quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O julgamento do Mensalão e o brasileiro cordial



Se o julgamento do Mensalão do PT (que voltou com a carga toda) teve um mérito foi o de abrir a cortina dessa farsa secular de que o brasileiro é cordial.

Nunca se viu tanto impropério, tanto diz-que-diz, tanta besteira, tanta mentira, tanta desinformação como no auge do julgamento.

É subproduto também do julgamento as manifestações de junho de 2013.

Dez a cada dez coxinhas se sentiram livres, leves e soltos para liberar suas taras, suas iras, suas ignominias, seus preconceitos pelas ruas.

Ainda bem que apareceram os black blocs para espantar essa gente dos espaços públicos.

Vou tornar a repetir aqui o que já disse em outras oportunidades: houve crime sim, pois o Partido dos Trabalhadores não é agente financeiro, não é banco.

Isso posto o partido não poderia emprestar dinheiro ou pagar a conta de ninguém (muito menos de outros partidos) sob qualquer desculpa.

Mas daí a se chegar ao domínio do fato, à formação de quadrilha, ao uso de dinheiro público e às penas e multas pesadíssimas (nem na Ditadura!) já foi uma viagem de profunda irresponsabilidade e subserviência.

Há semanas Joaquim Barbosa, o atual presidente do STF e relator da AP 470 (Mensalão), teria confessado estar cansado e que poderia deixar o Supremo.

É sempre bom manter a coisa no condicional, pois a fonte de informação é a imprensa, e nós confiamos tanto na lisura da imprensa quanto na salubridade da água do rio Tietê.

JB sabia o que lhe esperava este ano no Supremo.

Soube certo.

Reencarnado como um neo-Jânio, um neo-Collor – os moralistas da moralidade alheia -, pela imprensa e pela classe média (enfim, pelos coxinhas) e guindado – sem conhecimento do Vaticano – ao posto de santo, JB – que de burro não tem nada – percebeu que se meteu num enrosco sem tamanho.

Mas como homem que é homem (inclusive os que batem em mulher, não é seo Joaquim?) não chora, resmunga, JB cai, mas cai atirando, como se viu ontem no Supremo e ainda se vai ver por longos e longos dias.

Cai e leva junto Luiz Lux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello. As moças – Carmem Lúcia e Rosa Weber – já deixaram a tábua de salvação de JB (aliás, estavam nela a contragosto).

Espertas as moças.

Há quem diga que a Justiça brasileira perde.

Perde? Perde não. Ganha. Nem a justiça da Ditadura Militar chegou a tantas penas e a tantas multas amalucadas como as do Mensalão do PT.

Corinthians X Sobradinho

Com a sempre inestimável ajudinha da imprensa, o julgamento do Mensalão se transformou num autêntico Corinthians X Sobradinho (DF) em final de Brasileirão, no Pacaembu.

Quem é que vai levar mais torcida para o jogo, em sua opinião?

Meia dúzia de mequetrefes, entre eles eu, estaria de bandeira em punho torcendo pelo glorioso Sobradinho.

Eu e mais quantos estaríamos no Paulo Machado de Carvalho rezando para que os corintianos não percebessem nossa presença?

Se a unanimidade é burra (Millôr Fernandes), a AP 470 (Mensalão do PT) foi a mais pura expressão da burrice humana travestida com roupas de um moralismo imoral.

Mas, nada como um dia após o outro.

“E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, Você? / Você que é sem nome, / que zomba dos outros,(...)” (CDA)