quinta-feira, 3 de abril de 2014

Afinal, quem merece ser estuprada?


Crédito da foto: www.bahiatodahora.com.br

Nos anos 70 namorei uma garota (garota na época, óbvio) paupérrima, funcionária de uma fábrica, que morava numa casa péssima, insalubre, na beira de um barranco e cheia de goteiras.

Era mãe solteira aos 19 anos; o pai da criança, um típico machão brasileiro, era casado, nunca assumiu a relação e nem reconheceu a filha.

Ela tinha três irmãs mais novas (na época menores de idade), bonitas como ela, pobres como ela e de educação (formal) precária como a dela.

Por coincidência um sujeito que trabalhava comigo – aqueles garotos tipo faz tudo: vai ao banco, compra comida, entrega jornais etc. e tal – namorava com uma das irmãs.

Me preocupava isso, chamei o camaradinha para uma conversa, e pedi que ele entendesse a situação da minha cunhadinha e sua namoradinha. Que fosse com cuidado.

A resposta foi de uma singeleza estonteante.

- Lá no morro tem disso não, Marcião. Se num dé a gente come mesmo assim.

É incrível que mais de 40 anos passados e reposta a democracia uma parte considerável da sociedade brasileira continue pensando exatamente dessa forma:

- Ou dá por bem, ou vai na marra.

Nessa discussão que se seguiu à campanha “Não mereço ser estuprada” o que mais me chamou a atenção foram os comentários de mulheres e, em grande parte, de garotos pobres, quase miseráveis, como o meu ex-colega de trabalho.

Diria que é assombroso tudo isso.

Não, não se apresse que não estou tirando da reta o fiofió da classe média e das pessoas mais abastadas.

Mas me assombra, e me assombra muito, que moradores das periferias (rurais e urbanas), gente que está claramente às margens do Capitalismo, e é por isso mesmo socialmente vulnerável e sujeita a todo tipo de desmandos e violências, continue pensando dessa forma.

Enfim, abaixo o texto “Eu não mereço ser estuprada”, do grupo Católicas Pelo Direito de Decidir publicado pela Rets.

[Corpo espancado com hematomas, dilacerações na vagina e no colo do útero, transtornos psíquicos irreversíveis, gravidez indesejada, contaminação por DST/Aids, morte. Essas são as consequências para uma menina ou mulher vítima de estupro.

O estupro é culturalmente aceito em todas as sociedades no mundo. Não importa a sexualidade, origem, cor, classe, casta, religião, profissão da vítima, basta ter nascido mulher que ela se tornará vulnerável à cultura do estupro, estando vestida de biquíni ou de burca. As lésbicas e bissexuais ainda sofrem com o estupro ‘corretivo’ por não se adequarem à heteronormatividade, na visão dos agressores.

De acordo com o mais recente Mapa da Violência contra as Mulheres, no Brasil, 13 mil mulheres vítimas de estupro foram atendidas na rede pública em 2011. São 35 por dia! Isso sem contar as que não procuram ajuda por medo ou vergonha e aquelas que morreram e não puderam pedir ajuda. A maior parte delas tem entre 10 e 14 anos e foi violentada na própria residência e, em segundo lugar, na rua.

Daí nos perguntamos: por que esse tipo de violência contra as mulheres acontece? Ora, por causa das próprias mulheres! Pelo menos é isso que acha 65,1% da sociedade brasileira. Os resultados da pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgados no dia 27 de março revelam que nossa população acredita que as mulheres provocam o estupro porque não sabem se comportar, se vestir, que tem mulher para casar e mulher para ‘ir pra cama’, que homossexuais não podem ter os mesmos direitos que heterossexuais, que o casamento deles deve ser proibido, que os casos de violência devem ser silenciados, e uma infinidade de absurdos.

Daí nos perguntamos: por que a sociedade brasileira pensa assim? Por diversos motivos, entre eles, porque parte dos gestores públicos ignora os direitos humanos violando a laicidade do Estado, não promove a educação sexual, de gênero e de combate à homofobia nas escolas adequadamente, não presta atendimento decente às mulheres nos equipamentos de saúde e segurança, diz que transporte público lotado é bom pra ‘xavecar’, não coleta nem sistematiza dados sobre assuntos relacionados, cria projetos que obrigam mulheres estupradas a manter a gravidez indesejada. Ah! Tem também os comunicadores que ignoram a competência das mulheres destacando somente sua ‘beleza’, tratam as mulheres como coisas consumíveis em comerciais de cerveja. Enfim, a lista é longa...

E assim se cria no nosso imaginário social o machismo, a banalização da violência contra as mulheres e a perpetuação da cultura do estupro no Brasil e no mundo. Nossa experiência e prática social é influenciada por tudo que nos cerca, por nossas relações intermediadas nos espaços privados e públicos. Enquanto gestores públicos, jornalistas e toda a sociedade não mudarem haverá Yakiris, Franciscas e outras muitas.

É aceitável que homens assediem, batam, ameacem, tapem a boca, rasguem a roupa de uma mulher, a estuprem e matem livremente? Não! Não é! É por isso que o movimento feminista, por vezes depreciado por essa sociedade patriarcal, machista, racista e homofóbica, há décadas vai às ruas para gritar para sociedade que o estupro e tantas outras violações dos direitos das mulheres não podem ser aceitos! Para dizer que as mulheres não são coisas, que devem ser respeitadas, ter seus direitos garantidos, que elas querem viver e andar livremente sem violência a qualquer hora do dia e onde quiserem, que elas são livres para vestir o que quiserem e se expressar como quiserem.

Católicas pelo Direito de Decidir apela para que líderes religiosos, atendendo aos princípios de respeito pela dignidade de todas as pessoas, revisem aquilo que, em suas doutrinas e práticas, contribui para a manutenção dessa cultura de violência e de morte das mulheres, e expressem publicamente o repúdio à ela.

#NãoMereçoSerEstuprada!]