sábado, 6 de dezembro de 2014

Manifestações anti-Dilma: o avesso do avesso


Crédito da foto: Miguel Schincariol / AFP – no sítio do jornal O Globo

Tudo neste País parece tender ao paradoxo.

Insuflada pelos discursos reiterados e algo azedos do senador mineiro Aécio Neves (PSDB), diga-se, candidato derrotado por Dilma Rousseff, em novembro passado, a oposição ainda teima em ir às ruas pedir impeachment e até intervenção militar.

Numa Democracia tudo é possível, e na Democracia brasileira é até possível que se peça uma ditadura.

Os números rueiros-aposicionistas não são dos mais alvissareiros (para se usar por aqui uma palavra mais de uso em Portugal que no Brasil) para a oposição: nunca se reúne mais que meia dúzia de gente ou pouco mais do que alguns gatos pingados.

Neste sábado, em São Paulo, nada diferente, a não ser a discrepância de números em meio aos três principais veículos de comunicação brasileiros, a saber: Folha, Estadão e O Globo.

A Folha fala em 800, que subiram para 2.000 e, repentinamente, não se sabe como, caíram para 700. Isso é a cara da FSP. “Não viemos para explicar, mas para confundir”.

O Estadão finca pé em 700, e O Globo exagera um bocado ao cravar “entre” 4.000 e 5.000.

Alguém fugiu da escola aí. Quem sabe todos?

Se bem que a foto de O Globo, numa geral, na Paulista, mostre algo mais que 800 pessoas, quiçá coisa de 2 mil.

Malditos números

Em si os números não têm importância alguma, especialmente se pensando que o País tem pouco mais de 200 milhões de almas viventes (embora esse “viventes” não seja de absoluta precisão).

Simbolicamente têm sim: são uma prova do fiasco.

Disso poder-se-ia deduzir que não haja, de fato, um clima golpista, uma vontade de mudança (que mais ou menos se apresentou nas urnas) ou um desdém pela vida política nacional?

Mais ou menos para todas as hipóteses.

Aécio Neves

Embora os petistas em geral e as esquerdas, em seus particulares, não gostem da ideia, e torçam seus narizes para ela, o certo é que Aécio Neves, o derrotado, está fazendo o certo: jogando para a plateia e açulando as massas.

Afinal, a sua derrota foi por uma triz, por um quase-quase.

Está certo que está à beira da insanidade, flertando com o precipício, mas, espertamente, não deu o ar de sua graça na manifestação paulista deste sábado.

Aliás, praticamente ninguém apareceu por lá, a não ser Aloísio Nunes e José Serra. Não sei se eles estão exatamente vivos, politicamente falando, ou são espasmos, ghost de seus próprios passados.

Essas ausências transtornaram o já transtornado compositor e cantor Lobão, o arauto da nova-direita – arautos que voltaram à moda graças à veneranda Igreja Católica Apostólica Romana.

Deixa o papa Francisco saber disso.

São Paulo meu amor

A São, São Paulo, meu amor, do baiano e também compositor e cantor, Tom Zé, continua tal qual a locomotiva, com a qual sonha diuturnamente.

Meio que a lenha, no pré carvão coque, bem antes do diesel e das máquinas a eletricidade.

Mas anda.

E anda mal, tal qual andaram mal seus principais veículos de comunicação, seus empresários, boa parte de sua classe média que pediram, e conseguiram, a derrubada de Jango e a implantação da longeva ditadura militar: 1964-1985.

Pra quem é tão “muderninha”, que já abrigou em seus braços a semana de arte moderna, o anarco-sindicalismo, a jovem guarda, a boca do lixo, os Mutantes, a nascente MPB, o Tropicalismo e o sindicalismo lulo-abecedista, poder-se-ia dizer que SP está trôpego, trêmulo e troncho.

Eu é que não queria ser paulista numa hora dessa.

FUTURO DO JORNALISMO: O novo sistema de poder


Crédito da ilustração: www.osconstitucionalistas.com.br


Por Luciano Martins Costa em 02/12/2014 na edição 827 - Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 2/12/2014.

As empresas de jornalismo estão perdendo o controle do que é notícia. O domínio de empresas de tecnologia na produção e distribuição de conteúdo informativo e opinativo está criando uma nova esfera pública, cujos controladores não estão especialmente preocupados com transparência e ética.

Esse é o tema de publicações recentes sobre a maneira como a mídia tradicional ajuda, por omissão, a consolidar no mundo contemporâneo o poder quase absoluto dos tecnólogos que inundam o planeta com uma enxurrada ininterrupta de aplicativos cujas possibilidades as pessoas desconhecem. Uma das análises mais interessantes é feita por Emily Bell, diretora do Centro Tow de Jornalismo Digital, instituto de pesquisas da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, e foi considerada pelo Fórum Mundial de Editores como o mais importante texto sobre o futuro do jornalismo divulgado neste ano (ver aqui, em inglês, a versão editada para o Instituto Reuters, de Oxford, publicada na terça-feira, 2/12). Sua principal qualidade está em marcar o esvaziamento do poder do jornalismo em definir sua própria natureza.

Emily Bell observa que as principais decisões que impactam o espaço público da comunicação estão sendo tomadas por engenheiros que raramente pensam em jornalismo, em impacto social da informação ou na responsabilidade sobre como notícias são geradas e disseminadas. “Jornalismo e liberdade de expressão se agregaram como parte de uma esfera comercial onde as atividades de notícias e jornalismo se tornaram marginais”, alerta a pesquisadora.

Apontada como responsável pelo renascimento do grupo britânico Guardian, do qual foi diretora de conteúdo digital, ela lembra também que nenhuma das principais iniciativas tecnológicas que dominam o serviço de relacionamentos e interações entre pessoas foi criado ou pertence a empresas jornalísticas.

Como as plataformas de mediação social não estão interessadas em contratar jornalistas ou criar estruturas para a tomada de “decisões editoriais”, atividade altamente complexa e custosa – conclui –, o espaço público fica à mercê dos interesses do mercado de tecnologia.

Onde mora o perigo

Emily Bell comenta que o Facebook usa um conjunto de complicadas fórmulas para decidir como as notícias vão para o alto das páginas pessoais dos usuários; esses mecanismos não apenas determinam o que o indivíduo vai ver, mas também definem, pela constância do uso, o modelo de negócio das plataformas sociais. Esses algoritmos são secretos, não são alcançados pelas regulações que asseguram as liberdades básicas inerentes ao direito à livre informação e à privacidade e, pior, podem ser alterados sem aviso prévio.

A diretora do Centro Tow lembra que nenhuma outra plataforma na história do jornalismo criou tal concentração de poder, o que faz do jovem Gregory Marra um dos mais poderosos executivos do mundo. Ele é diretor de produto do sistema de notícias do Facebook e tem apenas 26 anos de idade. Recentemente, Marra repetiu no New York Times o refrão dos tecnólogos segundo o qual a tecnologia é neutra, porque não faz julgamento editorial sobre o conteúdo postado nas redes sociais. Pois é justamente aí que mora o perigo, diz Emily Bell.

Ainda que os engenheiros acreditem que não estão tomando decisões editoriais, é isso que fazem suas fórmulas matemáticas. Por exemplo, ela lembra, em junho deste ano pesquisadores registraram que o Facebook manipulou as fontes de notícias de 700 mil usuários para observar como diferentes tipos de informação poderiam afetar o humor das pessoas. A resposta: boas notícias deixas as pessoas mais felizes. A questão dos pesquisadores: como o Facebook ousa brincar, literalmente, com as emoções das pessoas?

Em 2010, a rede social fez outra experiência, para verificar como a inserção de notícias sobre eleição estimula pessoas a votar no sistema americano de voto facultativo. Um professor de Harvard pondera que o mesmo recurso pode convencer milhões de eleitores, por exemplo, a escolher determinado candidato.

Emily Bell conclui o artigo alertando que o Facebook não tem obrigação de revelar como manipula o sistema de notícias. Ela afirma também que a imprensa tradicional deveria parar de se deslumbrar com as filas para comprar o novo iPhone e olhar mais para a tecnologia como um novo sistema de poder sem controle social.

TENDÊNCIAS DA INDÚSTRIA: Pesquisa britânica indica que universo dos jovens é digital




Crédito da ilustração: www.proxxima.com.br
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Mark Sweney [“Teenagers and tweens watching TV half as much as adults, Ofcom finds”, The Guardian, 25/11/14] e de Guy Daniels [“The kids are alright (so long as they have their smartphones and tablets)”, TelecomTV, 26/11/14]

De acordo com uma pesquisa do Ofcom, órgão que regula o setor de radiodifusão no Reino Unido, as novas gerações estão de fato abandonando os veículos tradicionais para se dedicar às novas tecnologias, mudando a forma de consumir notícias, filmes e músicas. A pesquisa The Digital Day foi apurada no início de 2014 com crianças de duas faixas etárias: seis e 11 anos; e 11 e 15 anos. Também foi feito um estudo comparativo de comportamento de consumo dos adultos.

Televisão

Segundo os dados apresentados pelo Ofcom, pré-adolescentes e adolescentes assistem à metade da quantidade de TV que um adulto por dia, e dão preferência a serviços de vídeo online como YouTube, Vimeo e Vine. Jovens com idades entre 11 e 15 anos dedicam cerca de 1h32 à TV por dia, e os adultos, 2h58.

Em contrapartida, estes mesmos jovens dedicam 33 minutos diários conferindo vídeos pela internet, enquanto adultos despendem apenas cinco minutos na mesma atividade. E 22% destes jovens (aqueles entre 11 e 15 anos) alegaram que, em algumas semanas, nem mesmo chegam a ligar a TV.

Geração WhatsApp

A pesquisa da Ofcom destacou a mesma diferença no uso de telefones celulares: as crianças e jovens estão mais propensos a utilizar redes sociais e serviços de mensagens instantâneas (como Facebook, WhatsApp e Viber) a realizar um telefonema. Estima-se que 56% do tempo gasto ao telefone celular seja dedicado às atividades citadas.

Apenas 25% dos jovens entre 11 e 15 anos disseram falar ao telefone pelo menos uma vez por semana (em comparação a 83% dos adultos). Além disso, adolescentes gastam o dobro do tempo em redes sociais se comparados aos adultos (52 minutos e 25 minutos, respectivamente). Estes jovens também estão menos propensos a utilizar e-mail, optando por serviços de mensagens instantâneas.

Rádio e música online

A ascensão dos serviços de música digital, como Spotify, Deezer e iTunes, também mudou o jeito de consumir música. Mais de 50% do tempo semanal dos jovens entre 11 e 15 anos é gasto com música digital, seja transmitida via internet ou armazenada em dispositivos digitais.
Ao passo que 40% dos jovens entre 11 e 15 anos declararam sintonizar em estações de rádio pelo menos uma vez por semana, eles gastam em média apenas 15 minutos por dia absorvendo o conteúdo de fato. Já entre os adultos o resultado foi bem diferente, confirmando o “choque de gerações”: 75% deles recorrem ao rádio, dedicando, em média, 1h19 de seu tempo ao veículo diariamente.

Hábitos das crianças menores

Embora tenha feito parte da pesquisa, a faixa etária entre seis e 11 anos ofereceu dados menos precisos, visto que poucas crianças deste nicho possuem dispositivos móveis ou consomem conteúdo sem supervisão dos pais. Apenas 27% dos participantes deste grupo utilizam smartphone ao menos uma vez por semana – em comparação a 65% dos jovens entre 11 e 15 anos e 70% dos adultos. E, quando o fazem, dedicam-se a jogos (22% do tempo total de uso do aparelho), seguido por visualização de vídeos de curta duração no YouTube (16%) – deve-se levar em conta que crianças menores não possuem uma rede de contatos ainda, por isso as atividades são menos comunicativas.

O aparelho mais usado pela faixa etária entre seis e 11 anos é o tablet – 60% das crianças fazem uso deles todas as semanas (contra 38% dos adultos).

Vídeo-chamadas

O recurso de comunicação menos utilizado ainda é a chamada em vídeo (Skype, Facetime etc.). Constatou-se que 11% dos adultos fazem uso do recurso pelo menos uma vez por semana, em comparação a 12% dos jovens entre 11 e 15 anos de idade e 7% das crianças entre seis e 11 anos.

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