quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Da limpa no PT chegamos a Joaquim Levy


Crédito da foto: www.youtube.com

Quem não conhece a história e as raízes do Partido dos Trabalhadores – e a maioria não conhece, especialmente os próprios petistas – não se dá conta de que o partido nasce a bordo de algumas tradições históricas da luta de classes no Brasil.

É herdeiro direto do trabalhismo do getulista, do anarcossindicalismo paulista (de origem italiana) e da esquerda da Igreja Católica Apostólica Romana.

O PT foi, ainda em meio à ditadura militar, um importante (provavelmente o mais importante da história brasileira) agregador de centro-esquerda nacional.

Nasceu assim, e em um momento de pouco espaço participativo, conseguiu trazer pra dentro dele boa parte das esquerdas (da mais moderada aos segmentos mais radicais).

A lua de mel com a esquerda mais radical e com intelectuais de tradição marxista durou cerca de década e meia. Um tempão, convenhamos.

Mas já na eleição de 1989, vencida por Collor de Mello, era possível perceber as fissuras que iam surgindo no partido, fissuras que tenderam a se aprofundar com o tempo (Lula ainda perdeu mais duas eleições, ambas para o sociólogo Fernando Henrique Cardoso) até se chegar ao “Lulinha Paz e Amor”, que levou pela primeira vez o “sapo barbudo” ao Palácio do Planalto.

A guinada ao centro custou ao partido defecções importantes, tanto entre os intelectuais, quanto entre ativistas sociais. A mais importante dessas perdas foi a de Chico de Oliveira, o sociólogo pernambucano radicado em São Paulo.

Chico e FHC são dois dos mais importantes pensadores brasileiros da atualidade.

Se um, FHC, tendeu a rumar e a marcar uma posição de centro-direita, outro, Chico manteve-se cada vez mais afundado na esquerda. Este é o mais feroz crítico do lulopetista, muito embora continue votando no PT, até porque alternativa não há.

No campo político o PT perdeu gente importante. Só para citar alguns: Luiza Erundina, Marina Silva, Chico Alencar, Cristóvão Buarque e Heloisa Helena.

Turrices

Dilma Rousseff, reeleita, anuncia nesta quinta-feira a sua equipe econômica, tendo à frente Joaquim Levy, funcionário do Bradesco, amigo do FMI e conselheiro de Armínio Fraga, aquele mesmo que foi ministro de FHC e seria de Aécio Neves, se este houve vencido a eleição.

Levy é tido como uma workaholic, um “trabalhador” incansável e um turrão, tão turrão quanto a sua nova chefe (não seria “chefa”?).

Não por acaso tem um apelido “carinhoso” de “Joaquim Mão de Tesoura”. Do apelido dá pra se deduzir o que os brasileiros podem esperar vir pela frente, especialmente as áreas sociais, ainda tão carentes de políticas públicas e/ou de investimentos sociais para continuar sobrevivendo e ascendendo.

Crédito da foto: iseu-tribos.blogspot.com
No banquete “direita volver" do novo governo Dilma Rousseff, Kátia Abreu, no ministério da Agricultura, será a cereja do bolo.

Se ela estiver com muito agrotóxico que seja jogada fora e substituída por outra fruta mais sã.

O endireitização do lulopetismo foi vista com muita antecedência por Chico de Oliveira. Hoje, ele poderá dizer, sem que ninguém tenha capacidade de condená-lo: “eu num disse?”.

Pior que disse.

Só quem não tem olhos para ver, que não vê; só quem não tem ouvidos para ouvir, que não ouve.

Ave Chico de Oliveira!

Mal na fita

Crédito da foto: www.dsvc.com.br
Alguns novos intelectuais brasileiros, de tradição marxista, como o chileno-goiano-candango Wladimir Safatle, foram aos poucos se afastando do PT, assim como anos antes houvera feito Chico de Oliveira.

Antevia-se, com muita clareza, que isso ia dar naquilo. E deu: deu em Joaquim Levy, cujo padrinho é ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva.

O caminho era reto e bem asfaltadinho para não se perceber. Ocorre que muitos não perceberam.

Os atritos com os segmentos sociais (que quase custaram a vitória de Dilma Rousseff) começaram lá trás, quando Lula da Silva se indispôs com grupos ambientalistas e indígenas por conta das hidrelétricas na região Amazônica, atritos que contaminaram a ala esquerda da Igreja Católica, especialmente por conta do pouco caso do governo para com os índios e os quilombolas.

Não custa lembrar que nesse meio já estava Dilma Rousseff, a gestora maior do PAC.

Com Levy e sua mão de tesoura é bastante provável, e um bocado visível, que esses atritos se agudizem já nos primeiros anúncios de arrocho.

Dessa forma, em 2018, nem Fernando Haddad, o belo e competente prefeito do município de São Paulo, dá jeito não.

Que os cegos continuem cegos, que os surdos continuem surdos.

Mas não custa continuar reverenciando:

Ave Chico de Oliveira!