sábado, 1 de fevereiro de 2014

A vaquinha do PT atropelou o inglês que não morreu



É comum se ouvir que determinada palavra é “velha”, “está em desuso” ou “não se usa mais”.

Talvez... mas talvez a pessoa tenha um vocabulário pequeno, mínimo. Li já há algum tempo que o paulista médio usa/conhece em média apenas 120 “palavras”, incluindo-se os artigos e as preposições.

O alcance vocabular do brasileiro também não é dos maiores, coisa de 140 a 160 “palavras”, incluindo-se os artigos e as preposições.

Fica difícil saber como o brasileiro consegue se comunicar.

O Dicionário Aurélio cataloga 435 mil palavras “portuguesas”. O inglês tem por volta de 1,2 milhão de vocábulos.

Quando Chico Buarque de Holanda lançou seu primeiro romance – “Estorvo”-, em 1991, muita gente se surpreendeu com o título (a maioria nunca tinha ouvido falar em estorvo - algumas pessoas dizem estrovo).

Estorvo é quem ou aquilo que impede ou atrapalha alguém ou alguma coisa.

A língua é um organismo vivo, em constante mutação. Pode-se dizer que é uma construção - como tudo na vida – diária das pessoas.

Muitas palavras e até mesmo expressões mudam de sentido com o tempo.

A origem da palavra esnobe é bastante curiosa. No início da Revolução Industrial, na Baixa Idade Média (século 11), a Universidade de Oxford (Inglaterra) passou a aceitar como alunos filhos da burguesia inglesa que começava a enriquecer, enquanto os nobres empobreciam.

Para diferenciar esses novos alunos dos tradicionais, a escola anotava na frente de seus nomes "S.nob." (abreviação das palavras latinas "Sine nobilitate", sem nobreza).

Daí que surgiu o adjetivo (em inglês) snob que aportuguesado transformou-se em esnobe.

O sentido inicial que colocava o pequeno burguês como um ser inferior (em relação ao nobre), reverteu-se (em inglês e nas línguas que adotaram o vocábulo) para significar um sujeito arrogante, que ostenta, que se sente superior aos outros.

Gente fina

Há coisa de quatro anos uma senhora de Higienópolis, na área central da cidade de São Paulo, reclamou, em entrevista a um jornal da cidade, que a abertura de uma estação de metrô na região iria levar para o bairro “gente diferenciada”.

Por “gente diferenciada” a senhora queria dizer pobres, pretos, moradores de rua e nordestinos.

Parte da classe média paulista – especialmente jornalistas e artistas – reagiu imediatamente e marcou um churrascão em pleno bairro.

Daí para adiante o “gente diferenciada” passou a identificar ricos e novos ricos brasileiros que “esnobam” pobres, pretos, moradores de rua e nordestinos.

Mais ou menos na mesma época a jornalista Eliane Cantanhêde, cobrindo para a TV UOL a convenção do PSDB, que indicaria José Serra candidato do partido à eleição presidencial, se referiu aos convencionais tucanos como “massa cheirosa”.

A analogia com a “massa fedida” do PT estava evidente demais para passar batido.

A jornalista tem até hoje de suportar ser chamada simplesmente de “massa cheirosa” ou de Eliane “Massa Cheirosa” Cantanhêde.

Por extensão, e pejorativamente, “massa cheirosa” diz respeito aos tucanos e seus eleitores.

A própria expressão “gente fina” do subtítulo acima também mudou de status: se nasceu para identificar boas pessoas, gente confiável, correta e honesta, hoje diz respeito a canalhas, gente em quem não se confia, desonesta.

Invasão inglesa

Há uma visível e constante invasão de palavras e termos ingleses (via EUA) na língua portuguesa, especialmente no Brasil (os portugueses são mais comedidos).

Essa “invasão linguística” provocou reações. A mais esdrúxula delas foi a tentativa de se aprovar no Congresso Nacional (o projeto era do hoje ministro dos Esportes, Aldo Rebello) uma lei proibindo o uso de palavras e expressões inglesas no território nacional.

O perigo da proposta de Rebello está menos na sua ojeriza a palavras e expressões inglesas e mais na possibilidade de que a proibição viesse a ser estendida, no futuro, a outras fontes, como as línguas indígenas e africanas.

No final dos anos 90, no auge da carreira, a apresentadora infantil Xuxa Meneghel resolveu lançar um “dicionário para os baixinhos e as baixinhas”.

Muita gente temeu pelas “bobagens que a rainha dos baixinhos” iria ofertar à criançada.

Não tinha bobagem alguma. Pelo contrário. O dicionário era correto e ainda continha uma pérola: a palavra show estava grafada xou.

Toda palavra estrangeira que contenha o som che deve ser grafada com x, por exemplo, xampu e não shampu.

Obviamente que ninguém vai escrever show com X, assim como nenhum jogador mais bate corner, e sim escanteio, e nenhum jornalista fala ludopédio ao invés de futebol (fottball).

Se fosse mais atento, Aldo Rebello teria percebido que sua jornada anti-inglês não tem qualquer sentido já que tanto é possível usar escanteio no lugar de corner, como aportuguesar da palavra fottball ou, ainda, usar sem xenofobia, show.

Vaquinhas e mutirões

Pessoalmente tenho restrições, por exemplo a print, download e impeachment. Prefiro imprimir, baixar e impedimento.

Não gosto, igualmente, de crowdfunding (financiamento coletivo). Se temos financiamento coletivo ou vaquinha, por que usar crowdfunding?

A vaquinha (ou o financiamento coletivo) é uma espécie de mutirão financeiro.

“Mutirão (WP) é o nome dado no Brasil a mobilizações coletivas para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Também é conhecido pelos termos mutirom, mutirum, muxirão, muxirã, muxirom, muquirão, putirão, putirom, putirum, pixurum, ponxirão, punxirão, puxirum, ademão, adjunto, adjutório, ajuri, arrelia, bandeira, batalhão, boi de cova, corte (ô) e junta”.

Trata-se de uma prática que vem das comunidades indígenas (e provavelmente africana também): pessoas de baixa renda se reúnem para realizar uma tarefa coletiva que venha a beneficiar uma pessoa, uma família ou mesmo uma comunidade.

Se essa prática envolve apenas dinheiro, costuma-se chamar de “vaquinha”.

A mobilização dos petistas que se cotizaram para ajudar José Genoíno e Delúbio Soares a pagar suas multas por conta da condenação no Mensalão é o caso clássico de uma vaquinha.

O jornalista e humorista Tutty Vasques notou, com acerto, que a vaquinha dos petistas desbancou o crowdfunding.

Mais do que eu, mas certamente menos que Aldo Rebello, Tutty Vasques tem restrições ao uso de palavras estrangeiras, quando se tem por aqui similares melhores e mais precisas.

Há alguns anos ele implicou com o uso da palavra “cimeira”, em um evento que aconteceria no Brasil, reunindo países lusófonos.

Cimeira é a mesma coisa que cúpula, congresso, conferência, reunião de cúpula ou encontro de cúpula; e deriva de cimo, o alto de uma montanha, o que está acima, é superior. É de
 uso corrente em outros países de língua portuguesa e espanhola.

A vaquinha do PT incomodou o PSDB e muitos jornalistas conservadores.

Mas também incomodou boa parte da classe média (especialmente a parcela que não gosta do PT).

Os primeiros, na verdade, ficaram assustados com o poder de mobilização petista.

A última – a classe média – porque há décadas e há gerações perdeu a capacidade de se reunir para uma ação coletiva que não lhe traga lucros ou dividendos.