sábado, 6 de dezembro de 2014

Tao



 
Lua
 
O mestre zen Ryokan vivia a mais simples e frugal das vidas em uma pequena cabana aos pés de uma montanha.

Uma noite, aproveitando de sua ausência, um ladrão entrou na cabana apenas para descobrir que nada havia para ser roubado.

Ryokan voltou a tempo de surpreender o larápio.

“Você fez uma longa viagem para me visitar e não dever retornar de mãos vazias... por favor tome minhas roupas como um presente.”

O ladrão, perplexo e rindo, tomou as roupas e esgueirou-se para fora.

Ryokan sentou-se nu e olhou para lua: “pobre coitado... gostaria de poder dar-lhe esta bela lua.”

Sermão

Um dos monges do mestre Gasan visitou a universidade em Tóquio, e quando retornou, perguntou ao mestre se já havia lido a bíblia cristã.

“Não!”, disse Gasan. “Por favor leia algo dela para mim”.

O monge abriu a bíblia no Sermão da Montanha, em São Mateus, e começou a ler.

Ao fim da leitura, mestre Gasan ficou em silêncio por muito tempo, até dizer: “quem quer que tenha proferido essas palavras é um ser iluminado. O que você leu para mim é a essência de tudo o que eu tenho estado tentando ensinar a vocês aqui.”

Morte

Um homem rico e poderoso pediu a um mestre zen um texto que o fizesse sempre lembrar do quanto era feliz com a sua família.

O mestre pegou num pergaminho e escreveu: “o pai morre. O filho morre. O neto morre”.

“Como?, disse, furioso, o homem rico. Eu pedi alguma coisa que me inspirasse, um ensinamento que fosse sempre contemplado com respeito pelas minhas próximas gerações, e o senhor dá-me algo tão depressivo e deprimente como estas palavras?”

“O senhor pediu-me algo que lhe fizesse lembrar sempre a felicidade de viver junto da sua família. Se o seu filho morrer antes, todos serão devastados pela dor. Se o seu neto morrer, será uma experiência insuportável.”

Equanimidade

Durante as guerras civis na China feudal um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle.

Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando.

Todos exceto um mestre zen.

Quando chegou à vila, o general soube por seus batedores que a vila fora abandonada, exceto pela presença do monge.

O general foi ao templo, curioso em saber quem era tal homem.

O monge não o recebeu com a submissão e terror que o general esperava, o que o deixou furioso.

"Seu tolo!, gritou, enquanto desembainhava a espada. "Não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?"

Tranquilo, o mestre retrucou: "e você percebe que está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?"

Sonho

O mestre taoista Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali.
No sonho, não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa.
Era realmente uma borboleta.
Quando acordou, descobriu-se uma pessoa novamente, e ficou a imaginar: "fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta ou sou agora uma borboleta que sonha ser um homem?"

Nada Existe

Yamaoka Tesshu, quando era um jovem estudante zen, visitou um mestre após outro.

Quando encontrou Dokuon de Shokoku, desejando mostrar o quanto já sabia, disse, vaidoso: “a mente, Buda e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenómenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o dar e tampouco nada a receber!”

Dokuon, que fumava pacientemente, nada disse, mas, subitamente acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu.

O jovem se irritou e xingou o mestre.

“Se nada existe, perguntou, calmo, Dokuon, de onde veio toda esta sua raiva?”

Alegria

No tempo do Buda vivia uma velha mendiga chamada Confiando na Alegria.

Ela observava os reis, príncipes e o povo em geral fazendo oferendas a Buda e a seus discípulos, e não havia nada que quisesse mais do que poder fazer o mesmo.

Saiu então pedindo esmolas, mas, no fim do dia não havia conseguido mais do que uma moedinha.

Levou a moedinha ao mercado para tentar trocá-la por algum óleo, mas o vendedor lhe disse que aquilo não dava para comprar nada.

Mas quando o vendedor soube que ela queria fazer uma oferenda ao Buda, cheio de pena, deu-lhe o óleo.

A mendiga foi ao mosteiro, acendeu a lâmpada, colocou-a diante de Buda e fez o seguinte pedido: “nada tenho a oferecer senão esta pequena lâmpada. Mas, com esta oferenda, possa eu no futuro ser abençoada com a Lâmpada da Sabedoria. Possa eu libertar todos os seres das suas trevas, purificar todos os seus obscurecimentos e levá-los à Iluminação”.

Durante a noite, o óleo de todas as lâmpadas havia acabado, mas a lâmpada da mendiga ainda queimava na alvorada.

Quando um discípulo chegou para recolher as lâmpadas viu que aquela era a única lâmpada ainda brilhando, cheia de óleo e com pavio novo, e pensou: “não há razão para que essa lâmpada continue ainda queimando durante o dia”,

O discípulo tentou apagar a chama com os dedos, mas foi inútil; Tentou abafá-la com suas vestes, mas ela ainda ardia.

Observando a cena, Buda disse: “Maudgalyayana, você quer apagar essa lâmpada? Não vai conseguir. Não conseguiria nem movê-la daí, que dirá apagá-la. Se jogasse nela toda a água dos oceanos, ainda assim não adiantaria. A água de todos os rios e lagos do mundo não poderia extinguir esta chama.”

“Por que não?”, perguntou o discípulo.

“Porque ela foi oferecida com devoção e com pureza de coração e de mente. Essa motivação produziu um enorme benefício.

Quando o Buda terminou de falar, a mendiga se aproximou e ele profetizou que no futuro ela se tornaria um Perfeito Buda e seria conhecido como Luz da Lâmpada.

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