segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Somos bons e cordiais, entende isso?



Qual é a novidade na ação truculenta dos shopping centers paulistanos e da PM de SP?

NENHUMA!

“A nossa História é repleta de violência e desrespeito à pessoa humana. As elites sempre procuram maquiar esta realidade de dor e sofrimento. Escreveram obras, festejadas em pequenos grupos da minoria branca, elaborando uma falsa cordialidade ou bondade.”

“A lenda da bondade ou cordialidade do brasileiro forjou-se nas casas urbanas dos bem nascidos. Foram capazes de afirmar que a miscigenação, originária da dominação, foi um traço positivo do caráter nacional.”

Que comunista radical e estúpido disse isso?


Lembo é um comunista radical tanto quanto eu sou corintiano e a nossa boxer “Limão” é uma gata siamesa.

Lembo não se refere no artigo (que pode ser lido na sua integra abaixo ou clicando-se no link) aos rolezinhos nos shopping, mas aos assassinatos e à violência em Pedrinhas no Maranhão.

MAS É TUDO A MESMA COISA.

Tudo faz parte dessa enorme farsa que nós construímos ao longo da nossa história e com ela nos refestelamos candidamente.

Nós somos bons.

Somos cordiais.

Apenas tivemos 388 anos de escravidão.

Apenas exterminamos os nossos mais de 1.400 grupos indígenas.

Apenas não deixamos os pretos, os pobres, as putas usarem o elevador social do nosso prédio.

Apenas pregamos que bandido bom é bandido morto, desde que seja preto, pobre ou puta, bem entendido.

O QUE ISSO TEM DE MAIS?

Nós somos bons. Nós somos cordiais.

E é o dinheiro, segundo a filósofa maranhense Roseana Sarney,  que nos está deteriorando.

Mas nós somos bons. Nós somos cordiais.

= = = = =


[As cenas da Penitenciária de Pedrinhas, registradas pelos meios de comunicação, refletem todo o passado do País. A nossa História é repleta de violência e desrespeito à pessoa humana.

As elites sempre procuram maquiar esta realidade de dor e sofrimento. Escreveram obras, festejadas em pequenos grupos da minoria branca, elaborando uma falsa cordialidade ou bondade.

Tomaram as descrições dos viajantes, durante o período colonial, e apontam para o bom acolhimento recebido pelos forasteiros nas sedes das fazendas.

Esqueceram de apontar dois elementos: os viajantes eram europeus e os fazendeiros pessoas rudes que se encantavam com o mundo lá de fora.

Não recebiam na casa grande qualquer um. Só os que apresentavam ares de sofisticação. Era bom entrar em contato com um mundo sonhado, mas distante e quase inalcançável.

A lenda da bondade ou cordialidade do brasileiro forjou-se nas casas urbanas dos bem nascidos. Foram capazes de afirmar que a miscigenação, originária da dominação, foi um traço positivo do caráter nacional.

O cinismo dominou nossos espaços visuais. O que é bom a gente conta, o que é mal a gente esconde. Este o mote predileto de nossa imprensa durante séculos.

Os bailes da Corte, os palacetes de Santa Tereza, as mansões da Avenida Paulista, assim como os palácios da plutocracia açucareira, não podiam sofrer o impacto da verdade.

A mentira é um componente de nossa realidade. Sempre se matou – e muito – no extenso território brasileiro. Desde os tempos da descoberta, a violência não sofre soluções de continuidade.

As elites, no entanto, procuraram sempre se proteger física e psicologicamente. Os seus capangas davam a necessária segurança. As boas notícias estampadas nos noticiários a tranquilidade mental.

Quando Palmares ruiu, graças às agressões dos senhores de engenho, as orelhas dos vencidos foram cortadas para posterior exibição. Uma demonstração da cordialidade e bondade do caráter nacional.

Ao serem exterminados, os componentes do bando de Lampião tiveram suas cabeças cortadas. Primeiramente, exibidas em Piranhas e, depois, em Salvador.

Em Canudos, molambentos, armados com armas ronceiras, foram exterminados – sem dó nem piedade – por tropas de artilharia, como o sertão nunca antes tinha visto. E jamais voltou a ver.

Foi vitória da República, esta, fruto de um golpe de estado que deu início a longa série de intervenções armadas em nossa vida política. Os golpes, após 1889, tornaram-se rotina.

A elite sempre aplaudiu. Jamais se preocupou com as consequências desta carnificina interminável. Fecha os olhos para a realidade. Adora, nos dias presentes, ir a qualquer parte dos Estados Unidos.

Ora, tudo isto aponta para o inexorável. As rebeliões em nossos presídios, verdadeiras masmorras medievais, são inevitáveis. Os administradores públicos, como os extratos de suas origens, preferem fechar os olhos.

Sabem que elas são transitórias. Passam. E, com o passar do tempo, vem o esquecimento. É a falsa paz entre rebeliões. Foi assim em São Paulo. Será assim no Maranhão 

Até lá – a próxima rebelião – se continuará a entoar a mantra perene: o brasileiro é cordial e pleno de bondade. Assim é se lhe parece. O bom seria uma tomada de coletiva de consciência da realidade.

Caso contrário, em futuro não distante, o caos se instalará em nossas cidades. Já aconteceram surtos em passado recente. É só lembrar 2006. Não se encontram tão distantes aqueles dias de angustia e desespero.

Só as autoridades não querem perceber. O cinismo de sempre foi substituído – em véspera de eleição – pela propaganda oficial enganosa.]

No Blog do Cláudio Lembo - http://terramagazine.terra.com.br/blogdoclaudiolembo/blog/2014/01/13/a-falsa-cordialidade/ .