quinta-feira, 27 de março de 2014

Pra não dizer que não falei de Geraldo Vandré





Geraldo Vandré foi resgatado das cinzas pela cantora folk norte-americana Joan Baez, ex-companheira de Bob Dylan, que hoje tem cara de tia, depois de ter sido uma índia sioux. Era o look que parte da contracultura dos EUA assumiu nos anos 60 para bater de frente com o self-made men.

Tenho visto muita gente se embebedando com a “volta” de Vandré, numa mistureba ridícula de provincianismo ("ele é nordestino, gente"... como se isso fosse algum tipo de grife, de salvo-conduto existencial e cultural) e de esquerdismo de orelha de livro.

Não dá para negar que Vandré escreveu coisas interessantes, mas “Pra não dizer que não falei das flores”, o hino, é de lascar. Ninguém merece um negócio daquele. Sob qualquer ângulo que se olhe – melódico e poético – trata-se de uma coisa tenebrosa, uma música ruim de dar pena.

Tenho um amigo, Paulo Sergio, mineiro das sertãs de Guimarães Rosa, que rompeu com seus amigos belorizontinos por conta dessa trolha. Ele não aguentava mais tomar cerveja ouvindo “caminhando e cantando/e seguindo a canção”.

Eu propus que não parasse de tomar cerveja, mas que comprasse um revólver, fosse a uma academia, aprendesse a atirar e assassinasse seus amigos na “mesa de um bar”.

É fake

Quando voltou do exílio – estivesse onde estivesse... há controvérsias – Vandré apareceu em rede de TV para desdizer tudo o que disse antes.

Muita gente tomou aquilo como uma armação da ditadura militar. É provável. Resta saber quantos autores participaram da construção da peça televisiva.

Foi uma peça ruim, com um ator pior ainda.

Tudo era falso naquilo, inclusive a encenação vandreniana. 

A transmissão foi uma catástrofe. Assisti aquele negócio, não poderia perder uma coisa daquelas. Nem a posse do Lula eu perdi, o que dirá aquilo!

Era ainda no tempo da TV P&B e foi tão ruim quanto a transmissão da primeira descida na lua. Ninguém via nada, a não ser uns borrões. Quem fosse impressionável pensaria que a lua fosse habitada por fantasmas, tal a quantidade de manchas que se moviam na tela da sua TV.

A transmissão do depoimento de Vandré não foi muito diferente.

“São São Paulo”

Quem se meter a pesquisar a vida de Geraldo Vandré na internet vai encontrar um mosaico inacreditável de informação desconectada uma da outra, sem lé, nem cré, sem pé e nem cabeça – e tem muita gente fazendo isso e postando como verdade absoluta nas redes sociais - como se a vida de um homem fosse uma imensa colcha de retalhos cujos quadradinhos não guardam qualquer relação entre si: Vandré paraibano, Vandré estudando direito no Rio, Vandré participando dos festivais, Vandré se exiliando, Vandré voltando e virando fake, Vandré compondo hinos para as Forças Armadas, Vandré no ostracismo, Vandré no centro de São Paulo.

Huuuuummmm...

São Paulo é um ótimo lugar para você se perder, tornar-se invisível. Onde mais Vandré poderia depositar os seus ossinhos?

Em João Pessoa com um bando de gente batendo na sua porta pedindo dinheiro emprestado?

No Rio que tem dois os três pontos onde todo mundo se encontra quase todo dia?

Vandré optou pelo “óbvio ululante” e vive há mais de 40 anos em SP, onde foi funcionário público da prefeitura paulistana e namorado da sub-sub-secretária do João Saad, o criador da TV Bandeirantes, hoje Rede Bandeirantes, Band TV.

Vandré deixava seu empreguinho no centro de SP – ele morava ou mora ainda na rua Rego Freitas, onde fica o Sindicato dos Jornalistas dos Estado de São Paulo, nas cercanias da Boca do Lixo, próximo à Cracolândia – ia até o Morumbi, onde trabalhava a namorada, e de lá para o Embu, hoje Embu das Artes.

Era o mesmo rame-rame diário pós-exílio.

Entrava mudo no mesmo restaurante e saia calado. Quem pilotava tudo era a namoradinha, meio que taciturna como ele.

Ostracismo

Vandré se meteu onde quis se meter: no ostracismo. Vez ou outra ele ressurge – assim como o Cabo Bruno – para dizer que o mercado não comporta mais as suas canções, as suas falas e a sua poética.

Não comporta mesmo: Vandré fala de um Brasil que não existe mais, canta coisas que não são mais palatáveis e palpáveis. É ele quem teima em viver num outro tempo.

Vandré não é Bob Dylan. Chico não é Tom Waits e Diana Pequeno não foi (não é?) Joan Baez.

Vandré é do tempo de uma arte (ele fez música, cinema e teatro) valorosa, mas que hoje, se recuperada, nada mais será que rancorosa.

Assim como Vandré quem também foi para o ostracismo foi Belchior, que já há muito tempo não tem mais nada a dizer para ninguém, assim como não tem Vandré. E a culpa não é do mercado. Eles puxaram o freio de mão do tempo... apenas isso.

Talvez Vandré pudesse se voluntariar e depor na Comissão da Verdade. Seria uma grande contribuição, embora eu ache que ele não tem tanta coisa assim relevante para falar. O que tinha já foi dito nos seus textos, no seu cancioneiro.

Mas depondo, pelo menos poderia morrer em paz.

Vaya com Dios.”