domingo, 15 de junho de 2014

Como adquirir educação com cartão de crédito



Em Manaus, por quase seis anos, trabalhei com um sujeito chamado Renato Andrade. Ele tinha grana, não precisava trabalhar, mas assim mesmo trabalhava no antigo Banco do Estado do Amazonas (BEA), do qual eu era assessor de comunicação e ele do cerimonial da instituição.

Homossexual, Andrade não tomou os cuidados devidos. Foi um dos primeiros sujeitos que conheci portador de HIV e faleceu prematuramente, abatido por uma doença oportunista qualquer.

Era um cara que gostava da vida, sempre alegre, brincalhão, inteligentíssimo, e apesar de amazonense preferiu morrer no Rio de Janeiro, cidade que adorava.

Além do Rio, adorava também Nova York e Paris para onde ia todo ano.

Após as férias e as viagens aos EUA e à França, a volta de Renatinho ao trabalho era sempre uma delícia.

Centenas de histórias divertidas a contar, observações argutas sobre os países, as cidades e seus moradores.

Mas o melhor Renatinho dedicava aos brasileiros que encontrava nas salas de embarque dos aeroportos.

“Uns jecas, que falam alto, se exibem o tempo todo numa disputa barulhenta para ver quem tinha pago mais caro por um badulaque qualquer comprado de Nova York ou em Paris.”

Assim como Renatinho, um sujeito mais velho que conheci em SP e que ia com regularidade a Londres procurava não se identificar como brasileiro quando por acaso cruzava com essas hordas de brazucas endinheirados em algum canto da capital inglesa.

Renato Andrade leu como poucos a alma grosseira e ignorante do brasileiro que subiu na vida sabe–se lá ancorado em que degrau da economia e dos privilégios escusos.

Dilma

É essa gente diferenciada e endinheirada quem mandou a presidente Dilma Rousseff tomar no cu na abertura do mundial, semana passada, em São Paulo.

Gente grosseira, sem argumentos porque ignorante, agressiva porque se acha acima do bem e do mal, porque imagina que a grana vai lhe salvar das garras de justiça, assim como lhe salva por não pagar impostos, por corromper pessoas, por remunerar mal os seus empregados e por desviar dinheiro para paraísos fiscais.

Como lembrou Luiz Caversan, as gentes pobres e humildes da Zona Leste paulistana (onde ocorreu a ofensa) não fazem isso, porque se fizerem vão acabar “levando um tapa na boca”.

Pobre não sonega, não desvia dinheiro para paraísos fiscais e ainda paga regiamente as suas contas.

E não manda mulheres, muito menos as idosas, as mães e as avós, e ainda por cima presidente de uma nação tomar no cu.

Educação não se compra em supermercado, nem em shopping center; não chega por delivery e nem é possível parcelar no cartão de crédito.

Ela vem de casa. Vem do berço. Vem da mãe e do pai. Dos avós, dos tios e dos vizinhos.

Quem tem tudo isso, tem. Quem não tem, nunca terá.