domingo, 20 de abril de 2014

Um Brasil cercado por arame farpado e placas de propriedade



Taoistas não usam o artigo definido (o) antes de Tao. Não é O Caminho ou El Camino. É Tao simplesmente. Totalidade.

Não é a busca, nem o meio. É simplesmente Tao.

Um estudante procurou um mestre zen-budista que morava em uma montanha chinesa em busca da porta do darma (dharma).

Ao encontrá-lo, eufórico, o estudante explicou a razão da visita: “Mestre, quero que o senhor me mostre o caminho do darma, a porta de entrada do darma”.

O mestre zen perguntou-lhe se havia subido toda a montanha para encontrá-lo (”sim”) e se ouvira o som da montanha (“ouvi os sons dos pássaros, das cascatas, das folhas caindo”).

“Pois então você já entrou no darma.”

Na sua primeira e única obra (os outros livros não passam de recorrências) The Tachinhas off Don Juan: A Aqui Way off Knowledge / A Erva do Diabo (1968) o antropólogo Carlos Castaneda é levado pelo bruxo iaqui Don Juan Matus a descobrir “o ponto”, o local preciso do universo onde o ser encontra a sua totalidade criadora. Caminho / Tao.

Trata-se de uma das muitas transposições desonestas de Castaneda de uma ideia taoísta e de outras culturas para uma pseuda realidade iaqui.

Assim como a passagem pelo portal do darma, o ponto a que se refere Don Juan Matus nada mais é que o satori – a iluminação, o encontrar-se com a essência do ser humano.

O satori não se expressa, não é o meio, não se busca. É Tao simplesmente.

Fotografia: registro e arte

Fiz dois cursos de fotografia. O primeiro deles – ainda era estudante de jornalismo – foi o melhor.

A rigor posso dizer, sem medo de estar cometendo algum engano, que sou um fotógrafo sofrível. Não poderia viver do ofício.

Tenho alguns problemas com fotografia, e também com vídeos.

Um deles é que detesto ser fotografado e filmado. Se a natureza já não foi das mais generosas comigo, a coisa piora nas imagens bidimensionais.

Também tremo um bocado, o que é fatal para quem fotografa. Fruto, em parte, do excesso de nicotina no sangue, noutra parte da eterna tensão muscular.

Mesmo assim cometo algumas (poucas) fotografias como as duas desta postagem.

Mas aí entra uma outra questão da minha incompatibilidade com a fotografia.

O que fotografar?

Já percorri este País de fio a pavio, já morei nas cinco regiões brasileiras, em 9 estados e em dezessete cidades.

Muitas vezes estive com a máquina de fotografia pendurada no pescoço, ou, mais recentemente, com o celular no bolso, mas mesmo assim minha memória fotográfica é paupérrima.

O que fotografar?

Nas andanças de hoje cedo para as bandas da cachoeira do Tororó, cá no DF, vi apenas duas coisas interessantes e que aqui estão expostas.

Vi ainda uma terceira, um pavão sobre um monte de gravetos. Mas isso é interessante mesmo? Deixei pra lá.

A primeira foto é um caminho (deixei a porteira de propósito -  quem sabe seja a porta do Portal do darma)?

Na segunda a “placa de propriedade”. Nas minhas primeiras andanças brasileiras nos anos 60 para os 70 o que mais me chamou a atenção foram as cercas de arame farpado e as “placas de propriedade”.

Este é um País cercado. Sitiado. Um país que tem donos - o que excluiu a maioria dos outros brasileiros.

O darma não se anuncia em “placas de propriedade”, mas as porteiras não barram a descoberta do satori.

Melhor ir caminhando. É Tao simplesmente.