segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O que falta a Dilma e sobra em Maduro





Enquanto o presidente venezuelano Nicolás Maduro expulsa “diplomatas norte-americanos” a “nossa presidenta” assiste placidamente a sangria do programa Mais Médicos patrocinada direta e às claras pelos Demos, pela Associação Médica Brasileira, com os inestimáveis préstimos  da embaixada dos EUA em Brasília.

Bem, enquanto não descobrimos o que falta a uma e sobra no outro podemos ler o artigo de Saul Leblon, no sítio Carta Maior: “O nome disso é escárnio” - http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/O-nome-disso-e-escarnio/30275.

[Algo outrora inescapável do epíteto de um escárnio contra o povo brasileiro  está em curso nos dias que correm.

O ruído que provoca -  tanto das fileiras do governo, quanto nas de segmentos que se avocam à esquerda dele-  é incompreensivelmente desproporcional a sua gravidade.

Que as sininhos não badalem e, igualmente, seus carrilhões silenciem, é ilustrativo do fosso existente entre o inflamável alarido anti-Copa bimbalhada nas ruas e a real preocupação com o futuro do país e a sorte da população.

A Associação Médica Brasileira, em sintonia com a embaixada dos EUA e aliada à coalizão demotucana, tendo respaldo e torcida da mídia, opera abertamente para destruir um programa de saúde pública emergencial voltado  às regiões e contingentes mais vulneráveis do país.

Não há resguardo das intenções, nem pudor na propaganda da ação.

A entidade que se proclama representante da corporação médica brasileira acolhe e viabiliza deserções de profissionais cubanos fisgados  pelo redil conservador em diferentes regiões e municípios.

O Estado brasileiro  investirá este ano R$ 1,9 bi em recursos públicos nesse programa, para agregar  43 milhões de atendimentos/ano ao SUS a partir de abril, quando o Mais Médicos atingirá seu efetivo pleno, com mais de 13 mil profissionais em ação, sendo seis mil cubanos.

A embaixada dos EUA no Brasil - em sintonia com a Associação Médica e lideranças dos partidos conservadores- opera abertamente para que não seja assim.

O tripé orienta e encaminha pedidos de vistos especiais, a toque de caixa,  para que o maior número de desistentes possa rumar a Miami, onde os espera a estrutura da ‘Solidariedade Sem Fronteiras’.

A ONG de fachada humanitária  tem como principal negócio –financiado por recursos orçamentários que a bancada cubana assegura no Congresso - promover e operar deserções em convênios de saúde firmados entre Havana e 66 países nesse momento.

São mais de 43 mil  médicos cubanos em ação na América Latina, Ásia e África. Devem atingir um recorde de 50 mil em dois meses, quando o convênio brasileiro estiver plenamente implantado.

Um aspecto da remuneração desses profissionais deliberadamente pouco divulgado é que nem todos os convênios internacionais de Havana são pagos.

Na verdade, dos 66 países assistidos nesse momento apenas 26 se enquadram no que se poderia chamar de prestação de serviços pagos.

Outros 40 países recebem contingentes médicos gratuitamente.

O mesmo ocorre com missões de educação ou esporte.

A ‘exportação’ de serviços rende a Havana, segundo a chancelaria cubana, cerca de US$ 6 bi/ano (três vezes mais que a segunda fonte de divisas do país,  representada pelo turismo).

A exportação de serviços pagos - principalmente na área de saúde – financia as missões solidárias destinadas a países de extrema precariedade econômica e material ou focadas em situações de calamidade devastadora.

É assim desde 1960, quando Cuba enviou sua primeira missão de solidariedade ao Chile, vítima de um terremoto.

Eis a principal razão para a diferença entre o salário efetivamente recebido pelo profissional de uma missão e aquilo que o governo cubano arrecada pelo serviço prestado.

Uma parte do saldo financia as missões gratuitas que, repita-se, são a maioria.

Outra sustenta a Escola Latino-americana de Medicina, que possuía em 2013 cerca de 14 mil alunos estrangeiros, gratuitamente cursando ou com subsídio quase integral.

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, Cuba investe pesado em pesquisa na área de saúde e formação de médicos: são quase 83 mil (1/138 habitantes).

O investimento tem duplo objetivo: zelar pela população que tem a menor taxa de mortalidade infantil do mundo, e gerar receita numa economia asfixiada  há 50 anos pelo embargo comercial norte-americano.

Também isso se financia através das missões remuneradas.

A ideia de que a doutora Ramona Rodriguez possa ter  desembarcado no Brasil desinformada dessas particularidades acerca de seu salario, subestima a conhecida determinação de Havana, de ressaltar interna e externamente aquela que é a marca inegável de sua ação internacional: a solidariedade.

A mesma alegação de ignorância tampouco se pode conceder –neste aspecto- ao colunismo isento, que cuida de festejar as deserções –por ora pontuais - como se fossem o preâmbulo de uma diáspora libertária, em marcha épica rumo a Miami.

A participação da embaixada norte-americana no jogo de aliciamento e hipocrisia é ainda mais grave.

Trata-se de uma tentativa de sabotagem de um programa soberano de saúde pública emergencial, cujo desmonte poderá agregar novas vítimas e mais sofrimento num universo de milhões de brasileiros desassistidos.

Se a intrusão é desconcertante, não se pode dizer que surpreenda.

Quando o governo Lula decidiu quebrar a patente de antivirais , em 2007, a embaixada norte-americana operou para sabotar a medida.

Agiu em contato direto com as múltis do setor farmacêutico, o Departamento de Estado do governo Bush e ‘amigos’ locais - não se sabe se os mesmos que hoje cerram fileiras com o duplo interesse de  implodir o ‘Mais Médicos’ e sangrar Havana.

Telegramas secretos da época, obtidos pela organização Knowledge Ecology International (KEI),  revelam ameaças de represália enviadas então a Brasília:

“(...) uma licença compulsória pode fazer com que fabricantes de produtos farmacêuticos evitem introduzir novos remédios no mercado e seria mais difícil para o Brasil atrair os investimentos que tanto necessita", relatava um deles sobre o teor de reuniões com autoridades e políticos locais.

Lula oficializaria em maio de 2007 o licenciamento compulsório do antirretroviral  Efavirenz, usado por 75 mil pacientes de Aids atendidos pelo SUS. Um genéric importado da Índia passou a ser usado ao preço de  US$ 0,45, contra US$ 1,59 cobrado pela  multinacional norte-americana. Uma economia de US$ 30 milhões até 2012.

Volte-se um pouco mais no tempo, até as vésperas do golpe de 64, e lá estarão, de novo, os mesmos protagonistas, com idênticos propósitos.

O embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, fileiras udenistas e lacerdistas, múltis do setor farmacêutico e sabujos da mídia, a ganir a pauta da estação.

Eram tempos de inflação galopante e dinheiro curto: a saúde corria risco.

O então ministro da Saúde, Souto Maior, lutava para obter uma redução de 50% sobre os preços de 70 medicamentos mais usados pela população.

Laboratórios das multinacionais abriram guerra contra o tabelamento.

Às favas a saúde: primeiro, os interesses das corporações.

Lembra algo do comportamento atual da embaixada que se orienta pelos mesmos valores e da Associação Médica Brasileira que tanto quanto os abraça?

No famoso comício da Central do Brasil, sexta-feira, 13 de março de 1964, João Goulart decretou a expropriação de terras para fins de reforma agrária, encampou refinarias e anunciou estudos para fabricação estatal de medicamentos no país.

O conjunto era fiel aos preceitos do ‘sanitarismo-desenvolvimentista,’ abraçado  então pelas fileiras progressistas da medicina brasileira.

Médicos como Samuel Pessoa, Mário Magalhães,  Gentile de Melo e Josué de Castro –autor do clássico ‘Geografia da Fome ‘ e primeiro secretário- geral da FAO, que faleceu no exílio , cassado pela ditadura e impedido de retornar ao Brasil mesmo para morrer – eram alguns de seus expoentes.

Profissionais que hoje seriam olhados com suspeita, enxergavam a luta pela saúde como indissociável da luta pela desenvolvimento econômico e humano do país.

Em setembro de 1963, Jango, com apoio deles, restringiu a remessa de lucros da indústria farmacêutica. Mister Lincoln Gordon foi à luta: a USAID retaliou no lombo da pobreza cortando a ajuda no combate à malária – que se destacava como uma das principais doenças tropicais na época.

A ofensiva apenas fortalecia as convicções dos sanitaristas-desenvolvimentistas.

Embora heterogêneos nas filiações ideológicas, seus  representantes  entendiam que doença e pobreza  caminhavam juntas. Como tal deveriam ser enfrentadas  em ações soberanas, abrangentes e desassombradas, que rompessem a fragmentária  estrutura de uma sociedade retalhado por interesses que não eram os de seu povo.

Compare-se isso com o sultanato de jaleco branco.

Esse que hoje trata a saúde como um entreposto de camelos; alia-se ao conservadorismo mais retrógrado e tem na embaixada dos EUA um corredor de fuga em prontidão obsequiosa.

Bajulado pela mídia, o conjunto quer implodir o ‘Mais Médicos’.

O nome disso é escárnio. E Brasília deveria dizê-lo  claramente ao embaixador gringo, ao chamá-lo a prestar esclarecimentos sobre ingerência e sabotagem em assuntos internos.]

O Brasil teima em não sair da barbárie



22% das pessoas que moram no Rio de Janeiro apoiam a ação dos justiceiros (pesquisa Data Folha). Mesmo que fosse um índice isolado já seria preocupante. Mas não é.

Um blogueiro, acho que do Brasil 247, resolveu embarcar na minha canoa: o brasileiro (indistintamente) é violento, sanguinário, sádico, covarde e estúpido.

Estou generalizando? Estou e tenho a história e as pesquisas ao meu lado.

No último sábado o jornalista William Waack levou para o seu programa GloboNews Painel, Oscar Vilhena, professor de direito, José Álvaro Moisés, cientista político, e Marco Antonio Villa, historiador, para debater exatamente isso: sempre fomos violentos ou nos tornamos violentos?

Waak se esmerou (durante todo o programa) em dizer que o Brasil nunca foi tão violento como agora, que as manifestações foram politizadas, que partidos políticos estão por detrás da violência das ruas e que ele está cansado de só ver notícias sobre crimes nos meios de comunicação.

Bem... partindo de um sujeito que trabalha na Rede Globo não é de se levar a sério essa preocupação toda.

Os seus convidados não caíram na armadilha waakiana, nem mesmo o historiador Villa, tido como um conservador e de ideias antipopulares.

Vilhena lembrou que os números desmentem a tese do aumento da violência, Moisés corroborou, lembrando, a título de exemplo, que a cidade de São Paulo ostenta índices de mortes violentas de 10 para cada 100 mil habitantes, índices tidos como aceitáveis pela ONU. Villa assentiu com a cabeça.

Waack ainda tentou uma última cartada, usando São Paulo como exemplo, ao dizer que as pessoas se sentem inseguras de sair às ruas. Moisés rebateu de pronto dizendo que morou em Nova York no momento em que a cidade norte-americana ostentava os mesmos índices de São Paulo (10/100.000) e que nem ele e nem ninguém se sentia “inseguro de sair às ruas”.

Em tempo: embora a relação morte violenta por 100 mil habitante tenha caído na cidade de São Paulo, em outras regiões subiu muito, passando de 25/100 mil, como são os casos da Baixada Santista (SP) e de Maceió (AL).

O índice médio nacional é de 26/100 mil.

Os três lembraram ao expedito jornalista global que o Brasil teve quase quatro séculos de escravatura, e que toda a política brasileira sempre foi marcada por muita violência (vide, lembraram, a Proclamação da República e o Estado Novo).

Notei cá eu de meu sofá dois probleminhas na fala dos convidados: a não referência à morte de índios durante estes 5 séculos da Pindorama Portuguesa e (na fala de Villa) a ideia de que a violência foi exportada para as cidades brasileiras a partir do interior.

O que ele quis dizer, em coro com os paulistas de classe média, é que São Paulo “virou” violenta a partir da migração de nordestinos e suas “peixeiras na cintura”.

Preconceito.

Voltemos aos números

Por que os 22% de apoiadores aos grupos de extermínio (eles passam disso?) preocupam (e muito!)?

Façamos um exercício de alongamento, e estendamos esse índice para o Brasil todo, e teremos 40 milhões de gente apoiando a justiça com as próprias mãos (“olho por olho, dente por dente”... já ouviram isso em algum lugar, não ouviram?).

E voltemos também ao Data Folha que, ano passado, pesquisou apenas universitários paulistas e descobriu que 75% deles (3 em cada 4) apoiam a tortura em delegacia de polícia como método de investigação. Podem acreditar: “como método de investigação”.

Ou voltemos mais para recuperar todas as pesquisas de todos os institutos de pesquisa brasileiros e vamos descobrir que mais de 80% dos luso-pindoramaenses são favoráveis à pena de prisão perpétua e que a metade (50%) é favorável à adoção da pena capital (pena de morte).

Conseguiu ligar os pontos?

Deu pra perceber o quanto somos violentos, sanguinários, sádicos, covardes e estúpidos?