sexta-feira, 25 de julho de 2014

Surrando preto, prendendo ativistas: quando tudo é a mesma coisa



Os escravocratas luso-brasileiros (mas não só por aqui) costumavam aplicar demoradas sovas (surras) anuais em seus escravos. A prática era banal e corriqueira, e penalizava homens e mulheres negras, mais homens, supostamente mais insubmissos, dados a fugas e a rebeliões.

Apanhavam por conta disso? NÃO!

Apanhavam para que não fugissem ou se rebelassem.

Preados em África, confinados aos porões dos navios negreiros e escravizados em terras de além-mar ainda tinham de suportar mais essa provação anual.

Não há, pelo que conheço, dados confiáveis a respeito de quantos morreram ou foram inutilizados pela prática brutal, desmedida e incompreensível.

O modo se estendeu pela cultura brasileira, vez por outra mais ameno, mas ainda é possível encontrar famílias onde o pai ou a mãe dá, durante o desjejum, um catiripapo da cabeça da filharada.

Não em represália ou corretivo pelo que fizeram antes, mas para que se lembrem durante o dia de que não devem sair da linha, por que senão já viu né?

Esses anarquistas...

A prisão dos ativistas, caçados como escravos fugidios antes da Copa do Mundo de Futebol, e recém-soltos, indica que a repressão “antecipatória” não cessou neste País.

Foram presos não pelo que fizeram (dê-se a desculpa que se quiser dar ao distinto público), mas pelo que poderiam vir a fazer durante os jogos de futebol.

A história lembra os tapumes que o governo FHC mandou erguer em favelas do Rio de Janeiro durante a visita do presidente norte-americano Bill Clynton, supostamente a pedido (a mando) da intrépida CIA.

Apenas supostamente, pois a intenção real era isolar os pretos pobres da cena de passagem do irrequieto ex-presidente.

Desde quando preto vai comer bom-bocado no alpendre da casa grande, mesmo que tenha sido uma preta quem o tenha feito?

Na sua vinda ao Brasil para gravar um clip de Michael Jackson, o cineasta Spike Lee acordou com os pretos favelados do Rio e de Salvador, o que, segundo dizem, custou-se 300 mil dólares.

Mas nada de tapumes e prisões preventivas.

Muitos desses pretos até participaram das tomadas.

Mas todos são pretos, então que se entendam, reza o nosso lendário preconceito. E se entenderam, como reza a sabedoria e solidariedade preta.

Pasmado

O que é de pasmar é que a prisão dos ativistas (anarquistas, comunistas) antes de copa de futebol se deu a mando e a instrução de um governo que se diz popular e de esquerda.

É o PT, mermão!

Afinal, era preciso manter a boa imagem brasileira no exterior.

Às arquibancadas foram basicamente brancos com mais ou menos dinheiro ou com muito dinheiro – que chegaram até a mandar a Dilma Rousseff, a presidenta, tomar no cu.

Mas onde estavam os pretos, os pobres, as putas?

Não estavam. Não tinham dinheiro para pagar as fortunas que custavam cada ingresso.

Melhor reunir os amigos, fazer aquele churrascão e tomar aquela breja gelada.

A festa ficou para os brancos.

E foi coroada de pleno êxito: o vencedor foi uma equipe essencialmente branca, ariana, com uma ou outra tinturinha do norte da África.

Afinal, depois da surra, um carinhosinho no escravo espancado sempre cai bem.