quinta-feira, 24 de julho de 2014

O amor, o ciúme, a cólera e outras besteiras mundanas



Se você perguntar a um budista (zen ou não) desavisado qual é a essência da sua religião ele vai responder que é a superação ou a supressão do sofrimento.

Há uma lógica nisso, pois o budismo tem como base as Quatro Nobres Verdades:

A ver­da­de do sofri­men­to.
A ver­da­de da ori­gem do sofri­men­to.
A ver­da­de da ces­sa­ção do sofri­men­to.
A ver­da­de do cami­nho que leva à ces­sa­ção do sofri­men­to.

Dukkha (sofri­men­to em sânscri­to) significa, no entanto, insa­tis­fa­ção.

Posto sob essa outra luz o que se tem de superar (ou fazer cessar o sofrimento) tem pouco a ver com perdas amorosas ou de entes queridos, com o desapontamento por um projeto que não funcionou, uma dor de dente ou uma enxaqueca.

Tem a ver com a transcendência daquilo que nos incomoda, e para se chegar a ela tem-se de resgatar o pano de fundo do budismo que é a impermanência (mudança).

Para o budismo, a existência (do indivíduo) muda constantemente, a começar pelo que se entende por individualidade (o ego freudiano) que inexiste: “não existe um eu individual”.

Para o budista, a experiência (individual) nada mais é senão a própria mudança, ela própria a natureza de toda existência.

Quando entendermos a perenidade da verdade, "tudo muda", e aí encontramos a serenidade e descobrimos o Nirvana (Nibbana).

Ao fim de todo o caminho que leva um brami à verdade (ao Nibbana) – verdade, por si só, uma contradição frente à impermanência - o sábio não vai encontrar nada.

Se depara com o Tao (caminho, sem o artigo O) que só pode ser apreendido por intuição; que, portanto, não pode ser ensinado ou explicado, apenas compreendido.

Tao é o caminho da espontaneidade natural, aquele que produz todas as coisas que existem. O te (, a virtude) é o modo de caminhar espontâneo que dá às coisas a sua perfeição.
Tao não transcende o mundo. Tao é a totalidade da espontaneidade ou a naturalidade de todas as coisas.

Tao não faz nada. Não precisa fazer para que tudo o que deva ser feito seja ou esteja feito.

Todas as pessoas são/podem ser felizes desde que evoluam conforme sua própria natureza.

Não deixar o caminho (Tao) fluir espontaneamente é que causa a dor e o sofrimento.

E aí voltamos às Quatro Nobres Verdades (do budismo) e à necessidade da superação do sofrimento e não da sua supressão.

Amor, ciúme, cólera e outras besteiras

A cultura Ocidental, cujo sustentáculo está no judaísmo (o ortodoxo e atual) e no cristianismo (o primitivo e o moderno) é um imenso vale de lágrimas e de sofrimentos constantes, a começar pela Criação, pelo pecado original, pela expulsão de Adão e Eva do Paraíso, pelos êxodos judaicos e pelo martírio dos profetas, o mais espetaculoso deles, a agonia de Jesus Cristo.

O Criador é o Pai, um pai autoritário, algoz, a quem devemos obediência, uma obediência que nos tira a liberdade (até de não-Ser – não sermos).

Não há impermanência, mas sofrimentos e estoicismo se quisermos chegar ao Paraíso.

Não podemos suprimi-la, a impermanência, pois com ela o reino dos céus não será nosso.

Não por acaso somos inseguros, neuróticos, afoitos. Não por acaso sofremos de amor, de ciúme, de cólera; que nos levam aos remédios, às análises e a uma vida infernal e dolorosa.

Não somos impermanentes (se é possível dizer a coisa dessa forma).

Koans

Para ajudar um pouco, alguns koans abaixo.

É mesmo?

Uma linda garota da vila ficou grávida. Seus pais, encolerizados, exigiram saber quem era o pai. Inicialmente resistente a confessar, a ansiosa e embaraçada menina finalmente acusou Hakuin, o mestre Zen o qual todos da vila reverenciavam profundamente por viver uma vida pura. Quando os insultados pais confrontaram Hakuin com a acusação de sua filha, ele simplesmente disse: “É mesmo?”
Quando a criança nasceu, os pais a levaram para Hakuin, o qual agora era visto como um pária por todos da região. Eles exigiram que ele tomasse conta da criança, uma vez que essa era sua responsabilidade.
“É mesmo?”, Hakuin disse calmamente enquanto aceitava a criança.
Por muitos meses ele cuidou carinhosamente da criança, conseguindo leite com os vizinhos e tudo o mais que o bebê necessitava. Até o dia em que a menina não aguentou mais sustentar a mentira e confessou que o verdadeiro pai era um jovem da vila que ela estava tentando proteger.
Os pais imediatamente foram a Hakuin, constrangidos, para ver se ele poderia devolver a guarda do bebê. Com profusas desculpas eles explicaram o que tinha acontecido, enquanto pediam o seu perdão.
Hakuin consentiu. Ao entregar a criança, tudo o que ele disse foi: “É mesmo?”

A prisão
Em um mosteiro Zen, um monge novato estava agindo de forma rebelde às normas do local, causando certo tumulto. O mestre, percebendo o desconforto da comunidade dos monges, resolveu chamar a atenção do monge rebelde determinando-lhe que ficasse num alojamento a parte para que refletisse sobre a sua conduta. Contrariado, mas obediente, o monge aceitou a ordem e foi levado ao tal alojamento.
Passaram-se algumas semanas e o monge ainda estava no mesmo aposento, onde lhe levavam diariamente comida e água que eram deixadas em uma abertura da porta. Todo esse tempo de enclausuramento fez com que chegasse à conclusão que havia de fato passado dos limites com aquela atitude de rebeldia. Estava realmente arrependido.
O tempo passava e já fazia alguns meses que o monge estava lá, quando começou a se inquietar e pensou, indignado: "Sei que abusei da minha liberdade, mas não acho que minha atitude tenha sido tão grave ao ponto de ficar tantos meses trancafiado nesta prisão. Agora quem passou dos limites foram eles. Não vou mais aceitar tamanho absurdo. Vou sair daqui imediatamente, nem que eu tenha que arrebentar esta porta."
Neste momento, o monge se aproxima da porta e, numa atitude enraivecida, tenta forçar a tranca da porta para arrombá-la logo em seguida. Ao fazer isso, a porta se abre sem qualquer esforço de sua parte. Espantado, o monge nota que a porta estava aberta durante todo o tempo em que permanecera ali!

Impermanência
Um famoso mestre Zen aproximou-se do portal principal do palácio do Imperador. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se onde o Imperador estava, solenemente sentado em seu trono.
"O que vós desejais?", perguntou o governante, imediatamente reconhecendo o visitante.
"Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria," replicou o mestre.
"Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem”, disse o Imperador, divertido, "Este é o meu palácio."
"Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?" perguntou o mestre.
"Meu pai. Ele está morto."
"E a quem pertenceu antes dele?"
"Meu avô," disse, já bastante intrigado, "Mas ele também está morto."
"Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem - vós me dizeis que tal lugar não é uma hospedaria?"

O ladrão
Uma noite quando Shichiri Kojun estava recitando sutras um ladrão com uma espada entrou em seu zendo, exigindo seu dinheiro ou a sua vida. Shichiri disse-lhe: "Não me perturbe. Você pode encontrar o dinheiro naquela gaveta."
E retomou sua recitação.
Um pouco depois ele parou de novo e disse ao ladrão: "Não pegue tudo. Eu preciso de alguma soma para pagar os impostos amanhã."
O intruso pegou a maior parte do dinheiro e principiou a sair.
"Agradeça à pessoa quando você recebe um presente", Shichiri acrescentou.
O homem lhe agradeceu, meio confuso, e fugiu.
Poucos dias depois o indivíduo foi preso e confessou, entre outras coisas, a ofensa contra Shichiri. Quando Shichiri foi chamado como testemunha ele disse: "Este homem não é ladrão, ao menos tanto quanto me diz respeito. Eu lhe dei o dinheiro e ele inclusive me agradeceu por isso." Após o homem ter cumprido sua pena, ele foi a Shichiri e tornou-se um de seus discípulos.

A lua
Ryokan, um mestre zen, vivia o tipo mais simples possível de vida em uma pequena cabana no sopé de uma montanha. Uma noite, um ladrão visitou a cabana e surpreendeu-se ao descobrir que não havia nada nela para ser roubado. Ryokan voltou e o pegou.
“Você provavelmente veio de longe para me visitar”, disse ele ao gatuno. “E não deve voltar com as mãos vazias. Por favor, tome minhas roupas como um presente.”
O ladrão ficou completamente desnorteado. Ele pegou as roupas e escapuliu.
Ryokan sentou-se nu, observando a lua.
“Pobre rapaz. Eu gostaria de poder ter dado a ele esta bela lua.”

A gente somos ingnoranti!


Crédito da ilustração: fernandofidelix.blogspot.com

Um bom texto do professor e linguista Sírio Possenti, em seu blog no Terra Magazine.

Continuamos nos atrapalhando e confundido escrita com fala. Nos atazanamos com as regras gramaticais.

Queremos sempre mudar tudo para tentar chegar a algum lugar onde não iremos chegar.

É de tudo isso que trata o texto.

Deliciem-se.


[Tenho dificuldade em entender pessoas que (me) dizem que não conseguem compreender aulas de gramática. Confesso que, no interior de Santa Catarina, no então segundo ano primário, com 8 anos, embora tivesse um conjunto de dificuldades específicas, sobretudo para escrever certas palavras, pelo fato, entre outros, de estar aprendendo a falar português (minha língua materna é um dialeto italiano), traçava sem problemas as inúteis aulas de gramática, que se limitavam, é verdade, à análise sintática de frases simples. Mas era o segundo ano primário! Nos primeiros anos do então ginásio, aprendi latim, e a base das aulas eram os casos, as declinações, que exigiam, dado o método, que se compreendessem claramente as noções de sujeito, objeto direto, indireto, locativo etc. 

Me espanta, sobretudo, a dificuldade que (quase) todos revelam para compreender fatos rudimentares em relação à escrita.  Dou um exemplo concreto.

No dia 7/7/2014, o Jornal da Cultura (noturno) comentou que há novo projeto de reforma ortográfica (uma Comissão do Senado está analisando e há alguma simpatia por ele, em geral devida à ignorância). O texto da repórter, na rua, e também o da apresentadora, no estúdio, mostraram algumas confusões (tratar ortografia como gramática, por exemplo). Mas deixemos isso de lado.

A reportagem cita breves comentários de dois dos campeões da nova proposta. Um diz que querem “reformar a reforma” (é até um bom slogan). Só que não houve reforma recente; houve um acordo para unificar um pouco algumas grafias.  Outro declarou que “o ensino (da ortografia) poderá ficar muito fácil”. Erra redondamente, porque a maior parte dos erros de ortografia que se encontram por aí não se solucionam com a reforma proposta, porque decorrem de fatos que ela nem considera.

O referido jornal tem um formato peculiar. Lida uma notícia, dois “especialistas” a comentam. Neste dia, estavam na bancada o historiador Marco Antônio Vila (que eu achava que era funcionário do William Waak, da Globo News) e o ex-deputado e advogado Airton Soares. Eles ocupam lugares diferentes no espectro ideológico, o que resulta em avaliações conflitantes sobre os fatos noticiados, o que é bom para o espectador.

O problema foi comentarem ortografia. Vila disse que, com as sucessivas reformas, “ninguém consegue escrever direito, ninguém consegue falar”. Olhem a besteira: o que têm a ver as reformas ortográficas com fala? Já Airton Soares informou que “o inglês não tem acento, e eles pronunciam direitinho. Quem sabe possamos evoluir e não precisemos de acento para destacar o lugar em que se deve fazer a pressão vocal na palavra”.

Escrevi tudo isso para chegar a um ponto. É o melhor exemplo de que as pessoas, mesmo as cultas, não conseguem entender questões elementares de gramática.

As gramáticas e manuais são absolutamente claros sobre regras de acentuação (talvez mais do que em qualquer outro tópico). Antes de informar quais são as regras, informam o elementar sobre tonicidade: que as palavras podem ser oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas, isto é, ter a última, a penúltima ou a antepenúltima sílaba acentuada: “picolé / batata / esôfago” são exemplos da cada caso.

Estas sílabas são acentuadas NA FALA! E ninguém ensina acentuação na fala. E todos acertam sempre, com pouquíssimas exceções, pois há alguma variação em casos como “circuito, fluido e ibero”. As palavras em que se pode “errar” não chegam a duas dezenas. Crianças dizem maMÃE e não MAmãe (uso maiúsculas para marcar a sílaba tônica), vovÓ e não VOvó,  brinQUEdo e não BRINquedo ou brinqueDO.

O que se estuda na escola são regras para marcar GRAFICAMENTE (ou deixar de marcar) as sílabas tônicas – que são tônicas ANTES, na fala. As regras dizem que as tônicas das palavras paroxítonas não são marcadas (baTAta, tiJEla, caROço etc.) e que se marcam as tônicas das proparoxítonas (como  “paroXÍtona”)  e das oxítonas (como em “pangaRÉ”).

Assim, a observação de Airton Soares é muito estranha: ninguém precisa procurar o sinal gráfico para saber onde deve fazer o que ele chamou de “pressão vocal”. Nossa língua é basicamente paroxítona, ou seja, a maioria das palavras tem a penúltima sílaba tônica, e até por isso, por economia (ou por default), não são acentuadas na escrita.

Não consigo entender que ele(s) não entenda(m) isso!  E os senadores que vão avaliar o projeto têm esse mesmo nível de compreensão da escrita. Imagine-se onde isso pode parar!]