quarta-feira, 7 de maio de 2014

A mineirinha que queria beijar a minha boca



Fui algumas vezes ao Instituto Bairral de Psiquiatria por conta de meu irmão que andou internado por lá nos anos 70. O hospital, que trata de enfermidades relacionadas à saúde mental, fica em Itapira (interior de São Paulo) e até hoje é considerado “a maior clinica psiquiátrica da América Latina”.

Na primeira vez que fui ao Instituto uma mulher, razoavelmente jovem, se aproximou e pediu para que lhe beijasse a boca. Não deu nem tempo de reagir: um dos seguranças do Instituto agiu rapidamente, puxou-a e com ela desapareceu. Nunca mais a vi nas visitas seguintes.

Fui perguntar quem era a paciente e o que acontecera com ela.

Era uma mulher mineira (não me lembro mais de que cidade) que até uns dois anos antes levava uma vida normal, casada e com filhos.

Um incêndio destruiu a sua casa e matou marido e filhos. Não há quem resista a uma situação dessa e ela não resistiu.

Na minha doce ignorância na matéria imagino que a mineirinha fosse (tivesse se tornado) esquizofrênica.

A literatura médica identifica a esquizofrenia como um transtorno mental complexo que dificulta a pessoa de fazer a distinção entre as experiências reais e imaginárias; a pensar de forma lógica, a ter respostas emocionais normais e a comportar-se normalmente em situações sociais.

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. A pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, os exemplos mais clássicos, ter alucinações e delírios.” (WP)

No Guarujá

A jovem dona de casa, Fabiane Maria de Jesus, chacinada no Guarujá, era bipolar.

Com transtorno bipolar a pessoa alterna períodos de muito bom humor com irritação e depressão. O problema pode ser desencadeado, por exemplo, por mudanças na vida, como o nascimento de um bebê; medicamentos, como antidepressivos ou esteroides; períodos de insônia e uso de drogas.

Fabiane sofreu dois abortos e segundo amigos e parentes nunca se recuperou dos traumas e passou a ser diagnosticada como portadora de transtorno bipolar.

Foi morta por justiceiros que a confundiram como uma satanista que usava crianças em rituais macabros.

O caso de Fabiane nos leva imediatamente à caça às bruxas da Idade Média.

Vejamos o que diz (sinteticamente) a literatura:

A caça às bruxas foi uma perseguição política e social que começou no século XV e atingiu seu apogeu nos séculos XVI e XVII principalmente em Portugal, na Espanha, França, Inglaterra (chamada de Normandia), na Alemanha, na Suíça em menor escala. As antigas seitas pagãs e matriarcais , de fundo e objetivo político, eram tidas como satânicas, de domínio popular com objeto diferente do religioso, sendo organizações diferentes do que costumam pregar a Bíblia, Alcorão e outros livros santos, tendo uma conotação de domínio político de poder. O mais famoso manual de caça às bruxas é o Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras), de 1486”. (WP)

Ufa... estamos na Idade Média!

Mas quem são os assassinos de Fabiane? Meros assassinos ou mais que isso: são seres esquizofrênicos, que teimam em se alienar do mundo real?

Ou são mais que isso? São psicopatas, portadores de uma “desordem de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial recorrente ou por uma diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela pertença de uma atitude de dominância desmedida?”. (WP)

E eis que chegamos a um ponto relevante.

Dois dos ouvidos pela polícia argumentaram que “não sabia que ela era inocente” e “se nós a matamos foi porque ela fez alguma coisa”.

Ou seja, num dos casos, se ela era inocente então outra (a culpada “de verdade”) deveria ter sido morta no lugar dela, e no outro, culpada ou não, ela mereceu morrer.

O que esperar dessa gente? Que anos e anos de cadeia e de tratamento psiquiátrico resolvam os seus casos?

Voltemos, então, à literatura especializada: “a psicopatia não é uma doença mental, é um estado da mente de algumas pessoas que nascem assim e assim morrerão. Não existe nenhum tratamento totalmente eficaz, nem psiquiátrico nem medicamentoso para tratar da psicopatia.

Precisa falar mais alguma coisa?

Seletividade: os justiceiros chacinam pobres como eles




Crédito da fotomontagem: noticias.uol.com.br

A violência – preferencialmente – atinge mais as pessoas dos chamados grupos vulneráveis (os vários tipos de pobres). E ela, violência, não parte apenas do Estado, mas também das camadas sociais mais elevadas e, pasme, principalmente no interior das próprias comunidades carentes, vide o caso desta semana da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, justiçada em sua comunidade (Morrinhos), no Guarujá, no litoral paulista.

Há uma seletividade nesse inenarrável número de justiçamento brasileiro, como advoga bem Ariadne Natal, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), também autora de tese sobre casos de justiçamentos sumários ocorridos na cidade de São Paulo e região metropolitana, de 1980 a 2009.

A propósito de Ariadne Natal e sua tese leia mais no blog A Procura - Linchamentos não são aleatórios e atingem mais pobres, defende pesquisadora.

Você precisa ser um bocado pobre (que no Brasil somam-se aos milhões), morar numa comunidade carente (urbana e rural) e ainda ser um ponto fora da curva do moralismo vigente aí: traficante, estuprador, satanista e coisas do gênero.

Vale também pegar alguém por engano, como foi o caso de Fabiane.

Se você tem esse perfil e isso já aconteceu com você, certamente não está lendo este artigo.

Você nunca viu um cara de classe média e das classes mais altas ser justiçado, viu?

Não viu não, pois esses casos não existem.

E não existem por quê? Porque há uma ação protetiva ao redor dessas pessoas, rede protetiva que não compreende apenas os de suas classes sociais, como igualmente os aparatos repressivos do Estado e – pasme mais uma vez – as próprias comunidades vulneráveis.

Imagine executar um cidadão de bem, que trabalha muito, que paga os seus impostos e blábláblá!

Emaranhado perigoso

O próprio enunciado “cidadão de bem” já é por si só excludente, ao dividir a sociedade entre os de bem e os do mal.

E pasme pela terceira vez: as populações vulneráveis (quer dizer, os pobres) aceitam cordeiramente este senso comum.

Daí que estamos a um passo do justiçamento de nossos iguais.

Quase ninguém gosta de abordar a questão da violência por este prisma (não é politicamente correto): boa parte da violência contra a pessoa parte de pessoas tão pobres, carentes e vulneráveis como a (s) própria (s) vítima(s).

São os agentes da execução, como são agentes do atropelamento dos direitos indígenas madeireiros, coletores, vaqueiros, garimpeiros – gente tão ou mais ferrada socialmente quanto são os “nossos índios, nossos mortos”.

Vá dormir com um barulho desses!

É melhor colocar tampões nos ouvidos, fazer de conta que esse ruído não existe e dormir o sono dos justos.

Dedo na ferida

Se não colocarmos os nossos límpidos dedos nessa fétida ferida não vamos a lugar algum.

Vamos continuar acusando a ausência do Estado nas comunidades vulneráveis (o que em parte é balela pura) e apoiando ações violentas não apenas de grupos paramilitares, como da Polícia Militar.

Vamos dormir em paz até que um dos nossos seja vítima dessas atrocidades todas.

Ah, mas se a vítima for a nossa empregadinha doméstica ou um de seus parentes a gente faz cara de condolência e vai arrumar outra para fazer o trabalhinho sujo lá de casa.

É correto dizer que apenas a Educação pode nos tirar da barbárie onde estamos inseridos, e pedir ao governo mais investimentos no ensino público?

Correto é, mas não vamos perder de vista que educação mesmo começa em casa, e boa parte desses justiceiros todos (se não a totalidade) não teve nenhuma educação em suas respectivas famílias, sejam elas quais forem.

O que se quer dizer é que o buraco é bem mais embaixo.

E para tapá-lo é preciso sim uma ação enérgica de Estado, ação que passa, inclusive, pela regulamentação e saneamento das concessões públicas dos meios de informação, onde está boa parte dos apoiadores e incentivadores dessa violência toda, e de onde os justiceiros tiram razões para praticar o que praticam.

Ah... e não se esqueça de clicar no link acima para ler a matéria sobre Ariadne Natal e sua tese.