terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O saber no Brasil é do tempo das Capitanias Hereditárias


Crédito da ilustração: www.dicasfree.com

As duas melhores definições sobre minha profissão:

- o/a jornalista é um/a profissional especializado/a em porra nenhuma;

-o/a jornalista é um/a profissional que ganha a vida para falar mal dos outros.

Com as exceções de praxe, normalmente o jornalista (seja homem, ou seja mulher) tem uma tendência à humildade, ao reconhecer que ele/ela não é especializado/a em coisa alguma.

Pelo contrário: até por definição, jornalista é generalista.

O mais bem acabado anti-jornalista brasileiro que conheci foi um gaúcho de Passo Fundo, chamado Tarso de Castro, hiper-especializado em Chico Buarque de Holanda.

Ai de quem se atrevesse a falar do “muso” da MPB que o gauchinho soltava os cachorros, as frangas, os papagaios e outros bichos mais.

Quem entendia de Chico era ele, e estávamos todos conversados e concordes.

Justo Chico Buarque de Holanda que por diversas vezes se recusou a dar pitacos sobre assuntos os quais não conhecia.

Ah... a academia

Já no meio acadêmico a história é outra: todo mundo é especializado em alguma coisa, até o porteiro e o guardador de carros.

Ai se você discordar, ou contrariar tanto entendimento e saber. O fogo do inferno será fichinha perto do que você vai ouvir e terá de aguentar.

A única coisa que não consigo entender é como o mundo anda tão confuso e violento com tanto saber e tantos sabichões espalhados por aí.

Em 1988 escrevi um artigo num jornal de Manaus cobrando de um professor e médico hiper especializado em alguma doença tropical qualquer, e que se tornara reitor da Universidade do Amazonas, cobrando dele que o mais sensato seria abrir as porteiras do gueto da UFAM e olhar de frente, especialmente, para as populações mais carentes da capital e do Estado.

Ele ficou puto da cara e escreveu um texto desaforado destinado a este pobre ignorante que lhes escreve.

Quem me entregou o texto foi um aluno da Universidade, seu amigo, com a exigência de que o jornal para o qual eu trabalhava publicasse “imediatamente o direito de resposta”.

Disse que não publicaria não, pois o texto estava pleno de erros de português, e que se publicado deporia muito mais contra ele do que contra mim.

Ficamos concordes nisso. O texto nunca foi publicado.

Besteiras & Bobagens

Crédito da ilustração: pchae.blogspot.com
Para os hiper especializados em alguma coisa todos os outros hiper especializados em alguma coisa e nós que não somos especializados em porra nenhuma só dizemos e escrevemos besteiras e bobagens, coisas as quais eles não levam em consideração exatamente por serem um amontoado de besteiras e de bobagens.

Às vezes eu os imagino como o He-Man: “eu tenho a força” do saber.

A única coisa que gostaria de saber, já que não consigo realmente entender por que o mundo é tão confuso e violento, com tanta gente de saber solta por aí, é por que essa gente sempre está a reclamar dos salários e da carga de trabalho.

Vá lá que a ciência médica, por exemplo, até hoje não deu conta de um simples resfriado – os resfriados desde os tempos dos dinossauros continuam a nos trazer transtornos e dores de cabeça -, mas caramba, por que, com tanto saber assim, ainda não se deu conta de coisas mais prosaicas como salários e carga de trabalho?

Vá entender essa gente!