sábado, 8 de março de 2014

A insanidade das críticas aos programas sociais


Crédito da foto: www.arq.ufsc.br

Em 1984 fui morar no município do Envira, no interior do Estado do Amazonas, onde deveria ter ficado por cerca de 4 anos, que acabaram se reduzindo a 10 meses.

Saí rumo a Manaus pressionado pelas condições sanitárias (afinal, tinha duas filhas pequenas nascidas em SP, e mais uma a caminho, que nasceu em Eirunepé, outro município da região) e pelos constantes desentendimentos com o prefeito local, que, digamos assim, não tinha exatamente uma administração transparente e republicana.

Saí mas não sem antes participar de algumas ações relevantes como a criação de uma biblioteca, de duas cooperativas de produção (pescado e arroz) e da ida de um médico, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Sem que eu tenha a exata certeza dos números - o médico recebia por mês 2 mil reais (a moeda da época era outra) do município, mais 2 mil do Estado e outros 2 mil da União; além de casa, e água mais energia de graça.

Naquela região gastar dinheiro é coisa das mais difíceis até porque não se tem onde. A menos que se queira jogar dinheiro pela janela, o que não é o caso.

O médico ficou por um ano apenas e foi embora, provavelmente, pelo menos em parte, pelas mesmas razões que eu – mas com um bom dinheirinho no bolso.

20 anos depois soube que um segundo médico aceitou o desafio de trabalhar no Envira, mais ou menos nas mesmas condições do primeiro. Ficou menos de um ano.

Mais Médicos

Essas histórias envirenses talvez deem bons subsídios aos adversários do Programa Mais Médicos.

Dão, desde que relevados alguns de seus contrastes.

Logística – apesar do apoio monetário do Estado e da União, a busca por médicos era feita pelas próprias prefeituras, e não incluíam o aparelhamento dos postos de saúde e hospitais, e a compra de medicamentos.

Estratégia – o Programa Mais Médico prevê a ida de mais de um médico para cada localidade (dependendo do tamanho), a melhoria de postos e hospitais, e a compra de medicamentos.

Ser, a priori, como muita gente é, contra o Programa federal é antes de tudo uma prova cabal de ignorância, de quem nem conhece o programa, e muito menos a realidade brasileira, especialmente nos seus rincões.

O programa similar adotado na Venezuela, por Hugo Chaves, não apenas é maior que o brasileiro, como abrangeu, por consequência, um maior número de pessoas.

O melhor testemunho sobre o programa venezuelano veio exatamente dos beneficiários, que contaram a pesquisadores e observadores internacionais, entre eles jornalistas, que pela primeira vez na vida puderam, enfim, conhecer um médico.

Foi isso que aconteceu no Envira nos anos 80, e está acontecendo agora em boa parte do Brasil.

Ciência sem Fronteiras

Partiu do jornal O Estado de São Paulo, e está se espalhando rapidamente pela mídia conservadora, ácidas críticas ao Programa Ciência sem Fronteiras, lançado pela presidente Dilma Rousseff.

A crítica generalista ao programa parte de um único caso: do beneficiário que esperava “estudar no exterior” a partir de dezembro passado mas ainda não conseguiu viajar “por problemas no edital”.

Para quem não conhece o Programa vamos repetir abaixo o que está expresso nos seus objetivos:

Ciência sem Fronteiras é um programa que busca promover a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional. A iniciativa é fruto de esforço conjunto dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC), por meio de suas respectivas instituições de fomento – CNPq e Capes –, e Secretarias de Ensino Superior e de Ensino Tecnológico do MEC.
O projeto prevê a utilização de até 101 mil bolsas em quatro anos para promover intercâmbio, de forma que alunos de graduação e pós-graduação façam estágio no exterior com a finalidade de manter contato com sistemas educacionais competitivos em relação à tecnologia e inovação. Além disso, busca atrair pesquisadores do exterior que queiram se fixar no Brasil ou estabelecer parcerias com os pesquisadores brasileiros nas áreas prioritárias definidas no Programa, bem como criar oportunidade para que pesquisadores de empresas recebam treinamento especializado no exterior.

O que o Estadão fez foi cometer uma metonímia (uma figura de linguagem, onde se pega a parte pelo todo que “tem como base a contiguidade - e não a similaridade)”, quando se faz “uma analogia por sentidos próximos, relativos”.

Enfim, uma maldade politiqueira que afeta a vida das pessoas, como também ocorre com as críticas ao Mais Médicos.

Meu pirão

Não apenas entidades classistas, partidos políticos adversários do PT e conservadores raivosos criticam esses dois e qualquer outro programa social do governo federal.

Enfileirados com eles estão milhares, quiçá milhões de brasileiros, que não se vexam, no entanto, de usufruir das bolsas de estudos federais, dos juros baixos para comprar suas casas, seus automóveis, seus aparelhos eletrônicos; e de viajar de avião com passagens subsidiadas com dinheiro público.

Farinha pouca, /
Meu pirão primeiro. /
Este é um velho ditado, /
Do tempo do cativeiro.
” (Bezerra da Silva)

A marcha dos malucos de pedra com a família, deus e a propriedade



Deus no título vai em caixa baixa mesmo pois certamente o deus desses caras não é o mesmo de quem crê.

Continuo não me preocupando com esse bando de doido que fala em perigo comunista e outras asneiras do gênero.

São irrelevantes, descontentes crônicos, racistas, preconceituosos e muito mal informados.

Mas existe um lado positivo nessa história: são divertidos na sua patetice. Veja:



Depois siga os links que tem mais.

Neste 8 de marçoDia Internacional da Mulher – é interessante recordar o papel que as madamas paulistanas (e paulistas, em geral) desempenharam na Marcha original: a de sinhazinhas que olham os escravos da sacada da casa grande.

Na época, os seus garbosos maridos lhes permitiam uma única performance pública: a subalternidade ao macho.

Ou alguém acredita mesmo que entre chás, biscoitos e talheres foram elas quem bolaram a Grande Marcha contra o Perigo Comunista?

É duro dizer isso “depois de tanto caminhar”? Ir ao dentista também é desagradável e muitas vezes apavorante... fazer o quê?

Senhores garbosos, de ternos, coletes e bigodes insuflaram as suas senhoras a irem para as ruas bater panelas contra as reformas de base do governo Jango.

Senhores garbosos e suas senhoras que haviam, anos antes, votado maciçamente em Jânio Quadros (“Varre, varre, varre, varre vassourinha! / Varre, varre a bandalheira! / Que o povo já 'tá cansado / De sofrer dessa maneira”) de quem Jango era vice.

Comunistas

Creio, no entanto, que as atuais senhoras e seus maridos garbosos sejam comunistas. Mais propriamente comunistas-revisionistas; pois se Karl Marx disse que "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”; pode-se dizer a eleição de Collor de Mello (que foi aquinhoado com o voto maciço dos senhores garbosos e suas senhoras) foi a tragédia, mas a reedição da Marcha não se configura como farsa (como prognosticam alguns esquerdistas masculinos e femininos), mas sim como uma grande pantomima hilariante.

Resta saber quem são os senhores garbosos de hoje: são caserneiros que não conseguem se livrar de seus coturnos e senhores garbosos de classe média que acreditam mesmo que venceram na vida graças ao suor e ao trabalho.

Antes que se inicie a Copa do Mundo, o Brasil vai ganhar um título internacional: o de maior número de patetas ridículos por metro quadrado.