quarta-feira, 23 de abril de 2014

Queremos direito de mais e dever de menos (?)



Reza o senso comum (o conservador, se é que existe senso comum que não seja conservador) que as pessoas querem direitos de mais (em excesso?), mas deveres (obrigações) de menos.

Mais ou menos recém-saído da puberdade participei de uma reunião com gente ligada ao velho PCB e acabei por me chocar com a proposta de um dos comunistas presentes, que, em síntese, era a seguinte:

O Estado deveria proibir que as pessoas ficassem mudando de uma cidade para outra, ou, em caso de permissão, que pagassem por isso.

Argumentava o comunista que as pessoas acabavam por dar origem a bairros e depois o poder público teria de correr atrás para levar água encanada, luz elétrica, calçamento, postos de saúde, escolas etc.

Aquilo me cheirou a stalinismo e me lembrou os passaportes internos criados pela União Soviética.

Saí incomodado da reunião e passei meses a refletir sobre a proposta que me pareceu extremamente autoritária e que feria um direito humano básico: o de se locomover e de optar por morar onde quer que seja.

A despeito da virulência da proposição do comunista, ela, no entanto, não é das mais descabidas. Basta ampliarmos a análise para o nosso cotidiano para entendermos que a população em geral (independente da classe social) está a exigir uma série de direitos, a reclamar pela solução de um sem-número de problemas, problemas estes quase sempre gerados por ela (população) mesma.

Rua + carros = caos


Crédito da foto: www.jornalnanet.com.br
No seu primeiro mandato como governador eleito do Distrito Federal Joaquim Roriz tentou implantar na Capital Federal a “zona azul”.

Um parêntese: não iria se chamar “zona”, pois a pieguice e o preconceito brasiliense associam zona a prostíbulo.

Houve uma grita geral contra a “zona azul” roriziana e o projeto foi pro beleléu. Hoje é uma beleza trafegar pelas vias das quadras e superquadras da cidade. Se você for um motorista de pouca habilidade nem tente, ou você vai ralar algumas dezenas de carros que ficam estacionados na via pública por horas a fio.

OK, Roriz montou aquela velha licitação viciada e malandra para favorecer os seus, mas sepultar a zona azul brasiliense foi de uma estupidez espetacular.

Cotia, a cidade onde nasci, na Grande São Paulo, enfrenta neste momento o mesmo problema; a prefeitura criou a zona azul cotiana (zona mesmo, sem preconceito) e parte da população está revoltada.

Como no caso de Brasília, o argumento dos cotianos é o mesmo: eu pago imposto, eu trabalho muito, e ainda tenho de pagar para deixar o meu carro estacionado numa via pública?

Pois é exatamente aí que reside a questão: a via é pública, portanto de todos, e não uma garagem de automóveis que pode ser desfrutada (gratuitamente) por quem quer que seja e por quanto tempo lhe der na veneta.

Cadê a água?


Crédito da ilustração: www.derradeirasgracas.com
São Paulo enfrenta (o que era previsível desde que José de Anchieta fundou a cidade) uma enorme e aparentemente insolúvel escassez de água.

A saída do governo tucano foi adotar um rodízio não explícito de fornecimento e passar a multar quem usa em excesso o ”precioso líquido” (arghhhh!!).

O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) já foi à luta para dizer que a cobrança é ilegal (ainda bem que não disse ser inconstitucional).

Isso nos devolve à zona, ou melhor, à minha reunião com os comunistas.

De novo está-se cobrando “medidas concretas e eficazes” do governo para problemas que o próprio cidadão criou: desperdiçar água lavando frente de casa, calçada, carros etc., ou, no primeiro caso, parar o carro onde lhe dá na telha.

E também ao senso comum: queremos direito de mais e dever de menos?