sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

"O que é Dom Casmurro?"



Dois utopistas norte-americanos - Henry David Thoreau e Burrhus Frederic Skinner – bagunçaram (ou deveriam ter bagunçado) a cabeça dos comportadinhos.

Dessa gente que teima em achar que o mundo não evoluiu ou não deveria evoluir.

Tomando-se aqui a evolução em seu sentido darwinista mesmo.

Thoreau escreveu Walden, um manifesto contra a sociedade industrial (hoje sociedade de consumo ou de massa).

Skinner, Walden Two, um libelo anticapitalista.

Ambos se fundamentam na capacidade do ser humano de gerir a própria vida comunitariamente, dispensando-se governos e estruturas opressivas como famílias nucleares, educação formal (quer dizer, escolas) igrejas, sindicatos, leis etc. e tal.

Uma breve pausa

Ainda me causa surpresa a hostilidade que boa parte das esquerdas do mundo, especialmente os esquerdistas latino-americanos, cultiva com relação aos norte-americanos.

Creio que haja uma confusão, fruto de um enorme desconhecimento, entre as políticas do Estado norte-americano e a gênese de seu povo (tirando-se fora desta segunda parte gente rançosa como os membros da Klu Kux Klan e do Tea Party).

Tanto a Klan quanto o Tea refutam a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América (1776).

A título de informação e curiosidade: os EUA são um dos raros países do mundo onde é possível encontrar anarquistas (utopistas) de direita; gente que detesta e afronta o Estado, mas também odeia pessoas de outras raças (sic) e credos.

Não é pouca coisa.

Provavelmente o mundo levará milhares de anos tentando entender os norte-americanos.

BBB

Causou um certo alvoroço (mas não muito) nas redes sociais a pergunta que uma jovem de nome Tatiele fez (creio que ontem à noite), durante mais uma exibição do BBB (Rede Globo): "O que é Dom Casmurro?"

Não vejo motivos para escárnio no espanto de Tatiele.

Muito pelo contrário.

Talvez sua perplexidade seja mais profunda que queremos aceitar que seja.

Ao comentar no portal UOL a suposta ignorância de Tatiele um sujeito disse que não via nada de mais na sua pergunta, pois ele também não sabia o que vinha a ser Dom Casmurro, que nunca tinha lido um livro (ele falou romance) na vida, que não sentia falta deles porque assistia TV e novelas, e que um romance não ajuda ninguém a chegar a lugar algum.

Tatiele e o comentador talvez estejam nos dizendo que estamos já em plena era de Walden, o three, numa inversão revolucionária que nem Thoreau, nem Skinner foram capazes de imaginar.

Um Walden 3 cosmopolita, internacionalista, global; um mundo revolucionado e utópico, conectado em rede (por mais paradoxal que isso possa parecer. Mas as revoluções e as utopias não são em si paradoxos?) em que se dispensam as famílias nucleares, a educação formal (quer dizer, escolas), as igrejas, os sindicatos, as leis, os livros, a história e o conhecimento.

Confesso! Estou virando um pessimista de carteirinha



Há três anos acabei causando uma “saia justa” em uma reunião do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) ao defender um programa radical e internacional de controle da natalidade.

Há gente demais no mundo – já somos 7 bilhões.

Sou ambientalista ou ecologista assustado com a pressão populacional sobre os recursos naturais?

Não, não sou ambientalista ou ecologista. Mas estou preocupado sim com a pressão populacional sobre os recursos naturais.

Mas a minha questão, no entanto, é de outra ordem.

Não há condição alguma de educar tanta gente assim e de manter a saga da humanidade rumo a um Planeta social e eticamente equilibrado e justo.

Em resumo: não é possível civilizar ao mesmo tempo tanta gente assim.

Se hoje parte da humanidade já vaga em turbas insanas, praticando todo tipo de atrocidades, não se pode esperar que com mais gente ainda isso possa ser mudado.

Muito pelo contrário.

Suécia

OK, você, eterna/o otimista, há de argumentar, lembrando-se da Suécia, da Islândia, da Holanda, da Dinamarca; bons exemplos de como é possível construir uma sociedade equilibrada e justa, onde as pessoas se respeitem, independente da sua cor, do seu credo, da sua condição financeira, do seu sexo.

OK, você, eterna/o otimista, tem razão... mas só em parte.

São países de territórios e populações pequenas; razoavelmente homogêneos e com longa construção histórica, em parte escrita a ferro e a fogo.

Voltemos à reunião

Voltando à reunião: caíram na minha jugular, me acusando de querer impedir que “os pobres tenham filhos”.

Especialmente quem caiu na minha jugular foi uma “companhera” velha de luta social.

Eu não disse nada sobre pobres. Falei de pessoas, de populações.

O ato falho foi dela, não meu.

Mas voltemos mais um pouquinho à questão da pressão populacional sobre os recursos naturais.

É verdade que 30% do que se produz (está-se falando aqui de alimentação) acaba se perdendo, e que dos 70% que se consome, quem consome, consome em excesso, porque pode, porque tem dinheiro pra isso.

Esse dois fenômenos provocam fome e desnutrição em pelo menos a metade da população mundial.

Fácil resolver isso: é só distribuir melhor a produção de alimentos que os 7 bilhões de seres humanos vão viver gordos e felizes para sempre.

Certo?

ERRADO!

Mesmo que se consiga dividir cada grão de arroz igualitariamente não será possível alimentar todo mundo.

É mais provável que venhamos todos, igualitariamente, a sofrer de desnutrição.

Mas sempre há uma saída, não é mesmo?

Há sim. É só avançarmos para as últimas reservas naturais que ainda existem.

Depois, quem sabe, a gente possa importar oxigênio de algum planeta vizinho para respirar.

Por quê?

Não vou aqui fazer uma longa digressão sobre patologias (humanas?), escudando-me em doutos e sábios textos de psicologia, história, sociologia e antropologia, até porque não tenho essa competência toda, você não tem essa paciência toda e este blog não tem esse espaço todo.

Mas vou lhe pedir um favor (a título de síntese, de exemplo) a você, minha/meu cara/o otimista.

Dê uma olhada (especialmente nos comentários) nos perfis do Facebook das jornalistas Rachel Sheherazade e  Cilene Victor da Silva, e nestes textos do portal Comunique-se: Após criticar apresentadora de TV, jornalista é ameaçada de morte e Professora de jornalismo quer denunciar âncora do SBT ao Ministério Público.

Bons sonhos.