quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O decote da vizinha é muito ousado? E daí?



A revista norte-americana Popular Science não vai mais permitir os comentários dos senhores internautas.

Fundada em 1872 a Popular Science argumenta que os “comentários podem prejudicar a compreensão das pessoas sobre uma questão séria e acabar, por exemplo, atrapalhando o desenvolvimento científico”.

Segundo a publicação “muitos dos comentários são bons, provocativos e agregam informação. Contudo, uma minoria barulhenta muda a percepção dos leitores sobre uma história, conforme demonstrado em pesquisa”.

Duvido um pouco desta última parte da argumentação – “minoria barulhenta”.

Estudos realizados pelo professor Dominique Brossard indicam que “o simples ataque ad hominem, ou seja, diretamente a alguém, fazia os leitores mudarem de ideia sobre o conteúdo do artigo”.

É uma atitude corajosa e deve receber, nos próximos dias, críticas severas dos defensores da tal “liberdade de expressão”.

Nem dará para se espantar se um hacker ou um grupo deles invadir o sítio de revista em represália à medida.

Decote da vizinha

A lógica dos senhores internautas – uma maioria, daí eu discordar da tese da Popular Science – é que se pode falar de tudo e de todos indistintamente, embora a coisa não nos diga respeito e nem sobre ela tenhamos qualquer domínio.

É a velha lógica da cidade de muros baixos. Da fofoca. Da pitacaria.

O decote da vizinha é muito ousado? E daí?

Cuide de sua vida e deixe os peitos da vizinha em paz.

Ascenção

A tese da “libertinagem de opinião/expressão” coincidiu com dois movimentos sociais-mundiais: o advento do neoliberalismo (ou melhor, a sua exacerbação) nos anos 80 e o surgimento da internet, seguido, rapidamente, pela proliferação das redes sociais.

Avessa e alheia aos movimentos sociais reformadores e revolucionários, a classe média viu nesses dois movimentos (de massa) a sua chance de, finalmente, participar efetivamente da política e, finalmente, mudar o mundo, para moldá-lo “à sua imagem e semelhança”.

Já conhecemos essa máxima há milhares de anos.

Embora ainda tenha criado heróis tipo Rambo, o cinema (norte-americano) viu por bem, também nos anos 80, abandonar os “heróis” históricos para fazer ascender a classe média ao Olimpo: jovenzinhos comedores de hambúrguer salvando os pais em prisões no sudeste asiático, vendedores de carros caçando e matando terroristas, donas de casas imaturas enfrentando poderosos traficantes de drogas.

A internet apenas ampliou o que o cinema começou.

Com uma vantagem: sem que o nosso herói precise sair de casa, sem que precise sequestrar aviões, sem que precise trocar tiros e sopapos com terroristas e traficantes.

Viramos todos Rambo e Chuck Norris de sofá.

O início do fim

A iniciativa corajosa da Popular Science não deve ser seguida de pronto, especialmente pelas mídias de massa que não querem perder os seus públicos. Público representa inserção comercial, e inserção comercial representa dinheiro.

Há, e já se discutiu isso por aqui em mais de uma oportunidade, outras fórmulas para conter a fúria e a insanidade da maioria dos internautas: cadastramento, bloqueio de opiniões (sic) ofensivas e por aí vai.

Mas alguém tinha de tomar uma decisão corajosa e radical, e a Popular Sciense tomou.

É um grande começo, mesmo que ela volte atrás num futuro próximo.