quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rolezinho: vamos mijar na rodoviária de Brasília



Assim que desembarcou na rodoviária de Brasília (hoje conhecida como rodoviária do Plano Piloto), logo após a “inauguração” da capital federal, na década de 60, o poeta Solano Trindade (citado, por outras razões, no texto anterior e em outros textos deste afalaire) tirou o pinto para fora e mijou/urinou na frente de todo mundo.

Um bocado de gente se espantou com a “má educação” de Solano, mas o escultor Assis do Embu, que fazia parte da comitiva de artistas que viera a Brasília, defendeu o poeta, argumentando que na sua idade (60 e tantos anos) ele poderia fazer o que bem quisesse.

Solano não foi apenas poeta, mas também folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta. Era negro e ativista contra o racismo.

Décadas mais tarde, o cineasta norte-americano Clint Eastwood foi cobrado em um talk show por ter dado, em Letters from Iwo Jima/ Cartas de Iwo Jima, a versão japonesa para a batalha de Iwo Jima (Segunda Guerra Mundial).

Eastwood cometeu uma heresia maior: narrou parte do filme em japonês.

O cineasta usou o mesmo raciocínio de Assis do Embu para a mijada de Solano Trindade: na minha idade posso fazer o que eu quiser.

No contra fluxo

Do alto das minhas mais de quatro décadas de militância social, mesmo sem a importância e a notoriedade de Solano e de Eastwood, vou aqui também na contracorrente desse bate-boca todo sobre os rolezinhos.

Ou melhor, vou nas contracorrentes, à esquerda e à direita.

Corrente à direita

Já reza a lenda (não tão nova assim, na verdade) dos conservadores de direita que shopping center é um espaço privado franqueado ao público.

Com isso eles querem dizer que os administradores desses centros de compra podem impedir a circulação de pessoas assim que acharem oportuno fazer.

A lógica do argumento é Capitalista: o espaço é privado, tem dono, se investiu dinheiro privado por lá. Isso quer dizer que o dono pode fazer o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso.

Pode?

A lógica é ruim. O espaço pode até ser até privado, mas a cidade é pública.

Se um shopping está inserido numa cidade, logo ele está inserido num espaço público, num espaço que é de todos.

Corrente à esquerda

Muito embora alguns estejam temerosos, imaginando que o crescimento e a radicalização dos rolezinhos possam impactar na eleição presidencial deste ano (e apear o PT do poder central), esquerdistas, em geral, tomaram um caminho que para eles é reto, mas pra mim é um bocado tortuoso.

Que a repressão aos “jovens da periferia” e a intolerância contra os desvalidos da Terra seja evidente, isso é evidente.

O resto é puro sociologismo.

Trata-se mesmo (como se argumenta) de uma ação política, já que o centro não olha para a periferia?

Mais ou menos. Pode até, em parte, ser ação de “pertencimento” ao espaço público, mas é uma ação desprovida de propósitos ideológicos.

O que está claro é que esses jovens não querem “se pertencer” a uma corrente, mas aderir/ser aceito a/em um espaço que os refuta (o espaço privado, o espaço capitalista).

Eles não estão tentando nenhuma revolução (social). Buscam “ser pertencidos”.

Funk ostentação

Nada mais expressivo do como pensam esses “jovens da periferia” e do que se disse acima que o funk ostentação.

Antes que algum apressadinho já me acuse de discriminar e não conhecer os “jovens da periferia” tenho a dizer que não apenas nasci na periferia (*), como conheço uma porção desses “jovens da periferia”, e muitos deles “pediram” (e naturalmente foram aceitos) para serem meus amigos nas redes sociais.

Não será preciso descer às análises das “letras” confusas e incoerentes e do “batidão” monocórdio e alienante do funk ostentação.

Basta que olhemos, como segue abaixo, um diálogo nas redes sociais:

Mina 01 – “Queria tanto fika de boa cm vc”
Mano 01 - “que se abrir comigo minha lindaaa princesinha”
Mina 02 - “Oque qui aconteceu amiga.”
Mina 01 - “Nao obgada”
Mina 01 - “Depois te conto amigah”
Mina 02 - “Amigaa o q fooi ficaa assim ñ”

É uma maneira de se expressar? Uma forma de diálogo? Uma nova linguagem?

Pode até ser, mas desse mato sai algum coelho? Dessa pedra se tira leite?

Responda você mesmo.

Só Marx mesmo

Em casos como esse o receituário é sempre o mesmo: o velho e bom Karl Marx.

Em “A Ideologia Alemã” (1845), Karl Marx e Friedrich Engels deram à luz a expressão lumpemproletariado / lumpenproletariat.

E o que vem a ser o lumpenproletariat?

A população situada socialmente abaixo do proletariado (a classe trabalhadora regular). Gente de condições de vida e de trabalho precárias.

Grupo formado pelo contingente de trabalhadores não organizados do proletariado, não apenas destituído de recursos econômicos, mas igualmente desprovido de “consciência política” e de classe (social).

Segundo Marx e Engels, essa gente é suscetível de “servir aos interesses da burguesia”, de ser massa de manobra dos interesses daqueles que a explora e a reprime.

Não creio ser preciso estirar ainda mais a conversa.

(*) Periferia/s está posta na quarta nota do post anterior.