domingo, 7 de dezembro de 2014

Quando a morte chegou a Bagdá


Crédito da foto: parsihonar.wordpress.com

O sábio de Gorgán e a gata

Havia um grande sábio que vivia em Gorgán (Irã). Tinha em sua casa uma gata que o queria muito. Estava sempre junto a ele, e se não, se acocorava no tapete de oração. Ia livremente à cozinha, pois sabiam que nunca tocava em nada, contentando-se com o que lhe davam.

Pois bem, um dia ao entardecer, foi à cozinha e roubou um pedaço de carne da panela.

O servo do sábio se deu conta do ocorrido e lhe bateu.

A gata, magoada, colocou-se em um canto demonstrando seu descontentamento.

O sábio perguntou pela gata a seu servo, que lhe contou o que aconteceu. Então, chamou a gata e disse-lhe: "por que fizeste isso?"

A gata foi-se e retornou por três vezes, trazendo seus gatinhos recém-nascidos. Colocou-os aos pés do sábio, e triste refugiou-se em uma árvore, abrindo os olhos bem grandes e guardando silêncio.

O sábio dirigiu-se aos que o rodeavam, dizendo-lhes: "o delito desta gata é perdoável, pois não o cometeu pensando em si mesma. Sua conduta não tem nada de surpreendente, pois o amor materno é algo prodigioso. Enquanto não se tem filhos, não se pode compreender essa solicitude. Este pobre animal, privado da palavra, certamente sofreu muito. Peça-lhe perdão, e sua ira desaparecerá".

Coisa que o servo fez, mas sem êxito. O sábio, por sua vez, falou-lhe, rogando-lhe que descesse da árvore.

Em seguida, a gata desceu e acocorou-se a seus pés.

Todos os assistentes deram razão ao pobre animal e aderiram à gratidão daquele doce ser.
 

O credo do amor
 
Um dirigiu-se a porta da amada e bateu; uma voz perguntou: “quem está aí?”

Ele respondeu: “sou eu”.

Disse a voz: “não há lugar para mim e para ti”.

Fechou-se a porta. Após um ano de solidão e privações, ele voltou e bateu. Uma voz vinda de dentro perguntou: “quem está aí?”

O Homem disse: “és tu”. E a porta abriu-se para ele.

(de Jalaluddin Rumi)
 
 
O gramático e o dervixe (1)
 
Numa noite escura um dervixe passava junto a um poço seco, quando do interior do mesmo brotou uma chamado de socorro.

“Que será?”, indagou o dervixe, olhando para o fundo do poço.

“Sou um gramático e infelizmente, por desconhecer o caminho, caí neste poço profundo, em que estou agora quase imobilizado”, respondeu o outro.

“Aguenta firme aí, amigo. Vou buscar uma escada e corda”, gritou o dervixe.

“Um momento por favor!”, exclamou o gramático. “Sua gramática e pronúncia são incorretas, seria bom que as corrigisse”.

“Se isso é mais importante que o essencial será melhor que você permaneça onde está, até que eu tenha aprendido a falar com elegância e propriedade” - e após dizer tais palavras, o dervixe seguiu seu caminho.

(1) Dervixe - praticante do islamismo sufista que segue o caminho ascético da Tariqah; adepto da extrema pobreza e austeridade. Os dervixes são similares às ordens mendicantes dos monges cristãos e dos sadhus hindus, budistas e jainistas.
 
A promessa
 
Certo dia, um homem afligido por problemas pessoais prometeu solenemente que se os mesmos fossem solucionados sua venderia casa e doaria o produto da venda aos pobres.
 Chegou finalmente a ocasião de cumprir a promessa, mas como não desejava mais desfazer-se de tanto dinheiro, pensou num meio de contornar a situação.

Colocou a casa à venda por uma moeda de prata. Mas junto com a casa o comprador teria que adquirir um gato. E o preço pedido pelo animal fora fixado em dez mil moedas de prata.

Apareceu alguém que comprou a casa e o gato. Aí o antigo dono deu a moeda de prata aos pobres e embolsou as dez mil outras.

 
Quando a morte chegou a Bagdá

O discípulo de um sufi de Bagdá estava certo dia sentado a um canto de uma hospedaria quando ouviu dois personagens conversarem.

Pelo que pode ouvir, percebeu que um deles era o Anjo da Morte.

“Tenho várias visitas para fazer nesta cidade durante as próximas três semanas”, dizia o anjo a seu companheiro.

Aterrorizado, o discípulo procurou ocultar-se até que aqueles dois partissem, e então, apelando à sua inteligência para resolver o problema de como frustrar uma possível visita da morte, concluiu que, caso se mantivesse distante de Bagdá, não seria vitimado.

Dessa ideia à resolução de alugar um cavalo, o mais veloz ali existente, foi apenas um passo.

O discípulo montou no animal e picando esporas cavalgou noite e dia rumo à distante cidade de Samarkand.

Enquanto isso, a morte se encontrou com o mestre sufi e conversaram a respeito de várias pessoas.
“Por falar nisso, onde está aquele seu discípulo?”, Indagou a morte.

“Deve estar em algum lugar desta cidade, empregando seu tempo em contemplação, talvez numa hospedaria”, retrucou o sufi.

“Que estranho...”, disse o Anjo da Morte. “Ele se acha em minha lista. Sim, aqui está: tenho que recolhê-lo dentro de quatro semanas, nada menos que em Samarkand.”

Oração

Sufi Bayazid nos conta, o seguinte de si mesmo : "na juventude, eu era um revolucionário e assim rezava: 'Dai-me energia, ó Deus, para mudar o mundo!'“

“Ao chegar à meia-idade, notei que metade da vida já passara sem que eu tivesse mudado homem algum.”

“Então, mudei minha oração, dizendo a Deus: 'Dai-me a graça, Senhor, de transformar os que vivem comigo dia a dia, como minha família e meus amigos; com isso já ficarei satisfeito”

“Agora que sou velho e tenho os dias contados, percebo bem quanto fui tolo assim rezando.”

Minha oração, agora, é apenas esta: 'Dai-me a graça, Senhor, de mudar a mim mesmo' “

“Se eu tivesse rezado assim, desde o princípio, não teria esbanjado minha vida."

O cachorro, o bordão e o sufi

Um homem vestido como um sufi caminhava certo dia pela estrada quando viu um cachorro à beira do caminho, ao qual golpeou duramente com seu bordão.

O cachorro, ganindo de dor, correu à procura do grande sábio Abu-Said.

Arrojando-se a seus pés e mostrando sua pata ferida, clamou por justiça contra o sufi que o maltratara tão cruelmente.

O sábio chamou a vítima e o acusado. Fitando o sufi, ele disse: “ó insensato! como é possível tratar assim um pobre animal? Veja bem o que você lhe fez!”

“A culpa não me cabe, e sim ao cão. Não lhe bati por mero capricho, mas sim por ter sujado meu manto.”

Mas o cachorro persistia em sua queixa. Então o venerável sábio disse ao cachorro: “Em vez de aguardar a recompensa final, permita que lhe dê uma compensação pela sua dor.”

Ao que o cachorro retrucou: “grande e sábia criatura, quando vi este homem ataviado como um sufi, pude deduzir que não me faria mal algum. Em troca, se eu tivesse visto um homem vestido de maneira comum, naturalmente que me afastaria dele. Meu verdadeiro erro foi supor que a aparência exterior de um homem devotado à verdade representava segurança. Se deseja que ele seja castigado, despoje-o da vestimenta dos eleitos. Retire-lhe os paramentos dos servos da virtude...     

O cachorro estava num certo degrau do caminho para a verdade. É um erro crer que um homem deve ser melhor do que aparenta.

O pássaro indiano

Um mercador mantinha um pássaro numa gaiola. Estando de partida para a Índia, país do pássaro, perguntou-lhe se queria algo de lá.

 O pássaro lhe pediu sua liberdade, mas esta lhe foi negada. Então solicitou ao mercador que fosse a uma floresta na Índia e que anunciasse seu cativeiro aos pássaros livres que ali se encontrassem.

O mercador assim fez e mal se referira ao seu cativo, um pássaro selvagem semelhante ao que ele mantinha na gaiola caiu ao chão da árvore onde pousara, sem sentidos.

Pensando que o pássaro fosse parente do seu canário engaiolado, o mercador ficou pesaroso por ter sido o causador daquela morte.

Regressou a seu lar e então o pássaro cativo perguntou-lhe se trazia boas notícias da Índia.

“Receio que minhas notícias sejam más. Um de seus parentes teve um colapso e caiu morto a meus pés quando anunciei que você estava preso numa gaiola.”

Mal essas palavras foram pronunciadas, o pássaro do mercador sofreu um colapso e caiu no fundo da gaiola.

“A notícia sobre a morte de seu parente também lhe trouxe a morte”, murmurou o mercador.

Desolado, recolheu o pássaro e o colocou no rebordo da janela. Imediatamente o pássaro reviveu e voou para uma árvore próxima.

“Pode perceber agora, disse o pássaro, que o que você interpretou como uma tragédia era, na verdade, uma boa notícia para mim. E de como a mensagem, ou seja, a indicação de como me comportar para obter minha liberdade, me foi transmitida por meio de você, meu captor.”

Dito isso, se afastou num voo largo, livre por fim.

Contos sufi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário