quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Desejos



Tradição

Havia uma vez uma cidade formada por duas ruas paralelas. Um dervixe passou de uma rua para a outra, e assim que a alcançou, as pessoas notaram que havia lágrimas nos olhos dele.

“Morreu alguém na outra rua!”, gritou um homem e logo as crianças da vizinhança fizeram coro a essa exclamação.

Mas o que acontecera fora algo muito diferente. O dervixe estivera descascando cebolas. Em poucos segundos o eco do grito já alcançara a primeira das duas ruas. E os adultos de ambas se preocuparam e ficaram tão assustados que não se animaram a investigar devidamente as causas daquela agitação. Um homem sensato e sábio tentou chamar à razão as pessoas das duas ruas, indagando-lhes por que não se comunicavam para apurar o acontecido. Muito confusos para apreender o sentido daquelas palavras, alguns disseram:

“Pelo que entendemos há uma epidemia muito séria na outra rua.”

Esse boato também se propagou como um incêndio incontrolável, levando a população daquela rua a pensar que a outra estava destinada a morrer.

Quando foi possível restabelecer certa ordem, ambas as comunidades só pensaram numa saída: emigrarem para salvar-se. E foi assim que, de repente, as duas ruas ficaram vazias de seus habitantes.

Ainda hoje, vários séculos passados, a cidade permanece deserta, e não muito distante dali há duas aldeias. Cada uma possui sua própria tradição, sendo que ambas estabeleceram a partir de um povoado construído por pessoas fugidas de uma cidade condenada por um mal desconhecido, em tempos remotos.
(Conto sufi)
  
Ilha
 
Certa vez um homem muito rico, de natureza boa e generosa, queria que o seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.

“Agora você está livre. disse o homem. Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu.”
O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano. Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços. Tudo o que havia a bordo se perdeu.

Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, porque, a nado, pôde alcançar a praia de uma ilha próxima.

Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e bonita. Muita gente se aproximou para recebê-lo, gritando: “Bem-vindo! Bem-vindo! Longa vida ao rei!”

Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio.
Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como soberano, em total obediência à sua vontade.

O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia ou experimentava não passava de uma fantasia passageira.

Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas que o rodeavam, de quem gostava, como havia chegado àquela situação.
“Afinal, disse. Sou um homem de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo.”

“Senhor, responderam. Esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem para governá-los, e suas preces foram ouvidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu 'status' e seu poder acabam quando se completa o ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põe a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada: vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram plenamente do seu poder, esquecendo- se do dia em que tudo acabaria.

Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro do seu coração.

O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha. Pediu ao homem de conhecimento que havia falado: “Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão no futuro”.

“Nu você chegou até nós, disse o homem, e nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo: seja diligente e enérgico.”

O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.

Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele, porém, o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre uma base de paz permanente e felicidade.

O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade.

Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes.

Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha, porém quando se aproximou da praia as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram- no seu governante, e ele viveu em paz.
(Conto sufi)

 Imperador

O imperador Mahmud El-Ghazna passeava um dia com o sábio Ahmad Mussain, que tinha reputação de ler pensamentos.

O imperador, há algum tempo, vinha tentando que o sábio fizesse diante dele uma demonstração de sua capacidade.

Como Ahmad se recusava a fazer a sua vontade, Mahmud havia decidido recorrer a um ardil para que o sábio, sem o perceber, exercesse seus extraordinários dotes na sua presença.

“Ahmad!”, chamou o imperador.

“Que desejas, senhor?”
“Qual é o ofício do homem que está perto de nós?”

“É um carpinteiro.”

“Como se chama?”

“Ahmad, como eu.”

“Será que comeu alguma coisa doce recentemente?”

“Sim, comeu.”

Chamaram o homem e ele confirmou tudo o que o sábio havia dito.

“Tu, disse o imperador, te recusaste a fazer uma demonstração dos teus poderes na minha presença. Percebeste que te forcei, sem que o notasses, a demonstrar tua capacidade, e que o povo te transformaria num santo se eu contasse em público as revelações que me fizeste? Como é possível que continues ocultando a tua condição de sufi e pretendas passar por um homem qualquer?”

“Admito que posso ler pensamentos, concordou Ahmad; mas o povo não percebe quando faço isso. Minha dignidade e meu amor-próprio não me permitem exercer esse dom com propósitos frívolos. Por isso meu segredo continua ignorado.”

“Mas admites que agora mesmo acabas de usar teus poderes?”

“Não, absolutamente não.”

“Então como pudeste responder minhas perguntas corretamente?”

“Facilmente, senhor. Quando me chamaste, esse homem virou a cabeça, o que me indicou que seu nome era igual ao meu. Deduzi que era carpinteiro porque, neste bosque, só dirigia o olhar para árvores aproveitáveis. E sei que acabara de comer alguma coisa doce, porque vi que estava espantando as abelhas que procuravam pousar nos seus lábios. Lógica, meu Senhor. Nada de dons ocultos ou especiais.”
(Conto sufi)

Nasrudin

Mulla Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradição Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje.
(Conto sufi)

Barco

Nasrudim às vezes levava as pessoas para viajar em seu barco.

Um dia, um pedagogo exigente contratou-o para transportá-lo ao outro lado de um rio muito largo. Assim que se lançaram à água, o sábio perguntou-lhe se faria mau tempo: “não me pergunte nada sobre isto”, disse Nasrudim.

“Você nunca estudou gramática?”

“Não!”

“Neste caso, metade de sua vida foi desperdiçada."

O Mulla não disse nada. Logo desabou uma terrível tempestade. O pequeno e desorientado barco de Mulla começou a encher de água. Ele se inclinou para o companheiro.

“Alguma vez você aprendeu a nadar?”

“Não!”, respondeu o pedante.

“Neste caso, caro mestre, toda sua vida foi desperdiçada, pois estamos afundando.”
(Conto sufi)

Desejos

A festa reuniu todos os discípulos de Nasrudin. Comeram e beberam durante muitas horas, sempre a conversar sobre a origem das estrelas e dos propósitos da vida. Quando já era quase de madrugada, preparavam-se todos para voltar para as suas casas. Restava um belo prato de doces sobre a mesa. Nasrudin obrigou os seus discípulos a comê-lo.

Um deles, porém, recusou: “o mestre está-nos a testar. Quer ver se conseguimos controlar os nossos desejos. “

“Estás enganado. A melhor maneira de dominar um desejo é vê-lo satisfeito. Prefiro que vocês fiquem com o doce no estômago do que no pensamento, que deve ser usado para coisas mais nobres.”
(Conto sufi)

Ovo

Certa manhã, Nasrudin colocou um ovo embrulhado num lenço, foi para o meio da praça da sua cidade e chamou aqueles que estavam ali.

“Hoje vamos ter um importante concurso! A quem descobrir o que está embrulhado neste lenço eu dou de presente o ovo que está dentro!”

As pessoas se olharam, intrigadas, e responderam: “como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer esse tipo de previsões!”

Nasrudin insistiu: “O que está neste lenço tem um centro que é amarelo como uma gema, cercado de um líquido da cor da clara, que por sua vez está contido dentro de uma casca que se parte facilmente. É um símbolo de fertilidade, e lembra-nos dos pássaros que voam para seus ninhos. Então, quem é que me pode dizer o que está aqui escondido?”

Todos os habitantes pensavam que Nasrudin tinha nas suas mãos um ovo, mas a resposta era tão óbvia, que ninguém resolveu passar vergonha diante dos outros.

E se não fosse um ovo, mas algo muito importante, produto da fértil imaginação mística dos sufis? Um centro amarelo podia significar algo do sol, o líquido em seu redor talvez fosse um preparado alquímico. Não, aquele louco estava a querer fazer alguém passar por ridículo.

Nasrudin perguntou mais duas vezes, e ninguém respondeu.
(Com sufi)

Casamento 
 
Nasrudin estava proseando com um conhecido , que lhe indagou: “ Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?”

“Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par perfeito. Cruzei o deserto, cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima  e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do dia a dia, a atrapalhavam. Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer? E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.            

Entretanto você não se casou com ela. Por quê?”

“Ah, meu prezado amigo, ela também estava buscando o homem ideal.”
(Com sufi)

Contrabandista
 
Volta e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por contrabando. Nunca o encontrou.
“O que é que você transporta, Nasrudin?”

“Sou contrabandista."

Anos mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.

“Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa, instalado por aqui nesta vida boa: o que é que você contrabandeava, que nunca conseguimos pegar?”

“Burros.”
(Conto sufi)

Felicidade

Nasrudin encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os motivos de tanta aflição: “ Não há nada na vida que interesse, irmão. Tenho dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei.”

Sem mais palavra, Nasrudin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo, correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa distância.

A estrada fazia uma curva e Nasrudin foi cortando o caminho por vários atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à espera do outro. Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
“Essa é uma maneira de se produzir felicidade”,  disse Nasrudin.
(Conto sufi)

Conversa

Nasrudin, certa vez, estava sem um burrico que o ajudasse em seus afazeres.
Desesperado, sem ter meios de encontrar um, começou a orar, pedindo a Deus que lhe enviasse um burrico.

Rezou por algum tempo e, certo dia, ao andar por uma estrada, deparou-se com um homem montado num burrico e atrás levava um outro burrico mais jovem.

Nasrudin aproximou-se do homem e este lhe disse: “mas que vergonha, eu estou trazendo um burrico de tão longe, estamos todos esgotados, e aqui está este homem descansado, sem fazer nada!”

E ameaçando-o com uma espada, completou: “vamos! Coloque o burrico nas suas costas e venha comigo até a próxima cidade!”

Nasrudin, com medo não disse nada, simplesmente colocou o burrico em suas costas e seguiu o homem. Andaram por várias horas e Nasrudin estava exausto de tanto peso.

Ao entardecer, chegaram na cidade mais próxima e o homem simplesmente fez Nasrudin descer o burrico das suas costas e seguiu adiante, sem sequer agradecer.

Nasrudin ergueu os seus olhos para o céu e disse: “está bem, Deus. Aprendi a minha lição. Na próxima vez serei mais específico... “
(Conto sufi)

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Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão: “ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?”

Logo juntou um grande número de pessoas, com todo mundo gritando: “queremos! queremos!”

“Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.”
(Conto sufi)

Luz
 
Alguém viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.

"O que é que você perdeu, Mullá?", perguntou-lhe.

"Minha chave", respondeu o Mullá.

Então, os dois se ajoelharam para procurá-la. Um pouco depois, o sujeito perguntou: "onde foi exatamente que você perdeu esta chave?"

"Na minha casa."

"Então por que você está procurando por aqui?"

"Porque aqui tem mais luz."
(Conto sufi)

Visita

O célebre e contraditório personagem sufi Mulla Nasrudin visitou a Índia.

Chegou a Calcutá e começou a passear por uma de suas movimentadas ruas.

De repente viu um homem que estava vendendo o que Nasrudin acreditou que eram doces, ainda que na realidade fossem chiles apimentados.

Nasrudin era muito guloso e comprou uma grande quantidade dos supostos doces, dispondo-se a dar-se um grande banquete. Estava muito contente, se sentou em um parque e começou a comer chiles às dentadas.

Logo que mordeu o primeiro dos chiles sentiu fogo no paladar. Eram tão apimentados aqueles "doces" que ficou com a ponta do nariz vermelha e começou a soltar lágrimas até os pés.

Não obstante, Nasrudin continuava levando os chiles à boca sem parar. Espirrava, chorava, fazia caretas de mal estar, mas seguia devorando os chiles. Assombrado, um passante se aproximou e disse-lhe:

“Amigo, não sabe que os chiles só se comem em pequenas quantidades?”

Quase sem poder falar, Nasrudin comentou: “bom homem, creia-me, eu pensava que estava comprando doces. “

Mas Nasrudin seguia comendo chiles e o passante disse: “bom, está bem, mas agora já sabes que não são doces. Por que segues comendo-os? “

Entre tosses e soluços, Nasrudin disse: “Já que investi neles meu dinheiro, não vou jogá-los fora. “
(Conto sufi)

Sermão
 
Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita.

Ele concordou.

Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou: “ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?”

“Não, não sabemos””

“Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja”,  disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.

Desceu do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na sexta-feira seguinte, dia de oração.

Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz: “Sim, sabemos!”

“Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora”, e voltou para casa.

Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes: “sabem ou não sabem?”

A congregação estava preparada.

“Alguns sabem, outros não.”

“Excelente , disse Nasrudin. Então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem”, e foi para casa.
(Conto sufi)

Verdade

"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudin ao rei. "Elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente."

O rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade e o faria.

Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.

O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o rei ordenou que fosse construída uma forca.

Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o capitão da guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.

Um édito foi proclamado: "todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado."

Nasrudin deu um passo à frente.
"Aonde vai?", perguntou o capitão.

"Estou a caminho da forca", respondeu Nasrudin calmamente.

"Não acreditamos em você!"

"Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!"

"Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!"

"Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"
(Conto sufi)

Sábio
 
Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra.

Nasrudin sempre escolhia a menor.

A história correu pelo condado.

Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor.

Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse: “sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.”

“O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.”

"Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!"
(Conto sufi)

Varal
 
Um vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu: “ Nasrudin, você me empresta o varal de secar roupa que o de lá de casa se quebrou?”

“Um momento. Vou perguntar à minha mulher.”

Momentos depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho: “desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal pois minha mulher está secando farinha nele.”

O vizinho, surpreso, exclamou: “mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!”

E Nasrudin respondeu: “É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...”
(Conto sufi)

Olho
 
Um camponês aproximou-se de Nasrudin e queixando-se de que seu olho doía, pediu-lhe um conselho.
Então Hodja disse-lhe: “outro dia meu molar doía, e não me acalmei enquanto não o arranquei.”
(Conto sufi)

Conselhos

Nasrudin começou a construir uma casa. Seus amigos, que tinham cada um sua própria casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos.

Mulla estava radiante.

Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer.

Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava.

Quando a construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.

“Que curioso!, disse Nasrudin. E contudo eu fiz exatamente aquilo que cada um de vocês me tinha dito para fazer!
(Conto sufi)

Doente

Nasrudin, sentado na sala de espera do consultório médico, repetia em voz alta: "espero que eu esteja muito doente", o que intrigava os outros pacientes.

Quando o médico apareceu, Nasrudin repetia quase gritando: "espero que eu esteja muito doente".

"Por que você diz isso?", perguntou o médico.

"Detestaria pensar em alguém que se sinta tão mal como eu não tenha nada!".
(Conto sufi)

SE LIGA AÍ: Algumas leituras - quarta - 10122014



ÁFRICA
Brasileira Vale vende 15% das minas de carvão em Moçambique à japonesa Mitsui
A mineradora brasileira Vale confirmou a venda de 15 % das suas ações na mina de Moatize, na província moçambicana de Tete, à empresa japonesa Mitsui, num total de 450 milhões de dólares. Os japoneses investem também no Corredor Logístico de Nacala.

SAÚDE
Malária recua em todo o mundo, indica relatório da OMS
Entre 2000 e 2013, a taxa de mortalidade relacionada como o paludismo diminuiu 47% em todo o mundo e 54% na África, segundo o relatório anual da OMS, o que permitiu salvar o equivalente a 4,3 milhões de vidas.

Fundamentos da neurociência, por Eric Kandel
Obra de um dos mais influentes cientistas contemporâneos, Princípios de neurociências chega a sua 5ª edição. Aos 85 anos, Eric Kandel é um dos mais influentes cientistas contemporâneos. Ele passou mais de quatro décadas estudando um organismo muito simples do gênero Aplysia, um tipo de lesma-do-mar, para entender os mecanismos da memória, pesquisa pela qual recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2000. Os processos que ele desvendou são os mesmos que, no cérebro humano, regem as lembranças de curto e longo prazo.

TURISMO
Aeroportos brasileiros deverão movimentar 20 milhões de passageiros no fim de ano
Cerca de 20 milhões de passageiros deverão passar pelos principais aeroportos do Brasil neste fim de ano. As autoridades aeronáuticas estimam que o movimento de passageiros no período aumente 7% comparativamente ao mesmo período do ano passado.

DIREITOS HUMANOS
O nazista da piscina pensa igual ao coxinhas da Paulista. Ouça
"A Folha traz hoje reportagem mostrando que o professor Wandercy Antônio Pugliese está devidamente liberado pela polícia catarinense pra manter a sua piscina decorada com a cruz suástica nazista em sua piscina, em Pomerode.

O papa Francisco pediu uma mobilização global para combater o tráfico humano e a escravidão nesta quarta-feira (10), apelando aos consumidores para que boicotem bens que possam ter sido produzidos por trabalhadores explorados. Leia mais (12/10/2014 - 10h39)

Órgãos de defesa dos direitos humanos querem que agentes da CIA sejam processados por tortura
Relatório do Senado norte-americano afirma que agência usou técnicas "brutais" de interrogatório; AI fala em "impunidade das violações de direitos humanos"

CULTURA
A comparação do episódio “Special Service” da terceira temporada da série de TV “Além da Imaginação” (1988-89) com o filme “Show de Truman” (1998) revela didaticamente com a sensibilidade gnóstica atual está por trás de adaptações dos clássicos da TV e do cinema.

CIBERTERRORISMO
O estúdio de cinema da Sony pode enfrentar dezenas de milhões de dólares em custos gerados pelo grande ataque eletrônico que atingiu suas operações e expôs dados sensíveis, segundo especialistas em segurança digital. Leia mais

ÍNDIOS
Temporada de caça aos direitos indígenas está configurada
Hoje novamente está em pauta no Congresso nacional o projeto anti-indígena, a PEC 215 e amanhã o projeto do Senador Romero Jucá, ambos tentando negar aos povos indígenas o reconhecimento dos seus territórios. Aos defensores do Brasil sem índios, lembramos que apesar dessa sanha, os povos indígenas provam o contrário. Passaram de menos de cem mil na década de 60 para quase um milhão atualmente. Na América Latina são 35 milhões. Estão em Lima na COP 20 denunciando as destruições da natureza, o avanço do capitalismo verde, as violações dos Direitos Humanos.

Ruralistas ampliam ataque aos direitos fundiários dos povos indígenas
O Cimi - Conselho Indigenista Missionário repudia veementemente o texto do “Substitutivo à Proposta de Emenda à Constituição 215/2000” apresentado pelo deputado ruralista Osmar Serraglio (PMDB-PR), no dia 17 de novembro de 2014. A PEC 215/2000 e seu Substitutivo é descaradamente inconstitucional e ultrajante aos povos. Inviabiliza novas demarcações de terras indígenas. Reabre procedimentos administrativos já finalizados. Legaliza a invasão, a posse e a exploração das terras indígenas demarcadas.

REPÚBLICA
A sessão extraordinária está marcada para às 19h desta quarta-feira, data limite para aprovar ou desaprovar os gastos de campanha

Se desespere... os fortes sempre vencem


Crédito da ilustração : miriangalli.blogspot.com

Faz um enorme sucesso nas redes sociais o vídeo de um garotinho franzino que provoca um seu colega de escola, xingando-o e desfechando três socos contra seu rosto. O primeiro soco acerta em cheio.

O adversário é um garoto maior e gorducho que acaba por se aborrecer, suspende o fracote no ar e o atira contra o chão.

Para azar do frangote, seu corpo bate numa guia do pátio de escola. Se quebrou alguma coisa não se sabe, pois esses vídeos têm a inenarrável capacidade de nunca contar a história completa. Mas que o frangote saiu estropiado, isso saiu.

Veja:


Em Samuel 1.17 (1), David derrota Golias, ferindo-o com uma pedra e cortando a sua cabeça com uma espada.

Samuel (שְׁמוּאֵל) foi um líder histórico de Israel, o último dos juízes israelitas e o primeiro dos profetas do povo judeu.

Mas essa é uma história contada no Livro de Samuel. Trata-se apenas uma história bíblica, naquilo que chamamos “velho testamento”. É muito provável que Samuel sequer tenha existindo, e que sua história seja apenas uma alegoria, uma forma que grupos sociais costumam usar para fazer frente às suas fragilidades e inseguranças.

Vemos isso cotidiamente até hoje, e enquanto existir por aqui pela Terra o ser humano vamos continuar convivendo com esse tipo de devaneio.

A história de Samuel impregnou a cultura ocidental cristã, chegando aos nossos rincões, como se pode ver em “Florilégio de estrofes da poesia sertaneja”, de João Pessoa (2).

O mundo real conta outras histórias, outros fatos, outras realidades: os mais fortes sempre vencem.

Estou querendo dizer que o mundo e a vida são imutáveis, e que sofreremos para “todo o sempre” os abusos de quem tem o poder e a força?

Não necessariamente. A alegoria de Davi é uma boa saída para enfrentarmos quem nos oprime, mas é preciso tempo, paciência e um bocado de inteligência para alterar a ordem das coisas, e redefinir o nosso presente.

= = = = =

(1) 1 Samuel 17

1 ¶ E os filisteus ajuntaram as suas forças para a guerra e congregaram-se em Socó, que está em Judá, e acamparam-se entre Socó e Azeca, no termo de Damim.
2 Porém Saul e os homens de Israel se ajuntaram e acamparam no vale do carvalho, e ordenaram a batalha contra os filisteus.
3 E os filisteus estavam num monte de um lado, e os israelitas estavam num monte do outro lado; e o vale estava entre eles.
4 Então saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, que tinha de altura seis côvados e um palmo.
5 Trazia na cabeça um capacete de bronze, e vestia uma couraça de escamas; e era o peso da couraça de cinco mil siclos de bronze.
6 E trazia grevas de bronze por cima de seus pés, e um escudo de bronze entre os seus ombros.
7 E a haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança de seiscentos siclos de ferro, e diante dele ia o escudeiro.
8 E parou, e clamou às companhias de Israel, e disse-lhes: Para que saireis a ordenar a batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça a mim.
9 Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, a vós seremos por servos; porém, se eu o vencer, e o ferir, então a nós sereis por servos, e nos servireis.
10 Disse mais o filisteu: Hoje desafio as companhias de Israel, dizendo: Dai-me um homem, para que ambos pelejemos.
11 Ouvindo então Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se, e temeram muito.
12 ¶ E Davi era filho de um homem efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos; e nos dias de Saul era este homem já velho e adiantado em idade entre os homens.
13 Foram-se os três filhos mais velhos de Jessé, e seguiram a Saul à guerra; e eram os nomes de seus três filhos, que se foram à guerra, Eliabe, o primogênito, e o segundo Abinadabe, e o terceiro Sama.
14 E Davi era o menor; e os três maiores seguiram a Saul.
15 Davi, porém, ia e voltava de Saul, para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém.
16 Chegava-se, pois, o filisteu pela manhã e à tarde; e apresentou-se por quarenta dias.
17 E disse Jessé a Davi, seu filho: Toma, peço-te, para teus irmãos um efa deste grão tostado e estes dez pães, e corre a levá-los ao arraial, a teus irmãos.
18 Porém estes dez queijos de leite leva ao capitão de mil; e visitarás a teus irmãos, a ver se vão bem; e tomarás o seu penhor.
19 E estavam Saul, e eles, e todos os homens de Israel no vale do carvalho, pelejando com os filisteus.
20 Davi então se levantou de madrugada, pela manhã, e deixou as ovelhas com um guarda, e carregou-se, e partiu, como Jessé lhe ordenara; e chegou ao lugar dos carros, quando já o exército saía em ordem de batalha, e a gritos chamavam à peleja.
21 E os israelitas e filisteus se puseram em ordem, fileira contra fileira.
22 E Davi deixou a carga que trouxera na mão do guarda da bagagem, e correu à batalha; e, chegando, perguntou a seus irmãos se estavam bem.
23 E, estando ele ainda falando com eles, eis que vinha subindo do exército dos filisteus o homem guerreiro, cujo nome era Golias, o filisteu de Gate; e falou conforme àquelas palavras, e Davi as ouviu.
24 Porém todos os homens em Israel, vendo aquele homem, fugiram de diante dele, e temiam grandemente.
25 E diziam os homens de Israel: Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a Israel; há de ser, pois, que, o homem que o ferir, o rei o enriquecerá de grandes riquezas, e lhe dará a sua filha, e fará livre a casa de seu pai em Israel.
26 Então falou Davi aos homens que estavam com ele, dizendo: Que farão àquele homem, que ferir a este filisteu, e tirar a afronta de sobre Israel? Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?
27 E o povo lhe tornou a falar conforme àquela palavra dizendo: Assim farão ao homem que o ferir.
28 E, ouvindo Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se a ira de Eliabe contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? Com quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção, e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja.
29 Então disse Davi: Que fiz eu agora? Porventura não há razão para isso?
30 E desviou-se dele para outro, e falou conforme àquela palavra; e o povo lhe tornou a responder conforme às primeiras palavras.
31 ¶ E, ouvidas as palavras que Davi havia falado, as anunciaram a Saul, que mandou chamá-lo.
32 E Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá, e pelejará contra este filisteu.
33 Porém Saul disse a Davi: Contra este filisteu não poderás ir para pelejar com ele; pois tu ainda és moço, e ele homem de guerra desde a sua mocidade.
34 Então disse Davi a Saul: Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; e quando vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha do rebanho,
35 Eu saía após ele e o feria, e livrava-a da sua boca; e, quando ele se levantava contra mim, lançava-lhe mão da barba, e o feria e o matava.
36 Assim feria o teu servo o leão, como o urso; assim será este incircunciso filisteu como um deles; porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo.
37 Disse mais Davi: O Senhor me livrou das garras do leão, e das do urso; ele me livrará da mão deste filisteu. Então disse Saul a Davi: Vai, e o Senhor seja contigo.
38 E Saul vestiu a Davi de suas vestes, e pôs-lhe sobre a cabeça um capacete de bronze; e o vestiu de uma couraça.
39 E Davi cingiu a espada sobre as suas vestes, e começou a andar; porém nunca o havia experimentado; então disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o experimentei. E Davi tirou aquilo de sobre si.
40 ¶ E tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco seixos do ribeiro, e pô-los no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão, e lançou mão da sua funda; e foi aproximando-se do filisteu.
41 O filisteu também vinha se aproximando de Davi; e o que lhe levava o escudo ia adiante dele.
42 E, olhando o filisteu, e vendo a Davi, o desprezou, porquanto era moço, ruivo, e de gentil aspecto.
43 Disse, pois, o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus? E o filisteu pelos seus deuses amaldiçoou a Davi.
44 Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo.
45 Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado.
46 Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão, e ferir-te-ei, e tirar-te-ei a cabeça, e os corpos do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves do céu e às feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel;
47 E saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará na nossa mão.
48 ¶ E sucedeu que, levantando-se o filisteu, e indo encontrar-se com Davi, apressou-se Davi, e correu ao combate, a encontrar-se com o filisteu.
49 E Davi pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe encravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra.
50 Assim Davi prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e feriu o filisteu, e o matou; sem que Davi tivesse uma espada na mão.
51 Por isso correu Davi, e pôs-se em pé sobre o filisteu, e tomou a sua espada, e tirou-a da bainha, e o matou, e lhe cortou com ela a cabeça; vendo então os filisteus, que o seu herói era morto, fugiram.
52 Então os homens de Israel e Judá se levantaram, e jubilaram, e seguiram os filisteus, até chegar ao vale, e até às portas de Ecrom; e caíram os feridos dos filisteus pelo caminho de Saaraim até Gate e até Ecrom.
53 Então voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus, e despojaram os seus arraiais.
54 E Davi tomou a cabeça do filisteu, e a trouxe a Jerusalém; porém pôs as armas dele na sua tenda.
55 Vendo, porém, Saul, sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o capitão do exército: De quem é filho este moço, Abner? E disse Abner: Vive a tua alma, ó rei, que o não sei.
56 Disse então o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este moço.
57 Voltando, pois, Davi de ferir o filisteu, Abner o tomou consigo, e o trouxe à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu.
58 E disse-lhe Saul: De quem és filho, jovem? E disse Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita.


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(2) Você é o Golias do repente, mas eu sou um Davi para lhe vencer

O mote que anima essas estrofes, vê-se de entrada, nos remete ao estilo Peleja ou Desafio, no qual pontifica a arte do insulto ou da provocação recíproca, a desafiar os brios dos contendores.
Embora se trate de uma opção muito frequente nas cantorias, e com ela as duplas já se sintam familiarizadas, vez por outra, provoca um certo constrangimento ter que duelar com o companheiro. Tanto mais pelo fato de que os contendores não têm muita saída: de um lado, não podem fazer “corpo mole”, já que estariam sob a pressão do público; por outro, não se sentem tão motivados em “massacrar” o companheiro, até porque tal risco vale para ambos da dupla.
Eis por que alguns tratam de encontrar um meio termo, partindo até de estratégias previamente montadas, ainda que apenas parcialmente, já que, em se tratando de improviso, o cuidado é redobrado, para não parecer cair no ridicularizado e combatido “balaio”, expressão pejorativa por alguns utilizada para designar estrofes pré-fabricadas, ainda que dando a entender resultar de algo improvisado.
Em todo caso, a ordem é recorrer à imaginação e à força das expressões.

(…)
Sou valente igualmente a Lampião
Eu já tenho o rifle e a peixeira
O cangaço é também minha trincheira
Um punhal pra botar em cada mão
Tenho algema que prende o campeão
Eu sou nuvem que passa pra chover
Eu sou fogo para lhe derreter
Quer provar? Dê um pulo em minha frente
Você é o Golias do repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer
Minha carga de rima é tão pesada
Seja ouro no claro ou lá nas trevas
O poeta peleja, mas não leva
Que é preciso passar nesta lombada
Meu repente vale uma tonelada
E quando eu parto cantando, é pra valer
Faço até repentista esmorecer
Se queixar de cansado ou de doente
Você é um Golias do repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer
(…)
Para mim você é só um garrote
Pra você eu já sou mais do que touro
És um louco tombando em bebedouro
Eu sou gênio mostrando os meus dotes
Tenho pernas pra dar o meu pinote
Em você faltam pernar pra corre
O meu rio agora vai encher
Você vai se afogar na minha enchente
Você é um Golias no repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer

São, de resto, estrofes de dez versos decassílabos, forjados ao modo do Martelo Agalopado, e, portanto, com versos acentuados na terceira, na sexta e na décima sílabas, dentro da conhecida estrutura de rima ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)