sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Para que servem as palavras


Crédito da ilustração: www.sobrinhonews.com.br

Um monge aproximou-se de seu mestre que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da lua, com uma grande dúvida: “mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório. Diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitos de palavras E que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o darma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?”

O velho sábio respondeu: “as palavras são como um dedo apontando para a lua. Cuida de saber olhar para a Lua. Não se preocupe com o dedo que a aponta.”

O monge replicou: “mas eu não poderia olhar a lua sem precisar que algum dedo alheio a indique?”

“Poderia, confirmou o mestre. E assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A lua está e sempre esteve à vista. O darma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o primeiro princípio.”

“Então, o monge perguntou, por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?”

“Porque, completou o sábio, da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato de ela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Dessa forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.”

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

O que Barack Obama está fazendo pelo mundo




Crédito da foto: mashable.com

Nas tradições religiosas, seres supranormais fizeram a vida à perfeição. Em algumas tradições, como a judaica, da qual derivam o Cristianismo e o Islamismo, à sua imagem e semelhança.

Em outras, como no Bramanismo, a vida ainda está por se construir, dado o enorme número de problemas com os quais tem de conviver.

De uma forma ou de outra, a vida foi feita a partir do nada, num átimo de segundo.

Grosso modo, a nós resta viver. De preferência felizes e cordatos.

Ocorre que as coisas não se dão assim no mundo real, um mundo cheio de imperfeições e de finitudes. A imperfeição maior, a injustiça.

A miríade de sonhos, no entanto, não se desfaz, mesmo frente a uma vida caótica e com pouco sentido.

Estamos sempre a imaginar que algum ser supra-humano vá, ora dessas, nos fazer felizes e completos.

Na falta dele(s) vai mesmo um líder terreno. Um político, por exemplo, aos moldes de Getúlio Vargas, Hugo Chaves, Lula da Silva ou Barack Obama.

Ai deles se não corresponderem às nossas expectativas.

O inferno está próximo.

A primeira eleição de Barack Obama, o preto, de origem não remota africana, foi saudada, inclusive por este breve escritor, como capaz de redimir os pobres e desvalidos da terra de Tio Sam: afrodescendentes, chicanos, presos políticos e sociais, e assim por diante.

Se iria, no imaginário popular, inclusive, fechar e devolver Guantánamo para Cuba, acabar com as escaramuças guerreiras, amenizar a vida de estrangeiros que por lá andam.

Esqueceram(os) que a vida é um bocado mais complexa do que um ato milagroso. Há interesses e interesses a serem vistos e ponderados, especialmente numa democracia solidificada como a norte-americana.

Em terras de Tio Sam nem tudo que reluz é ouro.

Obama foi para as pendengas do segundo mandato sob suspeita, inclusive sob suspeita da comunidade afrodescendente que colocava a maior fé no neo-redentor.

Traidor e frouxo... e assim se fez a luz da insânia e da incompreensão, unindo, num mesmo lado da porta, seus antigos apoiadores e a moçada do Tea Party, aquela gente raivosa que tem certeza que Obama é africano, e para piorar a situação, comunista e muçulmano.

Um horror!

Já quase em fins de segundo mandado, Barack Obama, à revelia do Congresso, flexibiliza a lei de migração; já havia trocado afagos com o regime cubano, embora continue mandando tropas e drones para o que, equivocadamente, se chama de Oriente Médio.

É a paga do cargo. É a paga do poder. Um poder descomunal diga-se, mas que não chega a ser supra-humano, muito pelo contrário.

Bestamente, as esquerdas brasileiras (mas não só ela) se aliaram ao Tea Party na demonização de Barack Obama.

Praticamente saíram de mãozinhas dadas pelas ruas com essa gente belicosa, poderosa e perigosa.

Uma estupidez ampla, total e irrestrita, para recuperar aqui, bem a propósito, um mote da ditadura militar dos tempos de Ernesto Geisel.

Só falta, agora, nossas esquerdas, sempre tão caóticas e caolhas, saírem de mãozinhas dadas como os nossos bravos coxinhas.

Ave Barack Obama!