sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Que buda nos ilumine pois as trevas são densas



Você sabe o que é satori?

Satori é uma palavra de origem chinesa, usada pelo budismo japonês, e quer dizer iluminação.

Aportuguesada, satori é uma palavra oxítona (portanto com a última sílaba – ri – sendo a tônica).

Segundo os budistas é a primeira percepção que o sujeito tem da natureza búdica. É quando ele acorda para a realidade da sua existência.

Entre os muitos koans que eu acabei por recolher – muitos deles foram postados neste afalaire – há um em especial que acho bastante sugestivo.

Em resumo é o seguinte: um sujeito que era malvado, foi condenado à morte. Enquanto esperava pela execução passou a refletir sobre sua vida desregrada, até que se lembrou de ter poupado, quando criança, uma aranha que lhe atravessava o caminho (normalmente ele a esmagaria sem dó, nem piedade). Essa lembrança lhe permitiu entender a natureza búdica.

Antes de seguir é bom explicar rapidamente o que é um koan: são pequenas histórias budistas, aparentemente sem nexo (para nossa compreensão ocidental, cartesiana) e que encerram uma lição de moral.

Na nossa tradição luso-portuguesa temos um similar ao satori budista: o “Estalo de Vieira”.

O jesuíta português pe. Antônio Vieira, que viveu por aqui por anos, e acabou por se transformar num dos maiores oradores da língua portuguesa, se considerava um “obtuso”, gente de poucas luzes, até que certo dia sentiu um forte estalo na cabeça, e dali em diante passou a ter “clareza de entendimento, agudeza de engenho e sagacidade de memória”.

O que o religioso quis dizer com isso é que de repente ficou inteligente.

Obviamente que nenhuma aranha e nenhum “estalo na cabeça” por si só transformam qualquer pessoa em um ser inteligente.

Trata-se de um processo acumulativo de conhecimento que num dado momento se combina  e traz a “iluminação”  ou a clarividência.

Numa era como atual, de pouca reflexão e de informação fragmentada e desconexa, é pouco provável que venhamos a conhecer novos casos de satori e de estalos de Vieira.

Pelo contrário: vamos ver crescer mais e mais casos de intolerância, com gente sendo amarrada em postes, pais jogando filhos pela janela, cônjuges retalhando companheiros, jovens jogando senhoras em trilhos de metrôs.

Que buda nos ilumine pois as trevas atuais são densas.

O MST e uma imagem chocante



Entre memes, imagens manipuladas em photoshop e outras distorções o que mais me chamou a atenção e causou perplexidade, nestes últimos dias, foi esta foto acima que ilustra este texto.

Não sei de quem é a imagem. Eu a retirei da postagem de um sujeito que odeia o PT, a Dilma, os sem-terra e os movimentos sociais em geral.

NÃO! A imagem não foi manipulada. Não foi editada. Não passou por photoshop ou qualquer outro tipo de manipulação.

É uma foto real de um momento: um grupo de sem-terra com a bandeira do PT dando apoio à presidente Dilma Rousseff.

Então qual é o problema da foto?

O uso indecoroso e desonesto que se faz dela nesse caso.

É uma espécie de prova de que esses “baderneiros” (sic) do MST apoiam a “guerrilheira” (sic) Dilma Rousseff que “está acabando com o País” (sic).

Trata-se de uma prova contundente da falência moral na qual imergiu parte considerável da sociedade brasileira. E exatamente a parte da sociedade que arrota moralismos, obviamente desde que com relação ao comportamento alheio (gente da qual, geralmente, não gosta).

Mas é mais do que isso.

É uma prova contundente de que a imprensa engajada em destruir o MST (e os movimento sociais em geral) começa a vencer a batalha da (des)informação.

Poder

Guardadas as proporções de tamanho (população + território) e de poder financeiro, a Rede Globo é considerada (por estudiosos da mídia) como a rede de TV mais poderosa do mundo.

E faz jus, pois em um País – independente da classe social das pessoas – de 200 milhões de habitantes ela tem índices de audiências superiores a 50 pontos percentuais.

Abaixo disso, a Globo estima sempre em liquidar com o programa, seja ele qual for.

Em termos objetivos, muito mais que a metade da população brasileira se informa e se entretém assistindo à programação da Rede Globo.

E a gente já sabe como a Rede Globo se refere ao MST    e aos movimento sociais em geral.

O seu discurso unilateral não apenas é absorvido pela (enorme) audiência, como ainda reverbera nos outros meios de comunicação (jornais, revistas, rádios, outras TVs, sites, blogs, redes sociais e etc.).

Ou seja, o Brasil médio (na média da sua população, independente da classe social) se pauta pelo que diz e divulga a Rede Globo de Televisão.

Não há espaço para o contraditório.

As defecções , quando ocorrem, são tidas como desvios de conduta, como esquerdismo atemporal, como manifestações de inveja e de ressentimento, quando não de apoio explícito às “bandidagens” (sic)  praticadas pelo Partido dos Trabalhadores e pelas ONGs (seja lá o que isso queira dizer).

Mas não por acaso, parte das manifestações de rua têm como alvo os profissionais da Rede Globo (e de outros veículos), mas de pronto, na tela da TV, esses manifestantes também são criminalizados (“vândalos!”), criminalização que se espalha rapidamente por outros meios de comunicação e pela opinião pública que a aceita (a criminalização) sem ao menos se dar ao trabalho de refletir sobre o porquê parte das manifestações são dirigidas contra os meios de comunicação (mais especificamente contra a Rede Globo).

Mas talvez, pensando melhor, a opinião pública brasileira já não tenha mais a capacidade para refletir e para pensar por si só, a partir de seu próprio conhecimento e de sua experiência.

E isso é bastante preocupante.