terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Histórias bucólicas e simpáticas de uma guerra e de crimes


Crédito: www.pime.org.br

A propósito do sujeito que foi baleado em SP, nos protestos contra a Copa, pela PM, vou contar aqui algumas historinhas angolanas.

Quem tem mais histórias sobre Angola – quando da refrega entre o MPLA (hipercorrupto) e a Unita (hipercorrupta) - deve ser meu amigo Sergio Del Giorno. Se ele quer contá-las isso é outra história, afinal eu vivi por lá míseros 121 dias e ele cerca de dois anos.

Vamos às minhas.

Um dia estava eu (e mais uma pessoa que não lembro qual) sentado na frente de nossa casa quando dois gajos brasileiros (um de Brasília e outro de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul) praticamente nos atropelaram, pularam por cima e se esconderam em nossa residence.

O motivo? Um dos seguranças do condomínio onde morávamos havia atirado contra um morador da favela vizinha que se aproximara da cerca.

O pavor dos gajos brasileiros era tanto por conta dos disparos da metralhadora do segurança, quanto pela “arbitrariedade” dos disparos contra um “cidadão”.

Eu só perguntei a eles se não percebiam que estávamos em um País em guerra?

Guerra é guerra, camaradas!

A segunda história: sabendo que sou militante de direitos humanos um dos brasileiros veio me procurar, preocupado com um sujeito que estava sendo torturado por membros da nossa equipe de segurança (todos militares).

Motivo? O sujeito havia roubado uma pistola 9 ponto qualquer coisa de um dos segurança enquanto este “transava” com a irmã do gajo.

“E aí”, perguntei?

“Você tem de interferir. Os caras estão torturando e empalando o ‘ladrão’.”

A minha pergunta-resposta foi a mesma: “você não percebeu que estamos num país em guerra?”.

Guerra é guerra, camarada!

Destrinchando as historinhas de Angola

Historinha Um – o que leva um sujeito que mora em uma favela angolana e que provavelmente seja uma veterano de guerra a se aproximar da cerca de um condomínio onde viviam apenas brasileiros e indianos?

Ou o cara estava vendendo drogas ou tentando comprar uma arma.

Se você fosse segurança do condomínio, armado com uma metralhadora Uzi, e responsável pela segurança dos estrangeiros, você iria perguntar ou atirar?

Responda você mesmo.

Historinha Dois – o que leva um sujeito  - provavelmente um veterano de guerra -  a roubar uma pistola 9 ponto qualquer coisa de um cara que está transando com a sua irmã?

Ou o cara vai usar a pistola 9 milímetros ponto qualquer coisa para assaltar ou vai vendê-la para um outro sujeito. Uma das possibilidades é que esse sujeito seja opositor ao governo do MPLA e possa usá-la em algum atentado.

Você vai deixar passar isso barato e ser acusado de ser colaboracionista ou vai tentar, a qualquer custo, encontrar o comprador da arma?

Guerra é guerra, camarada!

Agora deu pra entender o tamanho da burrice do “protestante” que atacou o PM com um estilete?

Mundo da TV

Dia desses vi na TV um sujeito de nome francês (mas que provavelmente seja britânico) entrevistar uns “criminosos perigosos” em prisões de Miami (Flórida/EUA).

Ele não entendia que código é esse que leva os prisioneiros a brigar e a se matar dentro dos presídios.

Os presos não entendiam qual era a preocupação e os valores do repórter com relação às brigas e à matança nos presídios.

Um dos presos – latino-americano – resumiu a história: “você não conhece a linguagem das ruas. Não sabe o que temos de passar para sobreviver aqui e como se comportar na prisão”.

Guerra é guerra, camarada!

Agora deu pra entender o tamanho da burrice do cara que atacou o PM com um estilete?

Protestos anti-Copa, rolezinhos e outras expressões sociais


Crédito da foto: www.esmaelmorais.com.br

Dois bons artigos no jornal Folha de São Paulo hoje: um da demonizada (pelos blogueiros raivosos do lulopetismo) jornalista Eliane Cantanhêde, outro do neodemonizado (pelos blogueiros raivosos do lulopetismo) filósofo Vladimir Safatle.

Ambos os textos tratam basicamente do “modelo de representatividade popular na República (que) está esgotado”, conforme se lembrou ontem neste afalaire em “Dilma tem de escolher: o PMDB ou o povo” - http://afalaire.blogspot.com.br/2014/01/dilma-tem-de-escolher-o-pmdb-ou-o-povo.html)

Para quem não verte bílis pelos poros, vale a pena a leitura, incluindo-se aí as sugestões que estão ao final dos dois artigos.

“Vai que a moda pega...”

[Comerciantes deram um passa-fora em políticos que votaram a favor da im(p)unidade de um senador corrupto: afixaram cartazes avisando que eles não seriam bem-vindos e cumpriram a ameaça. Uma embaixatriz europeia viu quando sua cabeleireira botou uma parlamentar para correr.

Foi no Paraguai, mas vai que a moda pega por aqui?! Muita gente não poderia mais ir a bar, restaurante, posto de gasolina, shopping --nem cortar os novos cabelos implantados.

Essa conscientização de comerciantes e fregueses paraguaios --profissionais liberais, professores, estudantes, funcionários-- vem crescendo já há algum tempo e resultou, por exemplo, na emocionante eleição do ex-bispo Fernando Lugo para presidente. Ele fracassou por incompetência política e administrativa, mas deixou a lição de que, quando o povo quer, muita coisa pode acontecer.

O Paraguai continua sendo um "pleonasmo" --é um dos países mais corruptos e com mais pobreza do continente--, mas a efervescência cívica, a vitória de Lugo e, depois, a eleição de um governo mais pragmático já produzem ventos alvissareiros e resultados: o país se descola do tutor Brasil e, segundo o Banco Mundial, tem 14,1% de crescimento, o terceiro maior do mundo em 2013.

Há uma sincronia: enquanto os paraguaios descobrem sua força, o país se moderniza e o crescimento dispara. O contraponto é a Argentina, que se jogou na teia imperial dos Kirchner e convive com corrupção, câmbio e inflação fora de controle. A sensação é de caos.

Esses contrastes estarão pairando na Celac (cúpula de América Latina e Caribe), hoje, em Cuba, com a presença de Dilma. Sem Chávez, com a Venezuela afundando e a Argentina fazendo água, o equilíbrio da região está mudando e o pequeno Paraguai, sempre o primo pobre, é um bom "case" dessa mudança.

Em tempo: com o boicote do comércio, os políticos paraguaios refizeram o voto e o senador foi cassado.]

“O retorno”

[Neste final de semana, o Brasil voltou a ver manifestantes nas ruas. Era de esperar que, em algum momento, a insatisfação voltasse a explodir, pois, se há algo que caracteriza a política brasileira pós-junho, é a tentativa autista de fingir que nada aconteceu no país.

Um exemplo maior e quase cômico é o destino dado às exigências populares de uma "outra política". Elas pararam na lata de lixo mais próxima. Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade. Não há nenhuma reflexão sobre o aprofundamento da participação popular na pauta. Não há nada sobre democracia direta, nem sequer como promessa de campanha de algum candidato. Ou seja, não há coisa alguma.

Já a revolta popular contra a inexistência de um segundo ciclo de políticas contra a desigualdade baseadas na universalização de serviços públicos de qualidade também passou em silêncio.

Ações pontuais não são mudanças estruturais e, se existe algo que os brasileiros conhecem muito bem, é a arte milenar do ajuste aqui e ali ou a recente nova arte de tentar abaixar o fogo da panela de pressão com a cantilena do "quando o pré-sal chegar, tudo será diferente".

Quando o pré-sal chegar, teremos dinheiro para resolver os problemas da educação, mesmo que isso signifique prometer algo em um prazo em que os governos serão outros e em cima de um pretenso rendimento que não sabemos nem sequer de quanto ele realmente será. Não parece que isso possa ser chamado de "solução" para problemas. Por isso, nada mais sábio do que manifestantes que gritam: "Se não houver direitos, não haverá Copa".

A Copa do Mundo virou a melhor expressão da irracionalidade econômica brasileira. Dinheiro gasto em vários estádios de futebol que servirão para nada, promessas de melhoria na mobilidade urbana que ninguém verá, aeroportos de lona que durarão o tempo de as comitivas passarem, índios desalojados para sair da frente dos tratores e, principalmente, desconsideração sobre o que a população realmente entende como prioridades.

Alguém deveria lembrar que talvez os brasileiros não tenham nascido para ser figurantes de campanhas de patrocinadores da Copa.

Mas, ao que parece, nós vamos precisar ainda de muita vitrine de banco quebra- da e de muita pedra atirada contra a polícia para que certas insatisfações sejam realmente ouvidas.]

Outras leituras

O que o sábado mostrou (Editorial do jornal O Estado de São Paulo)

Máscaras em manifestações públicas (Kleber Leyser de Aquino, no jornal O Estado de São Paulo)

Onda incendiária (Editorial do jornal Folha de São Paulo)