quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Se desespere... os fortes sempre vencem


Crédito da ilustração : miriangalli.blogspot.com

Faz um enorme sucesso nas redes sociais o vídeo de um garotinho franzino que provoca um seu colega de escola, xingando-o e desfechando três socos contra seu rosto. O primeiro soco acerta em cheio.

O adversário é um garoto maior e gorducho que acaba por se aborrecer, suspende o fracote no ar e o atira contra o chão.

Para azar do frangote, seu corpo bate numa guia do pátio de escola. Se quebrou alguma coisa não se sabe, pois esses vídeos têm a inenarrável capacidade de nunca contar a história completa. Mas que o frangote saiu estropiado, isso saiu.

Veja:


Em Samuel 1.17 (1), David derrota Golias, ferindo-o com uma pedra e cortando a sua cabeça com uma espada.

Samuel (שְׁמוּאֵל) foi um líder histórico de Israel, o último dos juízes israelitas e o primeiro dos profetas do povo judeu.

Mas essa é uma história contada no Livro de Samuel. Trata-se apenas uma história bíblica, naquilo que chamamos “velho testamento”. É muito provável que Samuel sequer tenha existindo, e que sua história seja apenas uma alegoria, uma forma que grupos sociais costumam usar para fazer frente às suas fragilidades e inseguranças.

Vemos isso cotidiamente até hoje, e enquanto existir por aqui pela Terra o ser humano vamos continuar convivendo com esse tipo de devaneio.

A história de Samuel impregnou a cultura ocidental cristã, chegando aos nossos rincões, como se pode ver em “Florilégio de estrofes da poesia sertaneja”, de João Pessoa (2).

O mundo real conta outras histórias, outros fatos, outras realidades: os mais fortes sempre vencem.

Estou querendo dizer que o mundo e a vida são imutáveis, e que sofreremos para “todo o sempre” os abusos de quem tem o poder e a força?

Não necessariamente. A alegoria de Davi é uma boa saída para enfrentarmos quem nos oprime, mas é preciso tempo, paciência e um bocado de inteligência para alterar a ordem das coisas, e redefinir o nosso presente.

= = = = =

(1) 1 Samuel 17

1 ¶ E os filisteus ajuntaram as suas forças para a guerra e congregaram-se em Socó, que está em Judá, e acamparam-se entre Socó e Azeca, no termo de Damim.
2 Porém Saul e os homens de Israel se ajuntaram e acamparam no vale do carvalho, e ordenaram a batalha contra os filisteus.
3 E os filisteus estavam num monte de um lado, e os israelitas estavam num monte do outro lado; e o vale estava entre eles.
4 Então saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, que tinha de altura seis côvados e um palmo.
5 Trazia na cabeça um capacete de bronze, e vestia uma couraça de escamas; e era o peso da couraça de cinco mil siclos de bronze.
6 E trazia grevas de bronze por cima de seus pés, e um escudo de bronze entre os seus ombros.
7 E a haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança de seiscentos siclos de ferro, e diante dele ia o escudeiro.
8 E parou, e clamou às companhias de Israel, e disse-lhes: Para que saireis a ordenar a batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça a mim.
9 Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, a vós seremos por servos; porém, se eu o vencer, e o ferir, então a nós sereis por servos, e nos servireis.
10 Disse mais o filisteu: Hoje desafio as companhias de Israel, dizendo: Dai-me um homem, para que ambos pelejemos.
11 Ouvindo então Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se, e temeram muito.
12 ¶ E Davi era filho de um homem efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos; e nos dias de Saul era este homem já velho e adiantado em idade entre os homens.
13 Foram-se os três filhos mais velhos de Jessé, e seguiram a Saul à guerra; e eram os nomes de seus três filhos, que se foram à guerra, Eliabe, o primogênito, e o segundo Abinadabe, e o terceiro Sama.
14 E Davi era o menor; e os três maiores seguiram a Saul.
15 Davi, porém, ia e voltava de Saul, para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém.
16 Chegava-se, pois, o filisteu pela manhã e à tarde; e apresentou-se por quarenta dias.
17 E disse Jessé a Davi, seu filho: Toma, peço-te, para teus irmãos um efa deste grão tostado e estes dez pães, e corre a levá-los ao arraial, a teus irmãos.
18 Porém estes dez queijos de leite leva ao capitão de mil; e visitarás a teus irmãos, a ver se vão bem; e tomarás o seu penhor.
19 E estavam Saul, e eles, e todos os homens de Israel no vale do carvalho, pelejando com os filisteus.
20 Davi então se levantou de madrugada, pela manhã, e deixou as ovelhas com um guarda, e carregou-se, e partiu, como Jessé lhe ordenara; e chegou ao lugar dos carros, quando já o exército saía em ordem de batalha, e a gritos chamavam à peleja.
21 E os israelitas e filisteus se puseram em ordem, fileira contra fileira.
22 E Davi deixou a carga que trouxera na mão do guarda da bagagem, e correu à batalha; e, chegando, perguntou a seus irmãos se estavam bem.
23 E, estando ele ainda falando com eles, eis que vinha subindo do exército dos filisteus o homem guerreiro, cujo nome era Golias, o filisteu de Gate; e falou conforme àquelas palavras, e Davi as ouviu.
24 Porém todos os homens em Israel, vendo aquele homem, fugiram de diante dele, e temiam grandemente.
25 E diziam os homens de Israel: Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a Israel; há de ser, pois, que, o homem que o ferir, o rei o enriquecerá de grandes riquezas, e lhe dará a sua filha, e fará livre a casa de seu pai em Israel.
26 Então falou Davi aos homens que estavam com ele, dizendo: Que farão àquele homem, que ferir a este filisteu, e tirar a afronta de sobre Israel? Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?
27 E o povo lhe tornou a falar conforme àquela palavra dizendo: Assim farão ao homem que o ferir.
28 E, ouvindo Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se a ira de Eliabe contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? Com quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção, e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja.
29 Então disse Davi: Que fiz eu agora? Porventura não há razão para isso?
30 E desviou-se dele para outro, e falou conforme àquela palavra; e o povo lhe tornou a responder conforme às primeiras palavras.
31 ¶ E, ouvidas as palavras que Davi havia falado, as anunciaram a Saul, que mandou chamá-lo.
32 E Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá, e pelejará contra este filisteu.
33 Porém Saul disse a Davi: Contra este filisteu não poderás ir para pelejar com ele; pois tu ainda és moço, e ele homem de guerra desde a sua mocidade.
34 Então disse Davi a Saul: Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; e quando vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha do rebanho,
35 Eu saía após ele e o feria, e livrava-a da sua boca; e, quando ele se levantava contra mim, lançava-lhe mão da barba, e o feria e o matava.
36 Assim feria o teu servo o leão, como o urso; assim será este incircunciso filisteu como um deles; porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo.
37 Disse mais Davi: O Senhor me livrou das garras do leão, e das do urso; ele me livrará da mão deste filisteu. Então disse Saul a Davi: Vai, e o Senhor seja contigo.
38 E Saul vestiu a Davi de suas vestes, e pôs-lhe sobre a cabeça um capacete de bronze; e o vestiu de uma couraça.
39 E Davi cingiu a espada sobre as suas vestes, e começou a andar; porém nunca o havia experimentado; então disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o experimentei. E Davi tirou aquilo de sobre si.
40 ¶ E tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco seixos do ribeiro, e pô-los no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão, e lançou mão da sua funda; e foi aproximando-se do filisteu.
41 O filisteu também vinha se aproximando de Davi; e o que lhe levava o escudo ia adiante dele.
42 E, olhando o filisteu, e vendo a Davi, o desprezou, porquanto era moço, ruivo, e de gentil aspecto.
43 Disse, pois, o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus? E o filisteu pelos seus deuses amaldiçoou a Davi.
44 Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo.
45 Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado.
46 Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão, e ferir-te-ei, e tirar-te-ei a cabeça, e os corpos do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves do céu e às feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel;
47 E saberá toda esta congregação que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará na nossa mão.
48 ¶ E sucedeu que, levantando-se o filisteu, e indo encontrar-se com Davi, apressou-se Davi, e correu ao combate, a encontrar-se com o filisteu.
49 E Davi pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe encravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra.
50 Assim Davi prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e feriu o filisteu, e o matou; sem que Davi tivesse uma espada na mão.
51 Por isso correu Davi, e pôs-se em pé sobre o filisteu, e tomou a sua espada, e tirou-a da bainha, e o matou, e lhe cortou com ela a cabeça; vendo então os filisteus, que o seu herói era morto, fugiram.
52 Então os homens de Israel e Judá se levantaram, e jubilaram, e seguiram os filisteus, até chegar ao vale, e até às portas de Ecrom; e caíram os feridos dos filisteus pelo caminho de Saaraim até Gate e até Ecrom.
53 Então voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus, e despojaram os seus arraiais.
54 E Davi tomou a cabeça do filisteu, e a trouxe a Jerusalém; porém pôs as armas dele na sua tenda.
55 Vendo, porém, Saul, sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o capitão do exército: De quem é filho este moço, Abner? E disse Abner: Vive a tua alma, ó rei, que o não sei.
56 Disse então o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este moço.
57 Voltando, pois, Davi de ferir o filisteu, Abner o tomou consigo, e o trouxe à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu.
58 E disse-lhe Saul: De quem és filho, jovem? E disse Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita.


= = = = =

(2) Você é o Golias do repente, mas eu sou um Davi para lhe vencer

O mote que anima essas estrofes, vê-se de entrada, nos remete ao estilo Peleja ou Desafio, no qual pontifica a arte do insulto ou da provocação recíproca, a desafiar os brios dos contendores.
Embora se trate de uma opção muito frequente nas cantorias, e com ela as duplas já se sintam familiarizadas, vez por outra, provoca um certo constrangimento ter que duelar com o companheiro. Tanto mais pelo fato de que os contendores não têm muita saída: de um lado, não podem fazer “corpo mole”, já que estariam sob a pressão do público; por outro, não se sentem tão motivados em “massacrar” o companheiro, até porque tal risco vale para ambos da dupla.
Eis por que alguns tratam de encontrar um meio termo, partindo até de estratégias previamente montadas, ainda que apenas parcialmente, já que, em se tratando de improviso, o cuidado é redobrado, para não parecer cair no ridicularizado e combatido “balaio”, expressão pejorativa por alguns utilizada para designar estrofes pré-fabricadas, ainda que dando a entender resultar de algo improvisado.
Em todo caso, a ordem é recorrer à imaginação e à força das expressões.

(…)
Sou valente igualmente a Lampião
Eu já tenho o rifle e a peixeira
O cangaço é também minha trincheira
Um punhal pra botar em cada mão
Tenho algema que prende o campeão
Eu sou nuvem que passa pra chover
Eu sou fogo para lhe derreter
Quer provar? Dê um pulo em minha frente
Você é o Golias do repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer
Minha carga de rima é tão pesada
Seja ouro no claro ou lá nas trevas
O poeta peleja, mas não leva
Que é preciso passar nesta lombada
Meu repente vale uma tonelada
E quando eu parto cantando, é pra valer
Faço até repentista esmorecer
Se queixar de cansado ou de doente
Você é um Golias do repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer
(…)
Para mim você é só um garrote
Pra você eu já sou mais do que touro
És um louco tombando em bebedouro
Eu sou gênio mostrando os meus dotes
Tenho pernas pra dar o meu pinote
Em você faltam pernar pra corre
O meu rio agora vai encher
Você vai se afogar na minha enchente
Você é um Golias no repente
Mas eu sou um Davi pra lhe vencer

São, de resto, estrofes de dez versos decassílabos, forjados ao modo do Martelo Agalopado, e, portanto, com versos acentuados na terceira, na sexta e na décima sílabas, dentro da conhecida estrutura de rima ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

Nenhum comentário:

Postar um comentário