sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Entenda por que o barco do PT está fazendo água




Crédito da foto: www.rodrigovianna.com.br 

Gente como o sociólogo Chico de Oliveira e o filósofo Wladimir Safatle (o sociólogo bem antes) dão como terminada a era lulopetista.

Se o lulopetismo faz água, faz água não sem antes empurrar o Partido dos Trabalhadores para o centro do espectro político, quiçá para a direta.

O PT nasce no final dos anos 70 (embora a sua história registre coisa diferente) na cidade de Osasco, na Grande São Paulo, a partir de uma greve (seguida da natural repressão) numa empresa de nome Cobrasma.

Nasce para reorganizar a classe trabalhadora (fabril, preferencialmente) paulista e para confrontar a Ditadura Militar (já em processo de agonização) que não mais respondia às necessidades materiais do trabalhador (braçal) brasileiro.

A adesão de barnabés (funcionários públicos), de estudantes e professores universitários, artistas e artesãos ao nascente partido se dá não por convocação ou cooptação, mas por voluntarismo; pelas expectativas que se criaram neste novo espaço de se fazer frente aos abusos do regime militar.

De início, não havia qualquer demanda do PT em direção ao campesinato brasileiro.

Quem sintetiza essa dicotomia (campo-cidade) é o xavante Mário Juruna, que foi deputado federal pelo PDT e morreu à mingua na cidade-satélite do Guará, no DF; Juruna que via no/a homem/mulher citadino/a inimigo/a dos índios.

O avanço do PT rumo ao campo e às demandas sociais das periferias rurais se dá num terceiro movimento, via as Comunidades Eclesiais de Base, da Igreja Católica, as demandas dos sem- terra (sintetizadas na criação do Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra, dito MST) e da CUT (Central Única dos Trabalhadores), esta mais interessada nas demandas sociais urbanas que campesinas.

Após a derrota de Lula para Collor de Mello, no final dos anos 90, o PT percebeu que era fundamental avançar para o campo, e, especialmente, para o Nordeste, onde a sua votação era ridiculamente baixa.

O parto foi longo e ainda custou ao PT duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso.

Os Midas

A transformação da fuligem da fábrica em ouro em pó petista tem dois midas: o estrategista José Dirceu e o carismático Lula da Silva.

Lula é emblemático: de fala fácil, de português arrevesado e de camisa sempre suada, o líder encarnava como ninguém as origens humildes do sertanejo, que fugindo das dificuldades do sertão foi para a cidade grande, numa missão redentorista.

Para bater o tucanato, o PT se sustentou em um tripé: as organizações sociais, a média e baixa Classe Média, assustada com os desvios da política econômica do PSDB, e em personalidades de “fama e/ou influência” (artistas, jornalistas, intelectuais).

As primeiras defecções ao modelo lulopetista se dão na Classe Média-média (já no primeiro mandato de Lula), desencantada com a política social do governo, desencanto estereotipado no preconceituoso “bolsa-esmola”.

A defecção dos “médias” nunca preocupou o PT, até porque a classe média (nos seus três níveis: alta, média e baixa) é insignificante: não elege ninguém, a não ser alguns deputados estaduais, prefeitos e vereadores.

Também nunca preocupou a “fuga”  das personalidades de “fama e/ou influência” posto serem elas numericamente irrelevantes.

A água sobe

A sustentação que embalou a reeleição de Lula e a eleição de Dilma veio da Classe Média baixa e, principalmente, da extensa periferia brasileira (pobres das cidades e o campesino em geral).

Se o PT ajudou a estruturar as organizações sociais que atuam nas periferias brasileiras, igualmente cooptou-as (ou cooptou a maioria delas), levando boa parte da “companheirada” para dentro do governo.

Ocorre que nem todo jesus é genésio e nem todo genésio é jesus.

A gente não quer só comida / A gente quer comida / Diversão e arte / A gente não quer só / comida / A gente quer saída / Para qualquer parte” (“Comida” / Titãs).

A saída de políticos e militantes petistas para a fundação do Psol, e de Marina Silva e correligionários para a Rede, faz parte de um movimento que já havia se iniciado com a mudança de posição dos ambientalistas.

São os primeiros furos (enquanto a água sobe) na canoa lulopetista.

As manifestações de junho do ano passado mostrou que o rombo na canoa tinha se alastrado, e o partido, através de seus destrambelhados militantes na blogosfera, mas, principalmente, do governo Dilma Rousseff, não soube responder “às novas demandas” – que de novas não têm absolutamente nada.

Sininho e MST

A história de Sininho (a militante psolista, responsável por arregimentar os blak bloc no Rio) sintetiza os rumos que a esquerda brasileira (especialmente a juvenil) tomou: de filha de fundadores do PT no Rio Grande do Sul, Sininho passou pela militância petista, e agora foi para  a ação radical de rua.

Os confrontos entre militantes do MST com a polícia anteontem na frente do Palácio do Planalto, em Brasília, escancaram como poucas vezes se viu no Brasil o descontentamento dos movimentos sociais com as políticas públicas do governo.

Se pouco mais de uma centena de sem-terra foi capaz de tentar invadir o Palácio do Planalto dá para imaginar o grau de descontentamento que corre solto por esses interiores brasileiros.

Se perder essa base (organizações sociais), e parece que está perdendo, o PT naufraga com Dilma dentro em outubro próximo.

Assustados, muitos petistas já falam num retorno de Lula à eleição deste ano.

É uma péssima ideia, uma confissão de culpa e de incompetência, um reconhecimento do fracasso, o que certamente será explorado com o despudor de sempre pela oposição.

Para entornar ainda mais o caldo da canoa petista, os ministros da presidente Dilma têm se esmerando em falar coisas estúpidas e sem sentido em resposta às demandas sociais.

E se tudo isso ainda não bastasse, o PT, via Jorge Viana, senador do Acre, dá um apoio nada discreto ao projeto de lei antiterror.

A andar nessa toada o PT vai “sair da vida para entrar para a história” bem antes do que imaginou.