sábado, 26 de julho de 2014

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: estratégias e escaramuças de uma guerra



Esperava-se (e ainda se espera) que a campanha eleitoral deste ano para a presidência da República se transformasse (se transforme... ainda há tempo) num jogo violento e desumano, que desqualifique o eleitor e o seu voto.

Não foi o que se viu até agora, embora a parte mais pesada da campanha esteja reservada para os meses de agosto e setembro, e para aquele iniciozinho de outubro.

Crédito da foto: www.jogodopoder.com
O que se vê no momento é um mundo mais ou menos tranquilo, com acusaçõeszinhas aqui e acolá (exceto no caso do aeroporto do Aécio, em Cláudio, MG), mas sem maiores consequências.

Não me parece que a Copa do Mundo de Futebol, encerrada há duas semanas, tenha alguma coisa que ver com essas amenidades a que estamos assistindo.

Creio que a questão se localize em outros polos:

- na persistência dos índices altos da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de votos;
- nas características dos principais adversários da presidente – Aécio Neves e Eduardo Campos;
- no uso da web como ferramenta de cooptação, difusão e, igualmente, de desqualificação dos adversários.

Por que Dilma?

Crédito da foto: jfabioripardo.blogspot.com
A despeito da avalanche de notícias negativas (imprensa), das correntes nas redes sociais e da ação de oposicionistas com trânsito fácil nos meios de comunicação, os índices de Dilma mantem-se altos, nas proximidades dos 40%, o que pode efetivamente levar a uma vitória até mesmo em primeiro turno (embora eu particularmente não acredite nisso, como já tive oportunidade de dizer em várias ocasiões).

O apoio incondicional ao petismo está na base da pirâmide social (os pobres e os muito pobres) e na baixa classe média.

Isso tudo somado representa mais de 50% da população votante brasileira.

Dilma ainda captura votos nas classes médias alta e média, que embora pouco significativos ajudam a compor e a solidificar os seus números.

São esses votantes (os três primeiros grupos) que recebem (e percebem) mais diretamente os impactos dos programas sociais do governo.

A menos que se tenha uma varinha de condão, a oposição não vai conseguir furar esse bloqueio.  

Os adversários

Crédito da foto: veja.abril.com.br
Diferente de José Serra (candidato derrotado duas vezes por petistas) Aécio e Campos são mais amenos.

Mesmo que se reconheça – e isso efetivamente ocorreu – que havia um certo pudor petista em “aloprar” o trator Serra – por conta de seu passado afinado com as lutas anti-Ditadura Militar – hoje igualmente não existem razões mais claras para se “partir para cima” de Aécio e Campos.

Exceção feita ao aeroporto de Cláudio não há muita coisa a que se explorar no político mineiro, na mesma proporção inversa em que ele não demonstra qualidades para furar o bloqueio petista nas três camadas de sustentação a que se referiu acima.

A situação de Campos (do ponto de vista eleitoral) é mais dramática ainda. Foi ministro (CTI) no primeiro governo Lula e até há dias esteve alinhado com o governo federal.

Crédito da foto: transparenciapolitica.org
Resta ainda a dúvida: em caso de segundo turno entre Dilma e Aécio de que lado ficaria Campos e o PSB?

Parece elementar a resposta, inda mais lembrando que a vice da chapa é Marina, egressa do PT e também ex-ministra petista.

WWW

Na campanha passada o PT apanhou um bocado da mídia, especialmente das TVs, e mais especialmente ainda da Rede Globo de Televisão.

Quem não se lembra da história da bolinha de papel e do caso do aborto, este capitaneado pela ex-mulher de Serra.

A web teve um papel de pouca relevância naquela oportunidade, mas ainda assim foi usada para desqualificar a então candidata Dilma Rousseff.

Quatro anos são quatro anos, e não dois dias.

O PT anteviu o que viria a ser o futuro, estruturou uma consistente rede de apoiadores em blogues e redes sociais, e hoje está bem mais aparelhado que os partidos adversários.

Não há insinuações que fiquem sem rápidas respostas.

Não há indícios de malfeitos que fiquem submersos por mais de um dia.

E há um dado preocupante para os tucanos: o mecanismo de apoio nas redes sociais que o partido havia montado na eleição passada envelheceu e perdeu força.

Tenho acompanhado isso aos detalhes, e dá pra ver com meridiana clareza que aquelas curtições e compartilhamentos todos que se via há quatro anos hoje não passam de garoinhas finas.

O mercado

Crédito da foto: veja.abril.com.br
Não por acaso o mercado rentista entrou em campo mostrando todas as travas das suas chuteiras. Travas daquele tempo em que meu pai jogava futebol, e que eram literalmente pregadas à sola da chanca.

Foi o que fez há dois dias o banco espanhol Santander, o que parece estar-lhe custando caro, pois uma quantidade enorme de correntistas resolveu encerrar as suas contas tão logo se soube dos conselhos anti-dilmistas que banco espalhou.

Suplantada a estratégia webeliana pelo PT, acuada (pelas redes sociais e pelos protestos de rua) a imprensa, resta à oposição (especialmente aos tucanos) o surgimento de um fato novo e bombástico.

Ocorre que tudo parece conspirar a favor de Dilma Rousseff: a Copa da Mundo, o sucesso do Mais Médicos, as bolsas de estudos no exterior, os alto índices de produtividade da agricultura, o pré-sal, a rápida recuperação da Petrobras, o avanço no País no IDH, os investimentos em educação e na saúde, e até mesmo o conflito Israel-palestinos.

Se fatos há, e há, há que se entender que são dois:

- a incapacidade de Campos de ter mais votos que Dilma em seu próprio Estado, Pernambuco, e
- e o tal do aeroporto de Cláudio.

É preciso mais que abortos, mais que perigos comunistas, mais que cartinhas de instituições financeiras, mais que bolinhas de papel, mais que leituras muito particulares dos números das pesquisas para que se altere o quadro sucessório.

Mas ainda o País tem mais de 70 dias pela frente.

Sonhar não custa nada.