma terra boa para agricultura e a pecuária, além da fruticultura.

Temos, mas não usufruímos de nada disso, pois continuamos “vendendo” commodity (2) – algodão, cana-de-açúcar, café, borracha, ferro, manganês, cassiterita, bauxita, soja, frutas etc. etc. etc. e tal.

E não há qualquer movimentação (oficial, quer dizer, políticas públicas), por menor que seja, no sentido de se mudar esse estado de coisa.

Ao primeiro abalo mais sério na economia internacional, e lá se vão nossas commodity para o espaço, como já ocorreu inúmeras vezes e vai continuar acontecendo.

Corrida ao PIB

Crédito da foto: www.residenceinnboulder.com - Commodity
Nessa corrida ao topo do PIB o Brasil tem dois buldogues mordendo os seus calcanhares e inúmeros outros cachorros bravos melhor colocados.

Os buldogues:

México: territorialmente enorme, com uma população grande e estável, com imensas reservas naturais, fronteiriço aos EUA e há parcas milhas da Europa, e com costas para o Atlântico e o Pacífico (o México hoje é a 14ª economia do mundo);

Índia: território grande, população imensa, reservas naturais enormes, com um sistema de ensino sofisticado e de cara com o emergente mercado Asiático (a Índia é atualmente a 10ª economia mundial).

Vale uma palavrinha a mais sobre a Índia: as mesmas previsões que jogam o Brasil para o 5º lugar em 2050, jogam a Índia para o 4º. Com uma agravante para o Brasil: a economia indiana deve ser até 7 vezes maior que a brasileira nos meados do século.

Cachorros bravos:

Não bastasse isso tudo, ainda temos que permanecem à frente do Brasil, Alemanha, França e Reino Unido – com suas histórias, seus prestígios consolidados e suas reservas humanas sofisticadas.

Mas seja qual forem os parâmetros que se adotem – o PIB tradicional ou o PIB social – alguém de verdade, acredita que o Brasil é ou virá a ser nesse curtíssimo espaço de tempo que nos separa de 2050 mais rico e mais desenvolvido que Holanda, Suécia, Canadá, Rússia, Austrália, por exemplo?

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(1)   Dólar norte-americano
(2)   O comércio exterior tem como esteio o transporte marítimo. Quanto mais distante, mas caro fica transportar mercadorias, o que quer dizer perda de competitividade.
(3)   Tudo aquilo que, se apresentando em seu estado bruto (mineral, vegetal etc.), pode ser produzido em larga escala; geralmente se destina ao comércio exterior e seu preço deve ser baseado na relação entre oferta e procura.