terça-feira, 8 de abril de 2014

Valeska Popozuda é +



No geral das músicas da funkeira carioca Valeska Popozuda são de doer. Ela nem tanto. E nem tanto não pelo seu popozão, pelos seus pernões ou pelo seu rosto bonito.

Valesca dos Santos é vocalista do grupo feminino Gaiola das Popozudas e tem sido alvo de demandas pouco civilizadas por parte, principalmente, daquele grupo identificado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé como os “inteligentinhos”.

Mas ela é bem melhor do que se imagina, e muito, mais muito melhor que a maioria de seus críticos que mal sabem o que ela faz.

Valeska Popozuda tem se metido numa série de polêmicas e tem se saído bem de todas elas. Recentemente ela alvejou com seriedade, respeito e um acerto de mestra a hiperconservadora jornalista do SBT, Rachel Sheherazade, exatamente por conta de seu popozão e de suas músicas.

A mais nova pendenga em que está envolvida foi ser chamada por um professor de filosofia de Brasília de "grande pensadora contemporânea".

E mais uma vez a jovem funkeira se saiu bem, com a elegância e a educação de sempre:

"Talvez se ele tivesse colocado um trecho de qualquer música de MPB ou até mesmo de qualquer outro gênero musical que não fosse o funk, talvez não tivesse gerado tal problema".

A funkeira, que participou da campanha “eu não mereço ser estuprada” totalmente nua, segurando um taco de beisebol, tem se batido um bocado pelo direito das mulheres, tem criticado acidamente o machismo dos funkeiros, já pousou para a Playboy nua em cima de uma foto do ex-presidente Lula e até fez o "Funk do Lula".

O funk feminino do Rio de Janeiro (v. em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/04/aluna-passa-em-1-lugar-em-mestrado-com-projeto-sobre-valesca-popozuda.html) foi objeto de estudo da mestranda Mariana Gomes (segundo lugar na Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense) com o projeto “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural”.

O projeto busca descontruir a ideia “de que o funk seria o último grito do feminismo através das músicas de Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, entre outras”.

E mais: Valesca foi escolhida como patronesse de uma turma de calouros de Mariana.

Não é pouca coisa para um país cujo pensamento mediano é um dos mais retrógrados e conservadores do mundo.

Não bastasse tudo isso, ainda sustenta com galhardia o filhote Pablo e lança em breve um novo hit: “Tá Para Nascer Homem que Vai Mandar em Mim”.

Alguém pode com a fera?  

Valeska Popozuda é de mais.

DITADURA, MORTOS E DESAPARECIDOS: As pedras estão rolando



Aos poucos vai se conseguindo colocar índios e camponeses na lista dos mortos e desaparecidos da ditadura militar.

Os índios são as maiores vítimas dos 21 anos de descalabro ditatorial. Os camponeses vêm logo a seguir.

Dois bons relatos abaixo, com os seus links, um (o primeiro) sobre os índios e o segundo sobre Ísis Dias de Oliveira, da ALN.

É para se indignar mesmo.

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‘“A maior novidade da CNV será incluir os camponeses e índios entre as vítimas”, afirma Maria Rita Kehl



A jornalista, psicóloga e escritora Maria Rita Kehl. Ela atuou na imprensa alternativa durante a ditadura como editora do jornal Movimento, um dos principais meios de comunicação da resistência ao regime militar, e nos últimos anos realizou atendimentos psicanalíticos na Escola Nacional Florestan Fernandes.

Maria Rita Kehl ganhou notoriedade nacional durante as eleições presidenciais de 2010. Na época, ela escreveu no jornal Estadão um artigo em que ironizava as reclamações de moradores de Fortaleza que não conseguiam contratar um porteiro para seu prédio: “É curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo.” Ela foi demitida do jornal logo em seguida.

Desde 2012, Maria Rita Kehl participa da Comissão Nacional da Verdade, coordenando o Grupo de Trabalho de Graves Violações de Direitos Humanos no Campo ou Contra indígenas e também o GT Araguaia.

Entre os trabalhos da Comissão, palestras e atendimentos em seu consultório, Maria Rita concedeu uma entrevista à Página do MST, 07-04-2014, parte por telefone, parte por e-mail.

Eis a entrevista.

Quais são os principais resultados do Grupo de Trabalho sobre camponeses e indígenas até agora?

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi criada para investigar os crimes do Estado, no período não só da ditadura, mas entre dois fins de ditadura: 1946, que é o fim da ditadura de Getúlio, até 1988, que é a outra constituinte que terminou de vez com a nossa ditadura. De vez nunca terminou, mas aquela que encerrou formalmente a nossa ditadura. Eu não vou trazer nada que já não tenha sido pesquisado, porque eu estou me baseando em documentos. Ou seja, não sei se é resultado, mas tem uma primeira informação que eu acho importante estar no relatório da CNV. A maior novidade é que camponeses e índios sejam incluídos entre as vítimas. É novidade porque percebo o tanto que isso foi contestado. Quando a CNV começou, fiquei sabendo que muita gente de direita, inclusive muitos jornalistas, nos desqualificou muito, dizendo que camponês e índio “não têm a ver com isso”, “que vai ser uma mentirada”.

Qual motivo de ainda haver tanto desconhecimento sobre as violações aos índios e camponeses no período da ditadura?

Acho que é pelo isolamento. E também pelo fato de que eles não estavam necessariamente combatendo a ditadura. Eram, muitas vezes, vítimas acidentais do processo de desenvolvimento, principalmente no caso dos índios. Agora não é tão desconhecido assim, porque alguns antropólogos já nos anos 1970 divulgavam isso. Até porque não era um fato tão político, por isso não era tão censurado. A Cláudia Andujar, que fotografou os Yanomami, fez uma grande campanha em defesa deles. Isso chegava à sociedade, mas não se pensava nesses fatos como crimes políticos. A grande diferença da CNV é incluir o que aconteceu com os índios como violações de direitos humanos por parte do Estado.

Qual a diferença entre o caráter das violações aos direitos humanos dos indígenas e dos camponeses das outras violações ocorridas?

A diferença é que muitas organizações camponesas e praticamente todos os grupos indígenas estavam lutando em conflitos locais, na defesa de seu direito à terra, embora nem soubessem que existia uma ditadura no Brasil. Pense no isolamento, na falta de acesso à informação, no analfabetismo que caracterizavam a situação do pequeno posseiro há 50 anos. A biografia do Manoel da Conceição é bem ilustrativa desse ponto: os posseiros de Pindaré Mirim começam lutando para que o fazendeiro não soltasse o gado em cima das roças deles, que era um modo disfarçado de destruir lavouras e expulsar posseiros.

Eles apanham da polícia local, aos poucos se organizam, formam um sindicato, apanham novamente... Demoram a entender que os conflitos locais estão articulados com a aliança de classe que sustentou a ditadura militar. Os índios, como iam saber do que se passava? As piores violações foram contra povos indígenas que viviam isolados, no período das grandes obras dos governos Médici e Geisel na Amazônia. O Davi Kopenawa, líder dos Yanomami muito ativo na época da invasão de suas terras pela Perimetral Norte, deu um depoimento à CNV que começava assim: "eu não sabia que existia governo. [entendi isso quando] Foi chegando, invadindo nossas terras, matando nossos irmãos..."

O indígena não sabia nem que ele morava dentro de um país. Agora mudou, mas para um povo isolado, o país que ele vive é a nação indígena à qual ele pertence. Esses índios tomaram contato com o fato que de que existia um Brasil, um governo, da pior forma possível, que foi a violência contra eles. Eles não tomaram contato pelo fato de que estavam dentro de um país porque veio uma equipe de saúde, cuidar das doenças, da nutrição. Viram estradas sendo abertas, máquinas, aproximação não cuidadosa do homem branco, dizimando as tribos por epidemias e por violência. Houve confrontos armados, tortura, vários casos graves de violência intencional do Estado. Mas o que mais dizimou os índios foi o descaso do Estado, e nosso trabalho é investigar e denunciar as vítimas por ação ou omissão.

Alguns funcionários e ex-funcionários da FUNAI que entrevistamos disseram que a maior violência do Estado foi mandá-los fazer frentes de aproximação com os índios sem levar vacina, sem vacinar os próprios agentes, sem levar remédio para coisas banais como gripe e sarampo. Iam para dizer que havia um projeto, que iriam fazer uma hidrelétrica, que as mineradoras, todas estrangeiras multinacionais, queriam ter acesso às terras que tinham minerais com muita procura. Como os índios não têm defesa imunológica, eles morriam como moscas. Isso que parece acidente não é, porque desde o Xingu já se sabia que os índios eram contaminados e não tinham defesa para as doenças dos brancos. É um descaso ativo.

Por que a repressão aos camponeses foi tão violenta logo nos primeiros dias após o golpe? Tem relação com o clima favorável à Reforma Agrária dos últimos dias de João Goulart?

Creio que essa repressão imediata tem a ver com a atuação do Partido Comunista em apoio a vários movimentos camponeses. No período de 1946 a 1964, primeiro período das investigações da CNV, o PCB, então na legalidade, apoiou fortemente as guerrilhas de Porecatu e Pato Branco, no Paraná, a luta dos posseiros de Trombas e Formoso, em Goiás, e as Ligas Camponesas, que organizaram congressos com milhares de militantes no nordeste, em Minas. O medo era de uma revolução de modelo cubano no Brasil. Acho que esta é a melhor explicação, além do compromisso óbvio dos militares com o latifúndio.

Até que ponto a CNV pode chegar? Você concorda com as críticas daqueles que afirmam que a comissão seria inútil, pois não se poderá punir os crimes?

A CNV pode chegar só até a entrega do relatório, em seguida deixará de existir. Nossa pesquisa compreende o período entre 1946 e 1988. O único instrumento que temos para tocar em questões do presente é o capítulo das recomendações. Tenho certeza de que este será um capítulo muito debatido entre nós, porque temos posições divergentes sobre muitos assuntos - a começar pela recomendação sobre a revisão da Lei da Anistia. Não há consenso no grupo e não sei se chegaremos a ele. No que toca aos meus temas, sei que posso recomendar a homologação das terras indígenas já existentes, muitas delas ameaçadas por processos de reintegração de posse por parte de fazendeiros em suas regiões, como no Sul da Bahia, Mato Grosso do Sul, Oeste do Paraná.

Podemos também incluir uma enfática recomendação pela agilização dos processos de redistribuição de terras no Brasil, tendo em vista uma Reforma Agrária reparadora das injustiças históricas sofridas pelos camponeses. Não concordo que por não poder punir crimes a CNV seja inútil. Aliás, não costumo concordar com raciocínios do tipo “tudo ou nada”. A CNV não tem todo o poder que os brasileiros, sobretudo as vítimas e parentes de vítimas, gostaria que tivesse. Mas estou convencida de que a investigação dos crimes cometidos por agentes do Estado brasileiro durante o longo período de 42 anos que nos toca investigar, cujo resultado virá a público em nome do próprio Estado, é um enorme avanço democratizante para um país conservador como o Brasil.

Como você tem visto os debates em torno da revisão da Lei da Anistia? Há alguma possibilidade de se chegar à punição dos criminosos?

Sinceramente, não tenho esperança de que a sociedade brasileira deseje esta revisão. Basta ver a frequência com que os defensores da punição aos torturadores são chamados de "revanchistas", tanto pelos próprios militares, o que é compreensível, quanto por cidadãos que, embora desaprovem a tortura, os desaparecimentos de cadáveres e outros crimes hediondos cometidos no período, estão comprometidos de forma tão profunda e inconsciente com o "jeitinho brasileiro" de deixar para lá, que acabam por endossar o coro dos assassinos indignados.

Até agora, não vi ninguém contestar a fundo o uso que se faz do termo "revanchismo". Ora, o que é uma revanche? No esporte, é a oportunidade de um time derrotado virar o jogo e sair vitorioso em uma segunda rodada, não é isso? Por que a grande maioria democrática da sociedade brasileira se envergonharia de querer uma revanche sobre a minoria civil-militar que nos derrotou durante 21 anos? É incrível como as pessoas repetem bobagens ou raciocínios de má fé sem pensar no que dizem. Nunca vi, em nenhuma passeata, alguém levantar uma faixa "Pelo reconhecimento ao direito de revanche!"

Você recebeu o prêmio João Canuto de Direitos Humanos em 2013 junto com a família de Cícero Guedes, militante do MST assassinado em Campos dos Goytacazes. O acampamento que Cícero coordenava fica na Usina Cambahyba, apontada como palco de crimes da ditadura. A senhora vê ligação entre a violência no campo da época da ditadura e hoje?

Claro que sim. Existe uma continuidade direta, tanto no que se refere à violência contra índios e camponeses quanto à violência policial contra cidadãos negros e pobres nas cidades. Este é um dos efeitos mais nefastos da impunidade dos perpetradores de graves violações de Direitos Humanos. Você sabe que, em maio de 2006, a polícia paulista matou e fez desaparecer os corpos de jovens e adolescentes das periferias de São Paulo, Santos, Guarulhos, em número maior do que os militantes urbanos durante toda a ditadura?
Por que as polícias continuam militarizadas, quase 30 anos depois do fim da ditadura militar? Uma pesquisadora norte-americana concluiu que o Brasil é o único país, entre os que tiveram ditaduras na América Latina, em que a polícia mata mais na democracia do que no período da repressão.
Quanto ao campo, termino essa entrevista com uma observação feita pela minha colega de atendimentos psicanalíticos na ENFF, Noemi Araújo: quem diminuiu o padrão da "pistolagem" no campo não foi nenhum governo democrático, nenhum governador estadual pós 1985. Quem conseguiu diminuir o padrão dos assassinatos de camponeses foi o MST, ao organizar mais de 2 milhões de trabalhadores rurais no país em defesa de seu direito à terra. Gostaria de saber a opinião dos leitores sobre este assunto.
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Ditadura enganou mãe que procurava filha desaparecida, conta advogada


"Os agentes da repressão, segundo a advogada, aumentavam a dor dessas famílias com boatos e pistas falsas sobre os desaparecidos. No caso de Ísis, fizeram chegar aos ouvidos de dona Felícia que a filha havia sido vista em Londres. Ela conseguiu mobilizar recursos, embora a família quase não tivesse posses, e viajou para lá. Não encontrou nada", relata Roldão Arruda, jornalista, em artigo publicado no seu blog, O Estado de S. Paulo, 04-04-2014.

Eis o comentário.

Como é possível advogar num Estado autoritário, regido por leis de exceção? Uma das melhores e mais detalhadas respostas já produzidas para a pergunta está no livro Advocacia em Tempos Difíceis.

A obra acaba de ser lançada pela Fundação Getúlio Vargas, com apoio da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e sob a coordenação dos professores Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Paula Spieler. Reúne, em 911 páginas, entrevistas de 34 advogados que defenderam perseguidos políticos durante a ditadura (1964-1985).

Eles revelam as estratégias que adotaram para defender clientes acusados de subversão e terrorismo e também as ameaças que sofreram. Vários deles foram presos por sua defesa intransigente do princípio de que todos têm direito à defesa e à Justiça.

Vários de suas estratégias, que consistiam sobretudo em utilizar os próprios mecanismos legais do regime de exceção para ajudar a salvar vidas nos porões da ditadura, são utilizadas até hoje por advogados criminalistas. Eles faziam, segundo o texto de apresentação assinado pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, o que se pode chamar de “advocacia-arte”.

O relato daquele confronto brutal e desigual, porém, vai além do que estava explícito nos tribunais militares e relatos oficiais. Ao estimularem a memória dos advogados, oferecendo a eles a possibilidade de conduzirem seus depoimentos de acordo com o fluxo de suas lembranças, os entrevistadores também conseguiram montar um opulento painel dos bastidores daquelas disputas.

Estão retratados ali as histórias pessoais dos advogados; o dia a dia nos foros e auditorias militares; as relações com os juízes, delegados de polícia, guardas de presídio, burocratas do Judiciário; o drama de tratar com clientes que poderiam morrer sob tortura a qualquer momento; o jogo de influências políticas; as ligações com organizações internacionais de direitos humanos; a tragédia diária de conviver com famílias em busca de parentes desaparecidos.

Sobre essa última questão, destaca-se uma história contada pela advogada Eny Raimundo Moreira, muito ativa naquele período e, por isso mesmo, considerada inimiga do regime. Presa duas vezes, é autora de um dos relatos de maior sensibilidade do grosso volume.

Ela foi advogada da família de Ísis Dias de Oliveira, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) que vivia clandestinamente no Rio até ser capturada, no dia 30 de janeiro de 1972, por agentes do DOI-CODI do 1.º Exército, no Rio. Ela tinha 30 anos e nunca mais foi vista.

Ísis era a única filha mulher de seu Edmundo e dona Felícia, casal de classe média que vivia em São Paulo e tinha mais dois filhos homens. Assim que souberam da prisão, eles viajaram para o Rio, direto para o escritório de advocacia do doutor Sobral Pinto. Era um dos endereços mais conhecidos de perseguidos políticos na época, no qual Eny havia começado a trabalhar em 1966, como estagiária.

Designada para acompanhar o caso de Ísis, sua primeira providência foi despachar cinco pedidos de habeas corpus para várias partes do País. Aquele instrumento jurídico, presente nas constituições de todas as democracias, estava suspenso no Brasil, mas Eny e outros advogados que acudiam presos políticos, continuavam a utilizá-lo. Era uma forma de marcar posição: o documento servia para dizer às autoridades que os advogados e familiares sabiam que a pessoa havia sido presa.

Em sua entrevista, a advogada lembra que os pais de Ísis dedicaram o resto de suas vidas a procurar informações sobre o paradeiro dela. Seu Edmundo teve dois infartos seguidos no período. Dona Felícia largou tudo para se dedicar exclusivamente às buscas. Passava a semana no Rio, correndo atrás de qualquer fiapo de informação que obtinha, só retornando nos finais de semana à sua casa, em São Paulo. Escrevia seguidas cartas endereçadas a políticos e autoridades do regime, visitava todos os lugares onde sabia existirem presos políticos, além de hospitais e cemitérios. Foi a treze cemitérios do Estado do Rio verificar listas de pessoas enterradas.

Os agentes da repressão, segundo a advogada, aumentavam a dor dessas famílias com boatos e pistas falsas sobre os desaparecidos. No caso de Ísis, fizeram chegar aos ouvidos de dona Felícia que a filha havia sido vista em Londres. Ela conseguiu mobilizar recursos, embora a família quase não tivesse posses, e viajou para lá. Não encontrou nada.

Dona Felícia também foi procurada por uma pessoa que lhe prometeu, em troca de 5 mil dólares, dizer se Ísis ainda estava viva ou morta. Dessa vez, a advogada impediu que a mãe mobilizasse mais dinheiro, dizendo a ela: “Não entra nessa, isso é sórdido demais.”

Tanto o pai quanto a mãe morreram sem sequer obter a confirmação da morte da filha.

A advogada também conta que soube, desde o segundo pedido de habeas corpus, que a militante da ALN havia sido morta. Mas nunca disse nada à família.

“Não cabia a nós dizer. Não era nosso papel. Ô situação aflita”, disse aos entrevistadores da FGV.

Além do livro, a atuação dos advogados na ditadura está sendo lembrada agora pelo filme Os Advogados contra a Ditadura: Por uma questão de Justiça, dirigido por Silvio Tendler. Lançado na semana passada, o documentário também apresenta relatos daqueles profissionais que atuaram na defesa de presos políticos.