sábado, 15 de novembro de 2014

koans





Equanimidade

DURANTE as guerras civis na China feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle.

Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando - todos exceto um mestre zen, que vivia afastado.
Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge.

O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.
“Seu tolo!, gritou enquanto desembainhava a espada. Não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?

Mas o mestre permaneceu completamente tranquilo.

“E você percebe, o mestre replicou calmamente, que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?”

Garotas

TANZAN e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.

"Venha, menina", disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.

Ekido não falou nada até à noite quando eles atingiram o alojamento do templo. Então ele não mais se conteve e disse:

"Nós monges não nos aproximamos de mulheres", disse a Tanzan. "Especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"

"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"

Hora de Morrer

IKKYU, um mestre zen, era muito inteligente até quando era apenas um menino.

O seu instrutor possuía uma preciosa xícara de chá, uma peça antiga e rara.

Ikkyu acabou quebrando essa xícara e ficou completamente perplexo.

Ouvindo os passos de seu instrutor, ele segurou os pedaços da xícara atrás de si. Quando o mestre apareceu, Ikkyu perguntou:
“Mestre, por que as pessoas têm de morrer?”

“Isto é natural...”, explicou o homem mais velho. “Tudo tem de morrer e tem um tempo determinado para viver.

Ikkyu, mostrando a xícara despedaçada, acrescentou:

“Era tempo de sua xícara morrer.”


Jovem

UM jovem monge foi até o mestre Ji-shou e perguntou:
“Como chamamos uma pessoa que entende uma verdade, mas não pode explicá-la em palavras?”

Disse o mestre:
“Uma pessoa muda comendo mel.”

“E como chamamos uma pessoa que não entende a verdade, mas fala muito sobre ela?”

“Um papagaio imitando as palavras de outra pessoa.”


Olhando da Maneira Correta

HAVIA em uma aldeia uma senhora chamada de "mulher chorona" pois todos os dias, chovendo ou fazendo sol, ela sempre estava chorando. Ela vendia bolinhos na rua, e um monge sempre passava por ela quando ia ao templo para os ritos. Um dia, curioso, ele lhe perguntou:

“Sempre que passo seja em belos dias ensolarados, seja em suaves dias chuvosos, vejo a senhora chorando. Por que isso acontece?”

“Tenho dois filhos”, ela respondeu. “Um faz delicadas sandálias, o outro guarda-chuvas. Quando faz sol, penso que ninguém comprará os guarda-chuvas de meu filho, e ele e sua família vão passar necessidades. Quando chove, penso no meu filho que faz sandálias, e que ninguém vai comprá-las. Então ele também vai ter dificuldade para sustentar sua família.”

O monge sorriu e disse:

“Mas... a senhora deveria ver as coisas da forma correta. Veja: quando o sol brilha, seu filho que faz sandálias venderá muito, e isso é muito bom! Quando chove, seu filho que faz guarda-chuvas venderá muito, e isso é também muito bom!”

A velha olhou-o com alegria e exclamou:

“Tem razão!”

Desde então a velha passou todos os dias, chovendo ou fazendo sol, sorrindo feliz.

A mão de Mokusen

MOKUSEN Hiki vivia em um templo na província de Tamba. Um de seus seguidores falou da mesquinhez de sua própria esposa.

Mokusen visitou a esposa do seguidor e lhe mostrou seu punho cerrado diante de seu rosto.

“O que você quer dizer com isso?”, perguntou a mulher, surpresa.

“Suponhamos que meu punho fosse sempre assim. Como você o chamaria?”, ele perguntou.

“Deformado”, respondeu a mulher.

Então ele abriu sua mão completamente diante do rosto dela e perguntou:

“Suponhamos que fosse sempre assim. O que seria?”

“Outro tipo de deformação”, disse a esposa.

“Se você compreende isso, concluiu Mokusen, você é uma boa esposa.

Depois de sua visita, essa esposa entendeu o erro que cometia.

Nas mãos do destino

Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo embora ele tivesse apenas um décimo do número de homens que seu oponente.

Ele sabia que poderia ganhar mesmo assim, mas seus soldados tinham dúvidas.

No caminho para a batalha ele parou em um templo Shintó e disse aos seus homens:
“Após eu visitar o relicário eu jogarei uma moeda. Se a cara sair, iremos vencer; se sair a coroa, iremos com certeza perder. O destino nos tem em suas mãos”, disse.

Nobunaga entrou no templo e ofereceu uma prece silenciosa. Então saiu e jogou a moeda. A cara apareceu. Seus soldados ficaram tão entusiasmados a lutar que eles ganharam a batalha facilmente.
Após a batalha, seu segundo em comando disse-lhe orgulhoso:

“Ninguém pode mudar a mão do destino!”

“Realmente não...”, disse Nobunaga mostrando-lhe reservadamente sua moeda, que tinha sido duplicada, possuindo a cara impressa nos dois lados.

Mente em Movimento
Dois homens estavam discutindo sobre uma flâmula que tremulava ao vento:
- É o vento que realmente está se movendo! - declarou o primeiro.
- Não, obviamente é a flâmula que se move! - contestou o segundo.
Um mestre Zen, que por acaso passava por perto, ouviu a discussão e os interrompeu dizendo:
- Nem a flâmula nem o vento estão se movendo, é a MENTE que se move.

Meditação e macacos
UM homem estava interessado em aprender meditação. Foi até um zendo (local de prática meditativa zen) e bateu na porta. Um velho professor o atendeu:

"Sim?"

"Bom dia meu senhor," começou o homem. "Eu gostaria de aprender a fazer meditação. Como eu sei que isso é difícil e muito técnico, eu procurei estudar ao máximo, lendo livros e opiniões sobre o que é meditação, suas posturas, etc... Estou aqui porque o senhor é considerado um grande professor de meditação. Gostaria que o senhor me ensinasse."

O velho ficou olhando o homem enquanto este falava. Quando terminou, o professor disse:

"Quer aprender meditação?"

"Claro! Quero muito!", exclamou o outro.

"Estudou muito sobre meditação?", perguntou um tanto irônico.

"Fiz o máximo que pude...", afirmou o homem.

"Certo", replicou o velho. "Então vá para casa e faça exatamente isso: não pense em macacos."

O homem ficou pasmo. Nunca tinha lido nada sobre isso nos livros de meditação. Ainda meio incerto, perguntou:

"Não pensar em macacos? É só isso?"

"É só isso."

"Bem isso é simples de fazer", pensou o homem. O professor então apenas completou:

"Ótimo. Volte amanhã," e bateu a porta.

Duas horas depois, o professor ouviu alguém batendo freneticamente a porta do zendo.

Ele abriu-a, e lá estava de novo o mesmo homem. "Por favor me ajude!" exclamou aflito "Desde que o senhor pediu para que eu não pensasse em macacos, não consegui mais deixar de me preocupar em NÃO PENSAR NELES!!!! Vejo macacos em todos os cantos!!!!"

Nada Existe

YAMAOKA Teshu, um jovem estudante do Zen, visitava um mestre após outro para aprender os seus ensinamentos. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso:

“A mente, Buda, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é vazia. Não há realização, nenhuma desilusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber! A verdadeira iluminação é saber que nada existe!”

Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando xingamentos.

“Se nada existe, perguntou Dokuon, calmo, de onde veio toda esta sua raiva?”

Natureza

DOIS monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado.

O outro monge então perguntou:

"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"

"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza."

(Outra versão deste conto descreve uma raposa que concorda em carregar um escorpião em suas costas através de um rio, sob a condição que o escorpião não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque é minha natureza". A mesma história é encontrada na tradição indígena americana. No Brasil a raposa é substituída por um sapo).