segunda-feira, 16 de junho de 2014

Como estamos quentando o ovo e reinventando o nazi fascismo



Nós brasileiros gostamos de dizer que foi aqui - e só aqui - que ocorreu essa “mistura de raça e de cor”.

Culpa em parte (ou culpa total) cabe ao hiper-conservador sociológico Gilberto Freyre, e seus devaneios afro-tropicalistas.

Apenas um cara teve coragem de detonar o pensador (sic) pernambucano: Fernando Henrique Cardoso.

Aqui, na Colômbia e no Peru – só para citar mais dois exemplos – aconteceu a mesma “mistura de raça e de cor”, o que não nos faz melhor ou pior que outros povos e nações.

Na híbrida América há países marcados pelo privilégio índio: México e Equador são dois ótimos exemplos.

Ou pela prevalência branca, com manchas esmaecidas de indianidade e de negritude, como na Argentina e no Uruguai.

Essa mistureba cultural atraiu, nos maluquissímos anos 50,60 e 70, os olhos e as vindas de pensadores e gentes comuns, especialmente da Europa.

Era nóis, mano, frente a um mundo embasbacado.

A coisa mudou muito antes de retornar, mas antes um pouquinho de Cuba.

Cuba Libre

Naqueles anos falar mal de Cuba equivalia a falar bem de Cuba nestes tempos atuais, cruéis e tenebrosos.

Ai de quem ousasse.

As camadas médias e populares, estudantes de classe média, intelectuais e artistas se movimentavam pela luz da Revolução Cubana e pelos olhares do mítico Ernesto Che Guevara.

OK! Já existiam os coxinhas, mas eram insignificantes e medrosos.

Jovens norte-americanos e canadenses venciam 400 km do mar do Caribe, em balsas e em barcos improvisados para ajudar na colheita da cana-de-açúcar cubana.

E viva la revolución!

Revertério

Já nos anos 60 o subcontinente latino-americano começou a ser sacudido por um sem-número de golpes militares (de estado) todos eles, sem exceção, patrocinados pelos Estados Unidos.

Era preciso matar o mítico Che. Era preciso acabar com Cuba. Era preciso deter e exterminar a utopia igualitária, mais índia, que branca ou negra.

Ditadores, prisões, assassinatos, torturas, desparecimentos tornaram o subcontinente latino-americano estéril e espantaram daqui os pensadores e as gentes estrangeiras comuns.

O golpe final veio com o fim da União Soviética e com o sufocamento das utopias igualitárias.

O subcontinente ficou árido e nós viramos cucarachas prontos para migrar para a América nos braços de um coyote.

A reviravolta

A virada do milênio encontra milhões de cucarachas subempregados nos EUA e o neoliberalismo destroçado pela própria incompetência.

É nesse cenário que surge gente como Hugo Chaves e Lula da Silva.

Mas surgem pianinhos, admitindo todas as teses, modos e feitos do moribundo capitalismo.

As teses revolucionárias e revolucionadas foram mantidas no quartinho da empregada.

A ordem é consumir. É fazer do índio, do pobre, do preto mais um consumidor de bens não duráveis e os de durabilidade efêmera.

É a revolução proto-burguesa petista, chavista, bolivariana.

Fidel quase teve um piripaque. Che revirou na tumba.

Mas mesmo assim Chaves e Lula assustam.

Nossos estanceiros e nossos senhores de engenho não estão acostumados com tanto pobre na fila dos supermercados, passeando em shopping center e viajando de avião.

O renascimento da direita latino-americana vem desse confronto de alteridades.

Nas oropas

Assim como na Europa acossada pela migração de pretos africanos, gentes do Leste Europeu e barbudos islâmicos.

Michael Löwy, na Ilustríssima deste último domingo, destrincha “Dez teses sobre a ascensão da extrema direita europeia“.

“O novo fascismo espreita o Velho Continente”
[O resultado das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio, registrou na prática o fortalecimento dos partidos de extrema direita no continente. Para sociólogo, discurso com que esquerda explica o crescimento do fascismo pela via da crise econômica reduz fenômeno e deixa de lado suas raízes históricas.].

Bem a propósito, pois vem pouquíssimos dias depois do “Dilma, vá tomar no cu”, na Arena Corinthians, em São Paulo.

Assim nasce e cresce o nazi fascismo.

É muito fácil encontrar nas ruas alemãs, na antevéspera da ascensão de Hitler, gente como Mainardi, Azevedo, Aécio, Serra, Gentilli.

Estamos quentando o ovo.

O ovo da serpente.

Depois não reclame.