quarta-feira, 5 de março de 2014

Historinhas sujas de uma guerra suja




Crédito da foto: cinema.uol.com.br

Numa viagem de Luanda (Angola) ao Rio de Janeiro tive a companhia, à minha direta, de um frade beneditino, e à esquerda de um funcionário da ONU.

O frade – já citei essa historinha neste afalaire em outra oportunidade – fora metralhado por soldados da Unita, de Jonas Savimbi; e depois de se recuperar dos ferimentos estava voltando ao Brasil para morar em um mosteiro da sua ordem, que fica no Largo de São Bento, no centro de São Paulo.

Era um homem pequeno, frágil, que dormiu boa parte da viagem, e cujo único desejo que expressou foi o de tomar um uísque.

Tive de pedir a dose, pois ele mal podia falar. Aproveitei e pedi um uísque duplo com pouco gelo, pois ele – assim me pareceu - bem que estava a precisar.

O funcionário da ONU, e responsável pelo escritório da Organização em Angola, era um paulista de Presidente qualquer coisa (não me lembro mais se de Venceslau ou de Prudente), que estava indignado, pois descobrira na semana anterior que soldados das tropas de Savimbi e do governo (liderado pelo MPLA - EMEPELÁ) não lutavam durante finais de semanas e feriados.

Muito pelo contrário: trocavam comida e armamentos; dançavam e disputavam acirradas partidas de futebol.

Achei estranha essa posição do funcionário de ONU e lembrei a ele que isso é bastante comum em guerras (internas) e revoluções, onde irmãos lutam contra irmãos, tios contra sobrinhos e até pais contra filhos.

Nada mais justo, portanto, que uma pausazinha de vez em quando para confraternizações familiares e sociais.

Multi-Irracionalidade

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Joaquim Barbosa para o STF a escolha (sob o olhar complacente e atônito da direita conservadora) foi saudada como uma extensão da política multirracial do governo petista, pois, afinal de contas, pela primeira vez na história do Brasil um negro chegava à “mais alta corte da magistratura” do País.

Não foi o primeiro: foi o quarto.

O menino pobre de Paracatu, no interior mineiro, expressava melhor do que ninguém que as barreiras raciais começavam a ser desfeitas nesta grande Pindorama.

Até o início do julgamento da AP 470 (o “Mensalão do PT”) do qual Joaquim Barbosa foi relator.

De herói da resistência negra a ícone da integração sócio racial petista, Joaquim Barbosa se transformou em vilão, traíra, safado e outras mimozisses do gênero.

Não foram poucos os esquerdistas-petistas que pediram revisão da prática de como se indicam os integrantes do Supremo.

Grosso modo é o seguinte: o “candidato” faz um lobby danado pelo seu nome, o presidente escolhe entre muitos lobistas o nome daquele que mais lhe convém, o nome é submetido à sabatina no Congresso Nacional, e, via de regra, aprovado.

Com julgamento da AP 470, Joaquim Barbosa passou – no imaginário dos conservadores de direita – ao “cargo” de “santo guerreiro” a lutar contra “o dragão da maldade” petista.

Não importava que ele tivesse sido indicado pelo Sapo Barbudo; importava que ele era um homem íntegro (apesar de ter votado em Lula da Silva e Dilma Rousseff), que estava passando “o Brasil a limpo” e colocando os malvados do “Petê” na cadeia.

Então, que tudo ficasse como “dantes no quartel de Abrantes”...

A guinada, semana passada, no julgamento do Mensalão do PT, que inocentou os malvados petistas da formação de quadrilha, provocou uma revolução com direito a troca de sinais.

Agora quem quer que a prática da indicação de membros do Supremo fique como está são os esquerdistas-petistas, e quem quer uma revisão radical no modelo são os conversadores de direita.

Ou seja, não avançamos para lugar algum. Apenas ora apoiamos o nosso peso na perna direita, ora na perna esquerda.

Até que um dia a nossa bacia nos leve a um ortopedista.

A antevisão de um golpe de estado no Brasil




Muito elucidativa a coluna de hoje, na Folha de São Paulo, do jornalista Elio Gaspari: “Um guia para 1964: doutor Alceu”.

Leitura obrigatória, assim como a obra de Alceu Amoroso Lima / Tristão de Ataíde, crítico literário, professor, pensador católico e escritor.

O Dr. Alceu foi representante brasileiro no Concílio Vaticano 2º e um dos fundadores do Movimento Democrata-Cristão no Brasil.

Resistente de primeira hora ao Golpe Militar de 1964.

Leitura obrigatória também são os quatro livros de Gaspari: A Ditadura Envergonhada; A Ditadura Escancarada; A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada.

E antes de irmos ao texto de Gaspari, uma passadinha pela entrevista de Alceu Valença (Alceu Valença denuncia novo jabá e critica multiculturalismo forçado) à mesma Folha de São Paulo de hoje, com destaque para duas de suas falas:

"Veja a situação a que chegaram os programas de televisão, nada contra nada, tudo pode existir, há uma glamourização do lixo cultural".
"Quanto mais burro, melhor para o sistema".

[As cartas do pensador católico são um roteiro para a volta à noite da ditadura que começou há 50 anos.

Começam nesta semana as reminiscências em torno da deposição do presidente João Goulart, quando o país entrou numa ditadura em nome da democracia. Ela começou no Dia da Mentira e só acabou 21 anos depois. Estranha efeméride, passaram-se 50 anos e ainda divide opiniões. Em 1949 ninguém discutia o golpe militar que destronou o imperador. Em 1980 ninguém discutia a deposição do presidente Washington Luís. Essa peculiaridade de 1964 fala mais do presente do que do passado.

Há um tesouro à disposição de quem queira conhecer o Brasil daqueles dias. É o livro "Cartas do pai - De Alceu Amoroso Lima para sua filha madre Maria Teresa". Durante 18 anos o pensador católico escreveu milhares de cartas à filha, monja enclausurada num mosteiro beneditino. Em 2003, o Instituto Moreira Salles publicou um magnífico volume de 672 páginas com uma seleta das cartas de 1958 a 1968. É difícil de achar e clama aos céus por uma versão eletrônica.

As cartas do "doutor Alceu" são um painel do amor e fé. Entre 1963 e abril de 1964 ele mandou 118 cartas à filha, expondo a alma de um liberal perplexo diante da radicalização política. Alguns exemplos:

11 de julho de 1963: "Este, o ambiente sombrio em que estamos, com o [Carlos] Lacerda [governador do Estado da Guanabara] provocando agitação e insuflando o golpismo legal (deposição do Jango pelo Congresso) e com isso estimulando o golpismo extralegal (militares e esquerda negativa).

18 de setembro: "Se tudo não acabar em ditadura militar, só mesmo porque Deus não quis."

26 de setembro: "A amarga' máxima é que a tensão política chega hoje ao auge, no choque entre militares e líderes sindicais, entre os quais o Jango parece que optou (definiu-se, como vivem querendo que o faça, tanto os esquerdistas como os direitistas) e o resultado é que podemos, amanhã ou hoje mesmo, ter um golpe à vista e no duro: ou dos generais ou dos sargentos."

27 de março: "De repente, bumba! Marinheiros (uns 3.000, dizem) reunidos em um sindicato de metalúrgicos, demissão do ministro da Marinha e do comandante dos Fuzileiros Navais (que dizem ser os homens do Brizola)."

31 de março: Estou sentindo o cheiro de... pólvora e a semelhança com 1937, quando o Getúlio, mestre do Jango, deu o golpe do Estado Novo.(...) O mais grave é que, no momento, introduziu uma cunha entre oficialidade e tropa (soldados ou marinheiros) e isso pode realmente redundar numa revolução de tipo comunista. (...) O momento é de perfeita perplexidade e de vigília de golpe. Mas de onde virá o golpe é que são elas.

1º de abril: "Desgraçadamente rompeu-se de novo a continuidade civil do nosso governo e a solução foi transferida para a área militar. (...) O San Tiago [San Tiago Dantas, ex-ministro das Relações Exteriores] que está muito bem informado, e esteve no Palácio das Laranjeiras com o Jango até de madrugada, me diz que as forças que estão com o governo legal parece que são fortes. (...) Mas o próprio San Tiago confessa que há muitas probabilidades de triunfo do golpe. E será então um triunfo direitista que atrasará por vinte anos o progresso do Brasil'."

Alceu Amoroso Lima morreu em 1983, sem ter visto o fim de uma ditadura que combateu desde seus primeiros dias.]