sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Dai a Cuba o que é de Cuba



A esperada e muito costurada reaproximação dos EUA com Cuba está fazendo chover – à direita e à esquerda – um sem número de observações e comentários sem nexo e sem base em fatos ou boas versões de fatos a respeito da Ilha.

De concreto há que:

- Castro e seu grupo iniciaram suas ações contra o governo de Fulgêncio Batista no início da década de 50;

- a primeira grande incursão do grupo se deu em 1953, quando se tentou tomar o Quartel Moncada, que terminou num grande fiasco, e Fidel Castro acabou preso, condenado a 20 anos;

- libertado em 1954, Fidel exilou-se no México, de onde arquitetou novas incursões à Ilha, aí já com a ajuda de Che, e não sem apoio logístico do próprio país e dos EUA;

- ao início da revolução, em 1959, seguiu-se uma forte estatização dos meios de produção e financeiros da Ilha, o que provocou o afastamento dos EUA e a submissão de Cuba aos interesses estratégicos da URSS;

- em 1961, paramilitares e exilados, treinados pela CIA, tentaram derrubar Fidel Castro, na chamada La Batalla de Girón, ou Invasão da Baía dos Porcos;

- este é uma dos eventos mais obscuros da história da relação entre dois países, pois, pelo menos até agora, as informações indicam que a operação foi realizada à revelia do presidente de John F. Kennedy;

- também sem provas objetivas, os assassinatos dos irmãos Kennedy, John e Bob, estariam, de uma forma ou de outra, relacionados à questão cubana;

- a questão, no entanto, pode ser tangencial à suposta reação cubana, posto que as máfias que atuam em território norte-americano, especialmente as italianas, tinham seus interesses contrariados pelo regime castrista;

- há que se ponderar, ainda, que ambos os assassinatos podem ter relação com o Movimento pelas Liberdades Civis (negro), que receberia apoio explicito dos irmãos Kennedy, e contrariava boa parte dos interesses das elites norte-americanas, especialmente as ligadas ao setor produtivo agrícola;

- a crise dos misseis, em 1962, não passou de um grande jogo de cena, a principal da Guerra Fria, entre EUA e URSS. Os soviéticos faziam de conta que iam, os norte-americanos faziam de conta que se defendiam;

- no final, como era de se esperar, tudo resultou num grande acordão entre as duas potências: você cuida do seu quintal que eu cuido do meu. E ainda numa baita venda de petróleo soviético para os EUA, além de trocas de cérebros e de badulaques eletrônicos;

- aliás, essa história se repetiu, na parte que diz respeito ao petróleo, na guerra do Kosovo;

- o fim do comunismo em 1989 jogou Cuba num beco sem saída;

- as costuras para a normalização das relações EUA-Cuba se iniciaram com John F. Kennedy, na década de 60, mas foram tragadas por La Batalla de Girón e, na sequencia, pelos assassinatos dos irmãos Kennedy;

- a retomada mais concreta veio a se dar nos governos de George Walker Bush (2001 e 2009), o Bush júnior, ou Bushinho;

- de lá pra cá o que houve foi uma grande costura que envolveu, principalmente, a veneranda Igreja Católica Apostólica Romana, e que veio a desembarcar nessa troca de carícias entre Obama e Raul;

- as principais restrições do bloqueio, a saber: remessa de divisas para Ilha, trânsito de pessoas entre os dois países e investimentos de empresas internacionais em Cuba, já haviam caído há um bocado de tempo.

Todo o resto é pura fantasia e muito delírio.