sábado, 8 de fevereiro de 2014

“Tá com dó? Leva pra casa”



Sejamos justos com os racistas e preconceituosos deste País, e reconheçamos definitivamente: eles não são nada criativos.

Repetem velhas palavras de ordem (mantras?) que de tão velhas têm alguns séculos:

- “bandido bom é bandido morto”;
- “os direitos humanos defendem bandidos”;
- “tá com pena? Leva pra casa”.

Mas não sejamos tão cruéis assim. É possível enxergar uma certa inventividade aí.

As palavras de ordem (mantras?) não se repetem diuturnamente. Variam conforme a ocasião.

Não se diz que “a ocasião faz o ladrão”? Pois é.

Nessa inventividade toda é até possível localizarmos não apenas troca de palavras como até a de expressões inteiras:

- “cidadãos pacatos” por “eu trabalho muito e pago meus impostos”.
- “direitos humanos” por “direitos dos manos”.
- “escravos” por “bandidos”.

A lista é grande, portanto vamos parar por aqui mesmo.

Benemerências

Para sermos justos temos também de reconhecer que no meio dessa gente há os benemerentes, gente que faz caridade, que se condói e colabora com o próximo (não tão próximo assim, é verdade), e que procura aplacar a dor de quem está acossado por uma vida miserável ou por uma catástrofe do tipo seca prolongada ou enchentes com direito a deslizamento de terra e soterramento de casas.

Quem, entre eles, já não doou aquele sapatinho gasto, aquela chupeta com alguns pontos de fungo, aquela roupinha puída?

Há até quem tenha levado para a casa o bandido, o morador de rua, o marginalzinho da Rachel Sheherazade.

Tô de sacanagem?

Tô não. Foi isso que fez Clarissa Costa Couto, que agora namora Rafael Nunes.

Quem é Rafael Nunes?

Ora quem é Rafael Nunes! Rafael Nunes é o mendigo gato de Curitiba. Lembra dele? É esse cara branco da foto montagem acima.

Boa moça, não acham?

Eu também acho. E acho mais: corajosa ao ponto de dar um tapa na cara (sem luva de pelica) na hipocrisia nacional.

Mesmo sendo um sujeito avesso às tietagens, já sou fã da Clarissa.

Aliás, acho mais: acho que ela deveria ser agraciada na próxima premiação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Se não tiver uma categoria para enquadrá-la, invente-se uma.

Sou muito mais a Clarissa (e sou mesmo) que a madre Tereza de Calcutá que desviava boa parte das doações em dinheiro que recebia para o Banco do Vaticano.

Se céu e inferno existem (como, aliás, acreditava a madre), a religiosa já queima no inferno, mas a Clarissa vai para o céu.

E o pretinho?

Bem, o pretinho da foto montagem acima, que foi amarrado por uma turba de “justiceiro” no aterro do Flamengo esta semana, tem um defeito:

“É preto!”

Tecnicamente, com gostam de dizer os norte-americanos, não existe diferenças entre o mendigo gato e o pretinho carioca de 15 anos.

- ambos moravam da rua;
- ambos viviam mal vestidos e fedidos;
- ambos importunavam os transeuntes;
- ambos praticavam pequenos delitos.

Mas a vida não está nos detalhes?

E não são os detalhes que nos diferenciam, assim como as digitais e a íris de nossos olhos?

Pois então... um é branco e outro é preto.

“Tá com dó”? Quer levar para casa? Vai dar não. O único exemplar de marginalzinho branco da Rachel Sheherazade já voltou para casa e até namora uma jornalista.

Fica pra próxima.