sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Percepções



Escorpião

Um monge cruza uma ponte na qual mal se consegue equilibrar.

Embora seus passos sejam curtos e lentos, a ponte cada vez baloiçava mais.

Nisto um escorpião, escondido na ponte, começa a subir pela sua mão e continua lentamente pelo braço até alcançar-lhe o ombro.

O monge gelado de medo para sua caminhada e antes de entrar em pânico lembra-se de respirar fundo e acalmar a mente.

O escorpião não se mexe até que uma rajada de vento fá-los balançar violentamente e o atira no abismo.

Feliz, o monge agradece ao vento e segue sua caminhada.

 
Presente

Temos que estar totalmente despertos para apreciar o chá como deve ser.

Temos que estar no momento presente.

Apenas com a consciência no presente as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena.

Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a sua doçura e saborear a sua delicadeza.

Se estamos a lembrar do passado ou preocupados com o futuro, perdemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá.

Olharemos para a chávena e o chá terá já terminado.

A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olharmos à nossa volta ela terá desaparecido.

Quando pararmos de pensar no que já aconteceu, quando pararmos de nos preocupar com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente.

Só então começaremos a experimentar a alegria de viver.


Meditação

O mestre manda chamar um discípulo recluso há tempos em sua cabana nos arredores do mosteiro.

Há anos treinando com o mestre, o discípulo acha inusitado o chamamento e aquieta-se: "o que será que o mestre deseja de mim?"

"Será que vai me perguntar alguma coisa sobre o darma para me testar?"

"Será que deseja me atribuir algum cargo ou tarefa?".

Com a mente repleta de pensamentos e temores põem-se a andar, e por conta da tempestade leva seu guarda-chuva.
 
Ao chegar à casa do mestre, fecha o guarda-chuva, coloca-o a um canto, põem suas sandálias molhadas do lado do guarda-chuva, na frente do mestre fez as mesuras como manda a etiqueta monástica e senta-se.

O mestre lhe pergunta: "quando você entrou aqui, de que lado do guarda-chuva deixou suas sandálias?”. 

O discípulo não consegue se lembrar com certeza.

“Então volta à sua cabana e medita!”, dispensa-o o sábio.
 
 
Observador
 
O rei chama a seu palácio o mestre zen Muhak (1317-1405) e lhe diz que para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo queria ter uma conversa completamente informal com ele.

De pronto, o rei comenta que Muhak parece um grande porco faminto procurando comida.

“E você, excelência, parece o buda Sakiamuni meditando, sobre um pico elevado dos Himalaias.”

O rei fica surpreso com a resposta de Muhak: “comparei você a um porco e você me compara ao Buda?”

“É que um porco só pode ver porcos, excelência, e um buda só pode ver Buda.”

 
Coletivos
 
Mestre e discípulo vão a região onde há fartura de arroz, mas os habitantes do lugar possuem talas em seus braços, o que os impede de levar o alimento à própria boca.

No meio daquela fartura, passam fome, são fracos e subnutridos!

“Veja, disse o mestre. Aqui é o inferno coletivo.”

Em seguida, o mestre guia o discípulo a uma região próxima e mostra que nela também há fartura de arroz e as pessoas também tem os braços atados a talas, mas são saudáveis e bem nutridas, pois uma leva o arroz à boca do outro, em um processo de interdependência e cooperação mútuas.

“E isto é o céu coletivo.”

(ilustrações:psicofisicabiologica.zip.net)

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