quinta-feira, 6 de março de 2014

Mesmo nas trevas é possível um pouco de luz


Crédito da foto: www.fabiocampana.com.br

Não, não se preocupem que não é poesia. É o de sempre: discurso, fala, política comportamento.

O fim da União Soviética 1991 gerou o último grande paradoxo do século 20: acabava a Guerra Fria e a luta de classes. Simples assim: numa tacada só.

Ocorre que a Guerra Fria não terminou. Apenas mudou parte de seu cenário, o que acabou por desembocar nos atentados (guerra quente) de 11 de setembro de 2001, e nas invasões do Afeganistão e do Iraque.

Ou seja, a guerra fria/quente que envolvia  o Leste e o Oeste do mundo desenvolvido passou para uma guerra fria/quente entre o Norte (mais rico) e o Sul (pobre).

A teoria do fim da luta de classes (formulada pelo nipo-americano Francis Fukuyama) era uma bobagem tão grande que o próprio assessor de Ronald Reagan e guru do neoconservadorismo (neocon) a renegou anos depois.

O desmoronamento das teses do fim da guerra fria e da luta de classes não impediu um certo encantamento que assolou países e classes sociais (de 1990 a 2010, mais ou menos) e que até hoje causa estragos no mundo.

Para nós latino-americanos o caso mais visível e dramático é o da Venezuela.

Antes da onda neoliberal, a Venezuela tinha menos de 500 mil alunos em escolas de terceiro grau (universidades) particulares. Hoje eles somam coisa de 3 milhões.

Assim como no Brasil e em todos os outros países periféricos ao capitalismo, a educação deixou de ser humanista para se transformar num agente de formação de mão de obra.

Pesquisa recentemente feita na Venezuela mostra que 9 a cada 10 alunos universitários venezuelanos de escolas privadas querem deixar o País após formados e mudar para Miami, aonde vão “ganhar mais e viver melhor”.

A chilena  Michelle Bachelet, em sua primeira passagem pela presidência (2006/2010), enfrentou, assim como Chaves e Maduro, os mesmos protestos estudantis, que muitas vezes chegaram a reunir 800 mil pessoas só em Santiago (embora menos violentos que os venezuelanos).

Os três, Bachelet, Chaves e Maduro, queriam retornar o País a uma educação mais humanista e menos formadora de mão de obra.

Lula e Dilma nem tentaram isso aqui no Brasil.

Coleções primavera/verão/outono/inverno

Os occupy (EUA) e a Primavera Árabe (no norte da África e na Península Arábica) se inserem no mesmo contexto de solidificação e de ratificação do neoliberalismo (tardio). Creio (sem modéstia alguma) que foi este afalaire um dos primeiro a ver “as revoltas juvenis” por esta ótica.

E aí é que a coisa começa a se complicar e a porca a torcer o rabo.

Não podemos nos esquecer de que vivemos (no Ocidente, de maneira massiva, e em todo mundo em geral - e se alastrando) um hedonismo levado às últimas consequências, sem as amarras tradicionais da família e da religião (descrença geral = niilismo).

E o que vem a ser o hedonismo?

Hedonismo é  uma doutrina moral em que a busca pelo prazer é o único propósito da vida. Hedonismo vem do grego hedonikos /prazeroso, e surgiu, enquanto filosofia, na Grécia antiga com Epicuro e Aristipo de Cirene.

Com a sua ótima memória você deve estar se lembrando da famosa frase  o dinheiro não traz felicidade, manda buscá-la”.

É isso que os “protestante de rua” atuais estão querendo – aqui ou em qualquer parte do mundo – e não mudar o regime ou o sistema, apenas adaptá-los a suas necessidades e seus anseios hedonistas.

Inserido no sistema, o “protestante de rua”  esquece-se rapidinho de suas bandeiras, até porque ele não tem nenhuma, a não ser ele mesmo.

E os black blocs?

O surgimento dos black blocs é perfeito nesse cenário hedonista/utilitarista/niilista. Eles nada mais são que a expressão mais aguda deste momento histórico, e não por acaso aparecem em todos os cenários de protestos (da Grécia atual aos EUA, do Brasil à Criméia; da Austrália à Argélia).

A discussão sobre a suposta covardia por andarem mascarados (em contraposição à cara limpa dos movimentos sociais dos anos 60) é uma estupidez atroz, como se os cenários de protestos “daquela época” fossem os mesmos dos de agora.

Me poupem dessa burrice exacerbada.

Os black blocs não são mais que fragmentos (a priori) de movimentos anarquistas atuais, mas que têm tanta conexão com o anarquismo histórico quanto eu tenho de jóquei de cavalo de corrida.

Se o anarquismo histórico sempre esteve à esquerda do marxismo-leninismo, o anarquismo atual (e os black blocs no meio) flertam escandalosamente com teses conservadoras, vide o caso explícito do grupo anonymous.

Simples assim.